SEM DONO I e II
Tela de Pablo Picasso (Fase azul) * SEM DONO * I * Não sabe se é ateia ou se é pagã Uma mulher que passa distraída E vai saboreando uma maçã Que desconhece estar a ser comida * Que sabe essa mulher do amanhã Se vive ao deus-dará, desprotegida? Parece-lhe a questão um tanto vã Pra quem barata vende e compra a vida... * Abre a porta do quarto de aluguer Devagarinho para não ranger E senta-se num banco. Está com sono. * É tarde, é muito tarde pra pensar E depressa adormece. Ao acordar, Jurará que é feliz por não ter dono. * II * Ele ergue um novo muro a fio-de-prumo, Carrega às costas passado e futuro E almoça muito à pressa num arrumo Uma cerveja quente e pão já duro * Fuma um cigarro. Uma argola de fumo Forma-se e esvai-se toda no ar puro Como se optasse por traçar um rumo Que pra nenhum dos dois será seguro * O cimento atingiu o ponto certo E o muro cresce como que liberto Da tal conotação que não merece * O Sol está quase a pôr-se atrás do mar E o muro ainda está por acabar... P...