PEÇO DESCULPA; NEM UM VERSO OUVI... - Coroa de Sonetos

eu na praia ii.jpg


NEM UM VERSO OUVI... - COROA DE SONETOS


Maria João Brito de Sousa e Custódio Montes


*


1
*


Houvesse, hoje, um versito distraído


Que por aqui passasse por acaso


E que algo murmurasse ao meu ouvido,


Pra poder-vos dar conta deste atraso...


*


 


Fosse de pé quebrado ou mal medido,


Quase a desvanecer-se num ocaso,


Gago que fosse ou tão mal construído


Que em tudo semelhasse ângulo raso,
*


 


Que quisesse ser recto e não se erguesse


Um grauzito sequer que graça desse


A quem o visse ou lesse por aí...
*


 


Mas este que encontrei sem voz, nem dono,


Tudo quanto fará é dar-vos sono;


Peço desculpa. Nem um verso ouvi.
*


 


 


Maria João Brito de Sousa - 24.07.2020 - 14.30h
**


2
*


Também eu não ouvi sequer um verso


Pois fui passar uns dias à aldeia


Sem versos, claro, venho de alma cheia


E este estado assim é bem perverso
*


Trazer a alma toda em anverso:


A alma com poesia sem que leia


O ritmo que entre ela se encandeia


E firmem no conjunto um universo
*


É termos o poema cá bem dentro


E a forma arredada do seu centro


E não o publicar nem o fazer
*


Às vezes fica o mundo frio, escuro


Sem vermos o presente e o futuro


E um verso só bastava para o ver.
*


Custódio Montes


**


3
*


"E um verso só bastava para o ver"


Pois bastaria apenas tê-lo ouvido,


Mas... desta vez escondeu-se, emudecido,


Talvez sentindo medo de morrer,


*


Talvez pensando poder-se perder


Quiçá de si, do seu próprio sentido,


Que entre hospitais se sente já perdido


E nunca tem vergonha de o dizer...
*


A Musa foi de súbito tomada


Por um medinho atávico, ancestral,


E escondeu-se debaixo de uma escada
*


Assim que viu, ao longe, o hospital.


Bem a chamei. Não me serviu de nada...


Estou "desmusada" e a sentir-me mal!
*


Maria João Brito de Sousa - 25.07.2020 - 11.25h


**


4
*


"Estou "desmusada" e a sentir-me mal"


Melhoras lhe desejo a si e à musa


Mas mais a si que esta isso escusa


Doente embora é fenomenal
*


Os versos que ela engendra são sinal


De veia que se mostra bem difusa


Reergue-se depressa e não recusa


Andar correr e ser original
*


Por isso não se queixe, minha amiga


Senão olhe que Deus inda a castiga


Nós não o desejamos nem queremos
*


Doenças têm cura e melhora


E mesmo apenas sã uma só hora


São belos os poemas que lhe lemos.
*


Custódio Montes
**


5
*


"São belos os poemas que lhe lemos",


Poeta que ontem foi à sua aldeia


E dela veio com a bela veia


Que hoje frutificou, como aqui vemos!
*


Entrou na Barca Bela e fez-se aos remos


Sem medo do "mar grande" e da sereia,


Nem do rochedo e dos bancos de areia


Nos quais já tantas vezes perecemos...
*


Chegou e dou-lhe agora as boas vindas


Porque assim se recebem bons amigos


Que foram visitar as praias lindas
*


Que já foram seus berços, seus abrigos;


Desejo felicidades sempre infindas


E poucos ou nenhuns dos meus castigos.
*


Maria João Brito de Sousa - 26.07.2020 - 08.40h


**


6
*


"E poucos ou nenhuns dos meus castigos"


Os seus castigos são materiais


E não como se vê de outros mais


Pois olha e vê bem longe por postigos
*


Que outros pelo ar e com perigos


Tão só divisam coisas bem normais


Sem luas sois ou tardes outonais


Com sonhos ou quimeras como abrigos
*


Ainda para mais desculpas pede


De não ouvir um verso ou melodia


Quando nada se vê de que se arrede
*


E produz seus poemas dia a dia


De toda a realidade a que acede


E isso porque é toda poesia ....
*


Custódio Montes


(26.7.2020)
**


7
*


"E isso porque é tod(a)o poesia"


E merece o respeito e a amizade


De quem a responder-lhe não se evade


E o faz com muitíssima alegria


*


Haja quem nos secunde com mestria,


Que eu, dos meus olhos, sinto já saudade


E ao lume deixo a açorda que, em verdade,


Por um pouquinho mais se queimaria...
*


Alguma coisa ainda vejo, sim,


Mas a cabeça dói-me, os olhos ardem,


E já nem sei o que será de mim
*


Se for em vão que meus olhos aguardem


As cirurgias... mas, até ao fim,


Vou crer que sim, por muito que elas tardem!
*


Maria João Brito de Sousa - 26.07.2020 - 11.29h
**


8
*


"Vou crer que sim, por muito que elas tardem!"


Mas vão chegar depressa isso vão


Aos olhos também fiz operação


E agora vejo bem e já não ardem
*



Que os deuses a protejam e a guardem


E que lhe restituam a visão


Para podermos ter sua lição


Que os médicos se apressem, não aguardem
*


Eu penso que vai tudo correr bem -


Comigo assim foi e eis a prova


Puseram lentes novas e também
*


Se foi a miopia, o que renova


A vista que alcança mais além -


E vai ficar, amiga, como nova.
*


Custódio Montes


(26.7.2020)
**


9
**


"E vai ficar, amiga, como nova",


Diz-me o amigo, muito gentilmente...


Mas eu pergunto quando. É mesmo urgente


E esta quase-cegueira bem o prova.
*


Esforçadamente leio ou escrevo a trova


E tudo faço assim; esforçadamente,


Além do que se exije a toda a gente


E, pior, estando já c`os pés prá cova
*


Já que esperança de vida, pouca tenho


E, se bem que isso encare com bravura,


Melhor fora podarem-me este lenho
*


Que à vida me traz dor e desventura


E darem-me a visão que tive antanho


Pra não andar, das teclas, à procura...


*


Maria João Brito de Sousa - 26.07.2020 - 13.21h
**


10


*
"Pra não andar, das teclas, à procura"


Mas vê bem as palavras, isso vê


Pois nota isso a gente que a lê


Que encontra nelas força e candura
*


Arrojo, sentimento com doçura


E criatividade e os porquês


De tão bem escrever em português


De ser muito vernácula e pura
*


Mas não vou parecer adulador


Que o que se diz às vezes tem um custo


Mas ser omisso outras é pior
*


E eu não tenho peias não me assusto


Afirmo sempre aquilo que é melhor


E aqui o que eu afirmo é tudo justo.
*


Custódio Montes


(26.7.2020)
**


11
*


"E aqui o que eu afirmo é tudo justo"


Mas o que não é justo, com certeza,


Foi deixarem-me, há anos, assim presa


A escrever tudo com tão grande custo!
*


Não será facilmente que me assusto,


Conseguirei manter certa frieza


E por vezes até sair ilesa


Do confronto com quem é mais robusto,
*


Se confronto existir, que o não procuro!


Mas conseguindo ser muito objectiva,


Não tenho medo nem sequer do escuro!
*


Ainda que "pitosga", estou bem viva


Mas devo confessar que é muito duro


De tanta "pitosguice" estar cativa!
*


Maria João Brito de Sousa - 26.07.2020 - 14.25h
**


12
*


"De tanta "pitosguice" estar cativa",


Atrasos sem desculpa e sem valor


Seria menos mau e até melhor


Ir ter ao hospital e aflitiva
*


Dizer a alma aí caritativa


Que tem sua visão má e pior


Que há só escuridão e sente dor


E ser frontal e bem explicativa
*


Eu sei que a poetisa não faz isso


Mas muitos há decerto que lá vão


Conseguem de certeza compromisso
*


De formas pouco lícitas que são


Escuros, tristes modos e por isso


Pratica só quem age em corrupção.
*


Custódio Montes


(26.7.2020)
**


13
*


"Pratica só quem age em corrupção"


Esses truques e manhas, bem o sei...


Para a minha pensão - pensão de rei! -


Duzentos e setenta; mais não são!
*


Para quem sobrevive a tal pensão,


Sem recorrer ao que antes mencionei,


Não está fácil a vida... lei é lei!


Pra corrupta não trago vocação!
*


E agora que escrevi a bom escrever,


Que lhe falei de (algumas) desventuras


E que aqui me fui dando a conhecer,
*


Vou tomar um café; estou com tonturas


E a tensão está de novo a prometer


Descer de lá do topo das alturas
*


Maria João Brito de Sousa - 26.07.2020 - 16.38h
**


14
*


"Descer de lá do topo das alturas"


Mas tem que o fazer bem devagar


Senão pode cair e se aleijar


Perdendo os sentidos com tonturas
*



Beber café é sim uma das curas


Para a tensão poder remediar


Melhor seria não subir/baixar


E não ter de curar essas rupturas
*



Desejo-lhe as melhoras, fique bem


Merece ser feliz e ver vencido


O mal que a rodeia e que contem
*


Estando bem, aposto, convencido


Brincava certamente aqui também,


"Houvesse, hoje, um versito distraído"...
*


Custódio Montes



(26.7.2020)


 


 

Comentários

  1. Brancas nuvens negras28 de julho de 2020 às 13:09

    Curiosa a torrente de poesia ao despique. E para comentar, peço desculpa pela incompetência, mas só me apetece fazer assim:

    Também eu já tive um olho avariado
    e o outro dá sinais de desarranjo
    o primeiro já foi entretanto consertado
    p'ro segundo espero com paciência d'anjo

    Consigo também decerto assim será
    mais dia menos dia abrindo os olhos
    uma grande e bela surpresa terá
    e os seus olhos vão olhar sem ter escolhos.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Muito obrigada, L.

      Devo dizer-lhe que esta prática tem profundas raízes populares, mas não é muito comum que ocorra em forma de soneto, como calculará... também devo dizer-lhe que tanto eu quanto o meu interlocutor - digamos assim... - nos entusiasmámos tanto com esta "conversa" que nos esquecemos que estávamos a construir uma Coroa de Sonetos, que é uma estrutura composta por catorze sonetos que encadeiam o último verso de um autor no primeiro verso do outro e que termina o seu percurso circular com o primeiro verso do primeiro dos sonetos. Pode parecer uma aborrecimento para um leigo, mas para os sonetistas estas conversas são uma perfeita delícia, asseguro-lhe!

      Quanto aos meus encataratados olhos... espero que tenha razão, contudo... não só os exames oftalmológicos que tinha marcados para depois de amanhã, mas também a consulta de Oftalmologia, foram desmarcados "sine die". E há anos que espero por essa bendita cirurgia com uma paciência talvez não tão angélica, porém paciência, também...

      Fico muito grata pelas duas quadras que aqui me deixou, L.

      Forte abraço

      Eliminar
  2. Olá Maria João!
    Também já tentei colocar a vossa bela coroa no HP. Não consegui.
    penso que estará em baixo ou em manutenção. Não deixa publicar nada novo
    Beijinho grande

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Olá, São!

      Não se preocupe; a NING deve andar novamente em "remodelações"... amanhã ou depois, publicamos! Obrigada pela sua preciosa tentativa de ajudar!

      Beijinho grande

      Eliminar
    2. Já reportei o erro. Disseram que é um bug e que vão tentar reparar rápido.
      Beijinho grande

      Eliminar
    3. Obrigada pela informação, MEA!

      Ai os bugs que andam por aí, para além deste omnipresente SARS-CoV-2

      Beijinho grande

      Eliminar
  3. E se a obra
    a que nos temos referido
    fosse uma coroa de sonetos?
    Faz sentido?

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Não, Rogério, nem pensar... estas coroas só têm alguma graça para nós, os peritos e aficionados do soneto clássico, não são de forma nenhuma a maneira ideal de levar o soneto aonde tu sabes. Mais a mais porque as Coroas "a solo" são, de uma maneira geral, monocórdicas, pesadas e aborrecidas... além de conterem apenas 14 poemas.

      Entre dois ou mais exímios sonetistas, podem surgir "conversas" muito estimulantes contendo mensagens bastante interessantes, mas acredita que não é por aí que vou, neste caso.

      Abraço!

      Eliminar
  4. Juntaram-se os dois à esquina
    a poetar
    mas, mas onde está a Concertina ? que não se ouve ?

    Brinco e com parabéns à desgarrada

    Beijinhos e um belo dia

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Olha, Anjo, creio que nenhum de nós ouviu a concertina, rsrsrsrs...estavamos ambos embalados pela melodia do verso heróico e esquecemo-nos, até, de que estávamos a tecer uma Coroa...

      Obrigada e beijinhos

      Eliminar

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