À FLOR DO NOSSO ESPANTO

The Dream - M. Chagall (1).jpg


O Sonho - Marc Chagall


*



À FLOR DO NOSSO ESPANTO
*


 


"Numa brisa soprada pelo vento",


Nas asas de uma pomba que esvoaça,


Deponho uma centelha - só! - da graça


Que às musas concedeu algum talento
*



E a minha que, privada de alimento,


Murchando se enrugara como passa,


Vai retomando, ao vê-la, a antiga traça


E de novo recobra algum alento
*



Voemos pois ainda que pousados


No maltratado chão dos nossos fados


Ou na magoada voz do nosso canto
*



Voemos tal e qual bichos alados


Sobre as montanhas ou rasando os prados


Que irão nascendo à flor do nosso espanto.
*



Mª João Brito de Sousa


13.12.2022 - 10.40h
***


Soneto concebido a partir do último verso do soneto "A Voar" do poeta Custódio Montes.

Comentários

  1. O nosso espanto é que tem dado flor.
    Um abraço.
    L

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    1. O comentário saiu incompleto.
      Cá vai o que quis dizer:

      O nosso espanto é que tem dado flor e, dessa flor, que sementes sairão, essa é a minha dúvida.
      Um abraço.
      L

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    2. Nem eu sei exactamente que sementes sairão dos frutos desta colheita, L., mas faço por continuar ainda que a Musa esteja meio drogada e em estado catatónico.

      A única coisa que eu sei que ainda posso fazer é escrever poesia. O coração pediu-me poesia metrificada assim que cheguei aos 55 anos. A razão analisou prós e contras e, serenamente, votou a favor.

      Agora só falta que a Musa recupere do seu induzido torpor ...

      Obrigada e um forte abraço!

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  2. Bela tarde com alegria
    que com espanto
    o mau tempo por aí e já é dia
    parece pranto, que alivia, , beijinhos

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    1. Bela tarde para ti também,

      Ufa! Nem imaginas a confusão que foi nesta casa quando, ontem á noite, as nuvens resolveram criar uma réplica do Dilúvio sobre toda a grande Lisboa... Desde lâmpadas que se acendiam sozinhas, a uma goteira na marquise e um cheiro a plástico queimado que me obrigou a ficar acordada a noite inteira com medo de que a casa se incendiasse, esta casa parecia assombrada. Hoje estou mais morta do que viva e amanhã tenho de estar muito cedinho no hospital para mais uma consulta de Medicina Interna.

      Enfim, só me apetece atirar-me para cima da cama e dormir, mas tenho medicamentos para tomar a horas certas e vou ter de me aguentar.

      O que dizes sobre o pranto é bem verdadeiro: o choro, em momentos de grandes tristezas e grandes perdas, é muitíssimo saudável. Pena tenho eu de já ter esgotado as minhas lágrimas todas...

      Beijinhos

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  3. Poema lindíssimo que me fascinou ler.
    .
    Feliz Natal … Saudações poéticas
    .


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    1. Muito obrigada, Ryk@rdo !

      Retribuo os votos de um muito Feliz Natal! [<<-]

      Abraço!

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  4. E essa brisa vem soprando, até aqui, Maria
    Uma manhã tão quente que as nuvens brancas se diluíram derramando uma chuvinha refrescante ,enquanto leio com espanto o que a Musa não faz para uma flor...
    Voemos amiga por prados e ravinas dia a dia remindo o tempo.
    Abraços
    p.s _ fiz um comentário hoje cedo, em outro poema que não encontro mais .
    Sobre a outra metade da sua musa... deve achar, se não se perdeu.
    Um abraço

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    Respostas
    1. :) Lis, olha aqui o teu comentário que está inteirinho no sonetilho de ontem, "COMBO" -
      "Quem sabe sua Musa tem um lado temperamental que reage ao clima , destemperando por alguns instantes. Logo logo volta a normalidade , cheia de graça e com uma intensidade poética surpreendendo a ti e aos seus seguidores.
      É a tua metade do combo , a mais linda Florzinha
      _ trate-a bem 'na saúde ou na doença' e daqui vamos agradecendo.
      Beijo ,Maria e abraços também"

      E aqui está a minha resposta - "Ah, Lis, quem tem essa extrema sensibilidade ao clima e fica deprimido nos dias de chuva intensa, é o meu esquentador "inteligente". A minha Musa não se importa nada com o vento e a chuva não a incomoda, mas como faz parte de mim, sente-se despojada da sua criatividade e amordaçada por um específico medicamento antiálgico que invade um território muito seu: o meu sistema nervoso central.
      Ela que sempre foi selvagem e temperamental, sente que lhe estão a roubar o seu melhor e se o resto de mim não passasse o tempo todo a tentar reanimá-la, nem um simples verso teria sido publicado desde que comecei a tomar a Gabapentina.

      Obrigada :) Beijos e abraços também para ti!"

      Quanto ao teu comentário de agora mesmo, nem sei como explicar-te o quanto me apetecia agora estar a sentir esse calorzinho bom que tu descreves... Por aqui o tempo tem estado como esteve em 1967: assustador! Algés, a vila onde cresci, está completamente alagada e até já se afogou uma senhora que morava numa cave que inundou repentinamente. Desta vez foi só uma pessoa, mas em 1967 foram muitas, infelizmente.

      Mas façamos como dizes e voemos por prados e ravinas remindo o tempo

      Um abraço !

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    2. OI Maria Flor
      Li tudinho no retorno dos dois comentários e fiquei contente de não ter perdido por aí rs
      Sentindo falta da sua assiduidade com a poesia , vim te ver e saber se tudo está indo bem com esse famoso remédio que te alivia um pouco e não deixa a musa dormente e sem energia. Te esperamos , amiga
      É Natal ! Celebremos com vinho ou sucos de uva ,mas celebremos ! pela vida, pelos amigos, pela familia , pela chuva também _ o sol virá com certeza.!
      muitos abraços e Feliz Natal.

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    3. Desculpa-me a demora, Lis, mas não me tenho andado a sentir mesmo nada bem nestes últimos dias e embora tenha um amigo que não só me leva de carro para o hospital como também me empurra a cadeira de rodas, o certo é que fico tão cansada como se tivesse andado a escalar montanhas...

      Celebrarei, claro, nem que seja com uma infusão de tília

      E posso não ter pinheirinho, mas tenho um esplêndido cacto de Natal, cheio de luzinhas [<<-]

      Muitos abraços e um Feliz Natal, também para ti!

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  5. "Nas asas de uma pomba que esvoaça..." o tempo passa e por nós perpassa!

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    1. Boa noite, Francisco!

      Aproveitemos o tempo cronológico que nos cabe, ainda que o tempo meteorológico nos chicoteie paredes, janelas e telhados com verdadeiros rios de água gelada...
      Parece que o pior já passou e embora eu tenha recebido um novo alerta da Protecção Civil (via sms) li agora mesmo que as escolas de Oeiras reabrirão amanhã.

      De qualquer forma, de carro, de submarino ou de barco a remos, terei de comparecer a uma consulta hospitalar amanhã bem cedinho.

      Um abraço!

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