FILHO DAS TEMPESTADES

A ILHA DE S. NUNCA (1).jpeg


FILHO DAS TEMPESTADES
*


 


Andou perdido por remotas plagas


Sem bússola nem vela. Era a Paixão


Quem o mantinha à tona sobre as vagas


Do mar da sua imensa solidão
*



Cerrava as mãos. Fechadas como garras


As levava do leme ao coração


Quando da barca soltava as amarras


Aos primeiros sinais de um furacão
*



E assim se fazia à tempestade


Como à bonança os outros se faziam


Mal o vento amainava o seu furor
*



Pra si, porém, o vento é liberdade


E os raios são pendões que o desafiam


A vencê-los em espanto e garra e cor.
*


 



Mª João Brito de Sousa


21.02.2023 - 10.00h
*


 


 


 

Comentários

  1. "...o vento é Liberdade." Que vença as tempestades, com Poesia!

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    1. Muito obrigada, Francisco!

      Escrevi este soneto a pensar no meu avo poeta. Neste momento e desde há algum tempo, o meu mal é mesmo o extremo cansaço físico e intelectual. Não estando hospitalizada, só mesmo um imenso cansaço intelectual me poderia afastar da poesia durante tanto tempo.

      Forte abraço!

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  2. Que belo soneto.
    Fez-me lembrar um homem do mar, que não tem medo de nada.
    Nem do vento, nem da maré.
    Mas eu costumo dizer que a coragem deles é igual ao medo (que nao deixam transparecer.)
    Gostei muito do soneto.
    boa semana
    beijo
    :)

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    1. Viva, Piedade !

      Há muito mar na poesia do meu avô e, estranhamente, também na minha...
      De alguma forma a Natália Correia desvendou esses mares, na obra Ilha de Sam Nunca ( na imagem) que é inteiramente dedicada ao meu avô poeta que nasceu no Porto mas que trazia consigo a insularidade de seu pai, o médico e cientista António Joaquim de Sousa Júnior, natural natural da Praia da Vitória, ilha Terceira.

      Obrigada, boa semana e um beijinho!

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  3. Saúdo o seu reaparecimento. E não é que volta em força?
    Um abraço.
    L

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    1. Sinceramente, L., a força anímica é exactamente aquilo que mais me tem faltado nestes últimos tempos, mas fico muito feliz por saber que lhe agradou este poema que escrevi a pensar no meu avô poeta.

      Obrigada e um forte abraço

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  4. Eu confesso que desconhecia a poesia de António de Sousa. Resolvi então procurar na internet e, entre vários poemas seus, incluindo um que foi cantado por Amália Rodrigues, encontrei isto:

    "António de Sousa viveu, a partir da década de 50, na sua casa de Algés, na Rua Luís de Camões, 91-A. Profundamente abalado pela morte de sua mulher, Alice Toufreloz Brito de Sousa, deixou de frequentar os cafés de Lisboa e retirou-se para uma vida ascética, tendo como únicas companhias os livros, uma velha gata preta e como única visita a neta, Maria João."

    (http://www.antoniomiranda.com.br/Iberoamerica/portugal/antonio_de_sousa.html)

    Agora, sim, julgo que consegui compreender o profundo significado, cheio de amor, deste maravilhoso soneto da neta Maria João.

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    1. Fernando, fico muito, muito feliz por lhe ter podido dar a conhecer a poesia do meu avô. :)

      Se quiser conhecer mais alguns poemas dele, pode visitar um blog que criei para ele logo a seguir a ter criado este meu blog dos sonetos: https://antoniodesousa.blogs.sapo.pt/

      Muito grata pelo link para o Portal de Poesia Ibero-Americana de António Miranda que, de todo, não conhecia, bem como pela gentileza das suas palavras.
      Já que fala num poema que o meu avô criou para ser cantado pela grande Amália, digo-lhe que o fado Saudades de Coimbra, cantado pelo Zeca Afonso, também é de sua autoria e faz parte do repertório poético do seu Livro de Bordo, desde a sua primeira edição ainda no início dos anos cinquenta. Também o poema Carta de Longe, escrito para a minha avó quando se encontrava na Dinamarca enquanto secretário geral da ACM, é de sua autoria. Aqui vai, cantada pelo Menano https://www.youtube.com/watch?v=QHTOQNbdgfg.

      Obrigada e um forte abraço!

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  5. Bonita homenagem ao Vovô MJ

    Bom e belo dia com alegria, beijinhos

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    1. Olá, !!!

      Este avô foi uma espécie de segundo pai, para mim...

      Bom dia com muita alegria também para ti. Penso que aí não chegarão as areias do Sahara mas, por aqui, está tudo fosco e empoeirado...

      Beijinhos

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  6. O seu avô havia de ficar muito feliz com a neta, poeta de belos sonetos como este, que fez a pensar nele. Gostei imenso.
    Tudo de bom para si, minha Amiga Maria João.
    Um beijo.

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    1. Muito grata pelas suas palavras, Graça :)

      Embora tenha sido o verso branco do Modernismo Português que fez dele um poeta sempre presente nas páginas dos jornais culturais do século XX, o avô era um exímio sonetista e manteve até ao fim da vida uma imensa e silenciosa/silenciada paixão pelo soneto.

      Eu, que não sou ninguém, não me vergo a nada, nem procuro seguir o que mais "vende", nunca calarei esta minha paixão que, em tempos, foi também a paixão dele.

      Um beijo

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