DEZASSETE DE JANEIRO
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Fotografia de Carlos Ricardo
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DEZASSETE DE JANEIRO
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Irei desintegrar-me em dez segundos
Após a conclusão do que decreto
Aqui, preto-no-branco, a branco e preto,
Em caracteres ousados e rotundos
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Há vermes a soltar viscos imundos
Sobre o que já foi sonho e foi projecto
E agora pode ser o mais abjecto
Dos actos sujos, vis, nauseabundos...
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Nada de novo aqui, neste poema:
Bem melhor abordou o mesmo tema
Henriques Britto, o bom soneticida
*
Que no seu "Dezanove de Janeiro"
Fuzilou um soneto passageiro
Meteu-se na "bagnole" e fez-se à vida.
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Maria João Brito de Sousa
Portugal
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Inspirado no soneto "Dezanove de Janeiro" do poeta brasileiro Paulo Henriques Britto
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Bagnole - automóvel, veículo de 4 rodas ou carripana em francês
Muito bom, Maria João!
ResponderEliminarUm abraço.
Muito obrigada, Cheia.
ResponderEliminarOutro abraço
Apenas me ocorre dizer que é um poema muito curioso, com significado no 17 de Janeiro, quanto ao 19 de Janeiro... não sei.
ResponderEliminarUm abraço.
L
Bom de ler MJ
ResponderEliminarA foto acima penso eu que sejam folhas secas de Tabaco,
Ainda bem que o deixei há já 3 anos.
Bela terça, beijinhos
Viva,
ResponderEliminarTambém me parece que possa ser uma folha seca, mas o amigo que me cedeu esta e outras imagens é um fotógrafo que gosta de trabalhar a cor e a luz de forma a criar figuras abstractas... Nesta sua fase, dificilmente se reconhece/m o/os objecto/s que estava/m em frente da objectiva quando ele fez "click" e os resultados são fabulosas e surreais manchas/paisagens coloridas.
Boa terça-feira para ti também.
Beijinhos
Viva, L.
ResponderEliminarEste soneto foi inspirado num outro soneto de Paulo Henriques Britto. Chamei-lhe assim porque o escrevi no dia 17 de Janeiro de um ano qualquer.
Aqui lhe deixo o delicioso soneto que me levou a escrever este soneticídio
Até esta chegar às suas mãos
eu já devo ter cruzado a fronteira.
Entregue por favor aos meus irmãos
os livros da segunda prateleira,
e àquela moça —a dos “quatorze dígitos”-
o embrulho que ficou com teu amigo.
Eu lavei com cuidado o disco rígido.
Os disquettes back-up estão comigo.
Até mais. Heroísmo não é a minha.
A barra pesou. Desculpe o mau jeito.
Levei tudo que coube na viatura,
mas deixei um revólver na cozinha,
com urna bala. Destrua este soneto
imediatamente após a leitura.
Paulo Henriques Britto
Boa tarde Maria João,
ResponderEliminarComo consegue? Que maravilhoso o seu génio...
Doente e mais doente
Ainda assim remata.
Belos versos a quente
Um soneto que desata
Nem imagino como será
Quando estiver bem.
Decerto escreverá
Uma ode como convém.
Como estamos hoje. Um abraço de amizade e as melhoras.
Boa tarde Maria João
ResponderEliminarEste soneto constrói-se como um exercício lúcido de metapoesia e diálogo intertextual, assumindo sem pudor a sua filiação ao universo crítico e irónico de Paulo Henriques Britto. Logo no título, Dezassete de Janeiro, estabelece-se um jogo temporal que ecoa e tensiona o poema de referência, não como imitação, mas como resposta consciente e assumida.
A voz poética apresenta-se em estado de autodemolição controlada: o poema decreta a própria desintegração, expondo o desgaste do sonho, do projecto e da palavra escrita.
A linguagem é deliberadamente crua, quase viscosa, povoada de imagens de decomposição que contrastam com o rigor formal do soneto, criando uma tensão eficaz entre forma clássica e conteúdo corrosivo.
Há também uma ironia fina e auto-reflexiva quando o poema reconhece que “nada de novo” traz, atribuindo a Britto o estatuto de “bom soneticida”.
Esse gesto não diminui o texto, antes o engrandece, pois revela consciência crítica, humildade literária e inteligência estética.
O fecho, com a imagem cinematográfica da fuga na bagnole, encerra o poema com humor ácido e movimento, libertando-o do peso do desencanto inicial.
Trata-se, assim, de um soneto que reflete sobre o próprio acto de escrever, sobre o esgotamento e a persistência da poesia, e que encontra na intertextualidade não um abrigo, mas um campo fértil de reinvenção.
Um trabalho poético muito trabalhoso.
Boa semana e saúde é o que desejo.
Deixo um beijo
:)
Olá, José da Xã
ResponderEliminarComo o consigo não sei,
Mas é tal qual respirar
E eu sempre respirei
Sem sequer me questionar...
*
Ainda bem que aqui veio:
Estava a sentir-me sozinha
E até com algum receio
De não escrever uma linha
*
Enquanto estou a aguardar
Da análise, os resultados...
Este ardor está-me a matar
E a dor parte-me aos bocados
*
Mas pior, pior ainda,
É ter vindo outra infecção
Juntar-se à que não mais finda
Por mais que eu lhe diga: - NÃO!
*
Como vê, ou melhor, como lê, continuo a piorar e o raio do INR continua baixinho, baixinho, baixinho...
Estou cheia de sono mas não me posso ir deitar porque os medicamentos que me foram receitados ontem ainda não chegaram. Como estou que mal me aguento de pé, telefonei para a farmácia, debitei os códigos da receita e pedi para mos trazerem a casa.
Também aguardo os resultados de uma cultura laboratorial que ontem me mandaram fazer e que sei que está positiva porque se estivesse negativa já teria chegado por correio electrónico.
Obrigada e outro abraço de amizade para si
Lamento tanto esse estado de doença permanente.
ResponderEliminarSe eu pudesse ficaria com algumas das suas maleitas.
O meu aguentocaína está ainda válido.
Desculpe a brincadeira mas por vezes quando rimos sentimos menos dores menos sofrimento.
As suas boas melhoras!
Obrigado pela amizade.
Obrigada por mais uma vez ter aqui deixado a sua brilhante análise poética, Piedade
ResponderEliminarAproveito para beber regalada esse calicezinho de saúde com que me brinda no final porque a minha saúde, não sei como, encontrou forma de piorar em relação aos anos anteriores, talvez com excepção do Inverno de 2019, em que tive o enfarte, a pericardite, a gripe A e a pneumonia, tudo seguidinho. Este Inverno já me custou uma semana e um dia de internamento hospitalar e parece não estar ainda satisfeito com o preço que me cobrou...
Um beijo
...
Ó José da Xã, fico-lhe muito grata mas aconselho-o vivamente a ponderar sobre esse seu acto de heroísmo. Olhe que isto não é pera doce e não vai lá nem com uma tonelada de Aguentocaína
ResponderEliminarEu também sou muito brincalhona, não tem razões nenhumas para se desculpar. E tem muita razão, isso sim, quando afirma que o riso pode aliviar um pouco as dores
Um abraço