A GAVETA DOS ACASOS

 


 


 



Todos deveriam ter uma, pensou ao abrir a gaveta superior da secretária.


As nuvens, lá fora, não haviam meio de decidir-se. Invadiam o espaço exterior como rainhas absolutas da tarde. Ameaçavam mesmo invadir-lhe o quarto, pousar sobre ela, asfixiar a criatividade que de si emanava. E por ali pareciam estar apostadas em manter-se, tiranas, gordas, pasmas.


- Antes chovesse…, murmurou enquanto retirava as primeiras folhas de papel descuidadamente arrumadas na “gaveta dos acasos”. Amontoava-as, agora, sobre uma cadeira, em gestos rápidos e mecânicos, uma parte de si concentrada na tarefa, a outra lá por fora, onde os cúmulos cinzentos se indecidiam sobre a sua vocação tempestuosa. Mas nada parecia fazer sentido naquela tarde de chumbo e a arrumação nunca fora um dos seus melhores trunfos.


 


Um pedacito de papel amarelecido chamou-lhe, subitamente, a atenção. Apenas o vislumbrara entre montanhas de papel mais recente, encarquilhado nas pontas, prometendo memórias que dissipariam as nuvens pesadonas que a olhavam embasbacadas. Não foi fácil redescobri-lo e retirá-lo do caos que sempre fora a sua “gaveta dos acasos”, mas a paciência, essa sim, sempre tinha sido uma das suas grandes qualidades.


As pontas dos dedos tacteavam, escolhiam, procuravam a textura e as medidas que correspondessem ao apetecido pedacinho de papel que, por segundos, enxergara.


Encontrou-o, por fim, e lá o conseguiu trazer, intacto, até onde os olhos pudessem decifrar as letras que o tempo começava a desbotar. A caligrafia não era a sua. Esta foi a primeira certeza que teve em relação ao rectangulozinho amarrotado. A partir daí as memórias fluíram-lhe em catadupa, substituindo a chuva que nunca mais acontecia, como se se eternizasse na incompletude da sua própria indecisão.


Recordou o avô sentado no seu imponente cadeirão. Imponentes os dois, cadeirão e avô, mas ambos tão acessíveis quanto uma pequena escalada em direção aos joelhos do velho patriarca, sempre confortáveis e disponíveis.


 


Recordou, também, a sala inteira. A mesa oval, de mogno. O enorme divã do lado esquerdo do aposento, junto às vidraças que davam corpo à parede poente da divisão. A magnífica braseira de cobre assente na sua base octogonal de madeira envernizada. Os louceiros que se erguiam à direita como antevisões do que lhe parecia ser um par de negros arranha-céus, tão alto se erguiam em relação aos seus quatro ou cinco palmos de altura.


 


Ouviu a avó, na cozinha, dando uma breve ordem à criada. Ouviu o barulho dos tachos sobre o fogão, a água jorrando da torneira e, de repente, viu-a a “Ela”, a borboleta-da-noite que viera pousar-lhe na mão e que fora a grande musa da primeira quadra que o avô-poeta registara, deliciado, naquele mesmo pedacinho de papel.


 


Ó borboleta da noite,


Linda do meu coração!


Ó borboleta da noite,


Pousa aqui, na minha mão!


 


Sorriu confortavelmente deliciada com a reconquista das suas memórias.


 


 


Olhou casualmente para fora e reparou que as nuvens continuavam naquela mesma pasmaceira grávida, húmida e cinzenta que a levara a remexer na gaveta. Mas tudo isso deixara de ter a menor importância a partir do momento em que retomara o contacto com aquele seu passado remoto.


 


- Talvez nem fosse uma borboleta… - pensou, sorrindo ainda - podia muito bem ser uma simples traça… afinal é tão fácil ver tudo maior e tão mais imponente quando se tem três anos de idade…


 


 


Recordado para http://fabricadehistorias.blogs.sapo.pt/


 


 


PARABÉNS A VOCÊ!  - O poetaporkedeusker faz hoje dois anos de idade. Percursinho difícil, cheio de "maleitas" e altos e baixos... mas não deixa de ser um percurso! E porque o Poeta é a minha própria vida, sem querer parecer vaidosa, hoje sinto-me DE PARABÉNS!

Comentários

  1. Claro que está de parabéns. E merecidos.
    Beijinhos

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  2. Parabéns minha amiga,muitos mais que venham!...que peso tem na poesia?Ao contrário de algumas opiniões,eu acredito que há génios "escondidos",é o seu caso!

    Bj*

    P.S.-Sonetos,poesia,textos...e as escolhas das músicas do blogue...adoro!

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    1. Olá, Vitor! :)) Génio... não sei... mas "escondida" sou! Sou muitissimo "low profile", pode crer.
      Um enorme abraço e muito obrigada!

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  3. Olá, vou já agradecer-lhe a sua chamada de atenção, eu já devia estar mesmo a dormir quando publiquei o texto, mas ainda bem que há quem leia o que escrevo para me avisar destas "gralhas".
    Agora quero dar-lhe os parabéns pelo aniversário do "Poeta" e também pelo texto que está muito bonito, as nossas recordações, sejam elas da infância ou já depois de crescidas sabe sempre bem recordá-las, isso faz-nos viver de novo, embora ás vezes seja muito doloroso, mas é a nossa vida.
    Um abraço

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    1. Não tem de agradecer, Idalina. Também eu faço dessas e muito piores! Hoje vou ver se consigo fazer alguma coisa de jeito. A noite de ontem deixou-me profundamente abalada porque comecei a ter a noção da esmagadora tragédia em Port au Prince... ainda por cima recebi a notícia da morte de um irmão da minha mãe que já não via há anos, mas que me colocou, de novo, na infância... e desta vez com o coração muito, muito apertado.
      Um grande abraço.

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