SEM DONO I e II

 

Tela de Pablo Picasso

(Fase azul)

*

SEM DONO
*

I
*

Não sabe se é ateia ou se é pagã

Uma mulher que passa distraída

E vai saboreando uma maçã

Que desconhece estar a ser comida
*


Que sabe essa mulher do amanhã

Se vive ao deus-dará, desprotegida?

Parece-lhe a questão um tanto vã

Pra quem barata vende e compra a vida...
*


Abre a porta do quarto de aluguer

Devagarinho para não ranger

E senta-se num banco. Está com sono.
*


É tarde, é muito tarde pra pensar

E depressa adormece. Ao acordar,

Jurará que é feliz por não ter dono.
*

II
*

Ele ergue um novo muro a fio-de-prumo,

Carrega às costas passado e futuro

E almoça muito à pressa num arrumo

Uma cerveja quente e pão já duro
*


Fuma um cigarro. Uma argola de fumo

Forma-se e esvai-se toda no ar puro

Como se optasse por traçar um rumo

Que pra nenhum dos dois será seguro
*


O cimento atingiu o ponto certo

E o muro cresce como que liberto

Da tal conotação que não merece
*


O Sol está quase a pôr-se atrás do mar

E o muro ainda está por acabar...

Pode ser que amanhã o recomece.
*


©Maria João Brito de Sousa

13.12.2023 - 13.00h
***

 

 

 


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