O COMBOIO


Que ser era aquele? Imenso, ruidoso como um interminável trovão, atacou-me com a rapidez do raio e não parou, sequer, para me dar o golpe de misericórdia. Atirou-se a mim com a voracidade do tigre e, incompreensivelmente, não ficou para se alimentar da carne que destroçara. Que estranho ser era aquele?


Levava no ventre muitos outros seres. Seres com olhos, ouvidos e mãos. Seres conflituosos, agarrados a coisas que não fazem sentido, indiferentes à dor que então me consumia.


Que ser tão estranho...


Não ameacei as suas crias. Não tentei conquistar as suas fêmeas. Se, acaso, invadi o seu território, fi-lo por absoluta necessidade. Procurava um desses seres que ele levava no ventre e a quem dediquei toda a minha vida.


Sei que estou velho e pouco atraente. Durante esta minha insana busca, raras vezes encontrei alimento. Emagreci. Vivi muitos sóis e muitas luas alimentado, unicamente, pela certeza de voltar a encontrar o meu amigo. Aquele por quem daria – e dei – a vida. Aquele que um dia partilhou comigo habitação e alimento, aquele que me pôs ao pescoço esta coleira, agora velha e sem brilho como eu, que selou entre nós um pacto sagrado e irreversível.


Eu era então um cão jovem e –perdoa-me a vaidade – bonito como poucos. Ajudei-o a educar as suas crias. Não havia cão, gato ou ser humano mal intencionado que se aproximasse delas. Guardei-lhe a porta com o meu rosnido mais assustador e mostrei-lhe a minha imensa gratidão a cada segundo do dia e da noite. Velei-lhe o sono. Quando o tempo, lá fora, gelava até aos ossos, aqueci-lhe os pés com o calor do meu corpo e, com toda a energia que me foi concedida pelo universo em que nasci, zelei e rezei pela sua saúde e alegria. Pela abundância no seu pequeno território. Multipliquei-me em carinhos e brincadeiras sempre que a tristeza lhe invadia o olhar. Lambi cada uma das suas pequenas feridas até estar seguro da sua completa cicatrização. Cacei para que nunca lhe faltasse o alimento.


Sei que também ele me amou à sua maneira... dessa  forma inacabada e insólita  que vocês usam para amar. Eu era património seu e, forte e bonito exemplar que era, orgulhava-se de me mostrar aos seus amigos. Garantia que a ele ninguém assaltaria a casa... e tinha razão. Garantia que não havia melhor cobridor do que eu, e também estava certo.


Tu, que agora me vês agonizar, hás-de encontrar o brilho dos meus olhos em muitos outros cães que encontrarás pelas ruas. Deixei, como era meu dever, semente de vida no ventre de muitas companheiras. Agora que estou de partida, evoco esses filhos da minha carne com a certeza de me ter perpetuado neles pelas muitas luas que estão por vir.


Sabes que me surpreendeste? Eras um dos seres que viajavam dentro do demónio que me trucidou. Vi-te chegar carregada de coisas estranhamente inúteis. Sacos e saquinhos contendo pequenas coisas que não amas, mas proteges. Vinhas suada e arquejante, como eu velha e gasta e, no entanto, olhaste-me com a doçura com que me olhou a minha mãe quando me pôs no mundo. No teu olhar uivaste a minha dor. Agradeço-te por isso. Não o poderia fazer com estes maxilares fracturados que pingam sangue e nesse mesmo sangue afogam o meu justificado lamento.


Pegaste num estranho artefacto que estava no teu bolso e falaste para ele. Estavas entre zangada e mansa. Mas estavas, sobretudo, determinada.


Não sei exactamente o que queres, mas sei que não desistirás. Sei, acima de tudo, que não me abandonarás até que a morte venha aliviar-me desta imensa dor. A dor que partilhas comigo e , portanto, se torna mais suportável. Cobres o meu corpo com o teu sempre que um demónio de ferro percorre, rugindo, o temível espaço que ousei pisar. De tal forma sentes o que eu sinto que espantas os meus medos e vais anulando a tremenda vontade que me impele a continuar à procura do “dono”. Mesmo sem membros. Mesmo sem sangue.


Passa uma eternidade. Cantas baixinho para mim, nessa estranha língua cheia de modulações idênticas às do meu dono. Vou-te compreendendo pouco a pouco. Já me não doem tanto os ossos triturados, já se não impõe a necessidade de encontrar aquele que, um dia, se esqueceu de mim, algures, na Marginal. Tu amas tão profunda e incondicionalmente como eu e tudo recomeça a fazer sentido. Até os estranhos artefactos que trazes contigo parecem ganhar alma e se me tornam familiares.Como se fossem prolongamentos de mim. De nós. De tudo aquilo que continuamos a ser quando ultrapassamos as fronteiras do corpo e nos diluímos na infinita serenidade de uma força que apenas vislumbrávamos. Para além do beijo que me deste no focinho no momento da libertação.


 


 


 


Maria João Brito de Sousa
 


 

Comentários

  1. Aquele ser não se chama comboio.
    Chama-se ingratidão humana ou humana desumanidade.
    Graças a Deus que há outros seres que não são comboios!
    É lindo o que escreves, seja verso, seja prosa, seja mote, seja glosa, porque as tuas palavras mostram poeticamente quem tu és e eu gosto de ti assim!
    Nunca deixei de cá estar, nunca deixarei de cá estar.



    (espero que estejas bem!)

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    1. Olá amiga! Estava a ver que não entrava!
      O sapinho hoje está tão cansado quanto eu. Fechou-me a cx de correio logo na primeira resposta e agora não me deixava entrar! Desculpa a resposta tardia, mas toda esta semana e o começo da próxima vão estar com muitas solicitações do mundo das "humanas obrigações"...
      Tens razão. Esta é uma metáfora para a ingratidão humana, mas aconteceu mesmo. A mulher sou eu e o cão partiu mesmo. Desculpa não vir um soneto, mas este episódio tinha de ser contado hoje. Felizmente existem mesmo muitas pessoas que não são comboios, não é amiguinha?
      Um grande abraço para ti. :-)

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  2. Respostas
    1. Olá Ligeirinha! Desculpa só responder agora, mas esta semana está a ser muito díficil, cheia de consultas e compromissos fora de casa. Só cheguei às 21.00h e, depois de tratar os animais todos, só agora tenho um bocadinho para o poetaporkedeusker... que se está a tornar, cada vez mais, parte de mim.
      Mas o resto da semana vai ser muito mau, cheio de coisas que têm de ser feitas inadiavelmente. Ando mesmo cansada!
      Bjinho para ti!

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  3. Simplesmente maravilhoso, adorei este texto, espero que seja só ficção que não tenha realmente acontecido o que descreve nas suas palavras.
    Mas infelizmente vê-se muitos animais abandonados e que o fim deles é esse mesmo, o que é de lamentar.
    Boa tarde

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    1. Infelizmente aconteceu mesmo, minha amiga.
      As pessoas não entendem que os animais não-humanos sofrem como nós. Claro que aquilo que o animal me disse com os olhos faz parte do meu mundo subjectivo, mas penso que não estou nada longe do que ele sentiu. Tinha um olhar eloquente aquele animal.
      Um abraço.

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  4. Amiga M. João
    Muito boa prosa. Passo cá todos os dias, embora não comente.
    1 abraço.

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    1. Obrigada meu amigo. Esta semana e a próxima vão ser muito difíceis em termos de tempo para o petaporkedeusker e o antoniodesousa. Estou com muito tmpo ocupado... e com coisas que não gosto de fazer. Vou precisar de manter a boa disposição no meu caderninho...
      Abraço.

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  5. Boa noite Maria João ( Não se assuste com o meu à vontade) Espero que esteja bem de saúde.
    Eu vinha convidá-la a ver um lindo por de sol ( sim, ainda vem a tempo) Pelo caminho quero mostrar-lhe umas palavras lindas que uma pessoa maravilhosa me dedicou! Venha, rápido, antes que o sol se ponha!
    Vai gostar!
    E antes que me esqueça, quero dar-lhe um grande beijinho!

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    1. Amiguinho! Vejo que já tens outro espaço. Desculpa mas não vai ser hoje nem amanhã que vou poder ir ver o teu por de sol. Estou cheia de compromissos daqueles que chegam todos ao mesmo tempo, só para nos aborrecerem...
      Vou, no entanto, dar uma espreitadela ao teu novo cantinho!
      Bjinho para ti também. :-)

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  6. Porque escreve assim?!?!? Fez-me chorar... apesar disso adorei, espero que não seja verdade...
    Espero que esteja bem.

    Beijinhos

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    1. Ó Maria, eu penso que escrevo porque Deus quer. Peço desculpa se te fiz chorar. Isto aconteceu mesmo, infelizmente.
      Ando cheia de compromissos aborrecidos, como ir a médicos, exames, análises, Segurança Social, etc. A minha casa está um verdadeiro desastre, com estes animais todos e a falta de tempo. Para o final da próxima semana devo ficar com mais tempo para vir ao blog.
      Beijinho para ti.

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    2. Ó Maria, eu penso que escrevo porque Deus quer. Peço desculpa se te fiz chorar. Isto aconteceu mesmo, infelizmente.
      Ando cheia de compromissos aborrecidos, como ir a médicos, exames, análises, Segurança Social, etc. A minha casa está um verdadeiro desastre, com estes animais todos e a falta de tempo. Para o final da próxima semana devo ficar com mais tempo para vir ao blog.
      Beijinho para ti.

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    Páscoa é tempo de paz!
    Páscoa é tempo de reflexão !
    Páscoa é recolhimento!
    Páscoa é amor !!!
    A todos os amigos
    UMA FELIZ PÁSCOA....

    Já que estamos na semana da Páscoa

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    Abraços até breve...

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    1. Que coisa tão bonita, Estreladosul! Muito obrigada e uma Boa Páscoa também para ti!

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