O SEGREDO

Sabia que teria de fazer aquela caminhada. O corpo recusava-lha, antecipando as dores, a vontade negava-se-lhe como se, repentinamente, quisesse tomar o controle de si. Mas impunha-se-lhe aquela caminhada e ela meteu pés à calçada apesar das pontadas incipientes, do frio e da chuvinha constante, irritante, teimosa.


 


No início caminhou sem maiores dificuldades do que a de sentir o corpo invadido pela teimosia da chuva que se lhe colava à roupa, num primeiro e insistente aviso. Depois foram as poucas forças que se foram gradualmente recusando a mover-lhe os passos e, logo a seguir, as dores que vieram coroar esta sinfonia de desconforto. Tornava-se-lhe o corpo pesado como uma árvore que, a cada momento, ganhasse raízes mais e mais fundas, que mais e mais profundamente a prendessem ao chão. Ah! E havia, ainda, o Segredo. O Segredo que constantemente bailava em torno dos poços de palavras - agora confusas - que lhe inundavam o corpo inteiro e lhe pediam para nascer. Não trouxera o caderninho de sonetos, mas não seria por isso… chovia demasiado para que o pudesse utilizar, de qualquer forma. Até o cheque que levava na carteira preta que trazia ao ombro, começava a perder o aspecto de coisa estéril, acabada de imprimir, deformando-se num rectângulo irregular, sob a humidade. Aconchegou ao corpo o pequeno saco negro, esperando salvar o bendito cheque daquela chuva que tudo ensopava, que começava a sentir na carne e que quase, quase a desesperava.


O cheque, - ao menos o cheque! - não poderia ficar inutilizado!


Afinal fora por ele que se metera ao caminho, apesar da chuva, das dores, do cansaço e do Segredo.


 


 


Agora eram os músculos que pareciam dormentes, entorpecidos. Nada lhe obedecia naquele corpo exausto! Fixou os olhos nas pedras da calçada e, num derradeiro e absurdo esforço, imaginou-lhes o auxílio. Observava-as enquanto caminhava. Quereria ser pedra. Quereria que as pedras com ela partilhassem a sua dureza. A angústia pareceu dissolver-se parcialmente. As palavras voltavam-lhe apesar do Segredo. Talvez exactamente por causa do Segredo.


 


Já não via as pedras nem sentia a chuva que a ensopava até aos ossos porque eram as palavras que, agora, nasciam, estranhamente negras sobre o fundo claro da calçada. Nasciam e cresciam continuando-se umas às outras, encadeadas, quase homogéneas como a ribeira zangada que corria, do lado direito daestrada que galgava a custo.


 


 Passou pela ribeira e as palavras continuaram como um outro rio. Não sabia como nasciam elas, não sabia como nascera o Segredo que ora se deixava vislumbrar com a mansidão das coisas benéficas, ora lhe surgia em lampejos de algo que quase a assustava e não sabia, por isso, definir.


 


Continuavam a fluir, em grafismos negros e distintamente traçados pelas mãos de ninguém e só o cansaço parecia, de quando em vez, sobrepor-se a elas. Não fugiam depois de surgirem. Ficavam. Permaneciam como se estivessem gravadas no espelho molhado da calçada, nos ossos que quase anestesiavam, no corpo que negava o desconforto da chuva.


Avançava agora ao ritmo dos grafismos que lhe iam nascendo, embora pontualmente cambaleasse, lhe parecesse que o chão-papel lhe fugia debaixo dos pés ou que o horizonte se lhe balançava na linha que os olhos podiam atingir.


Mais passos, mais letras. Um rio de letras, de palavras, de frases, de orações semi-conscientes. Um texto inteiro.


 


O Banco, ponto de destino, estava finalmente perto. Eram os últimos passos do último parágrafo.


A porta abriu-se automaticamente à sua aproximação e ela parou, indecisa, por segundos. Faltavam-lhe meia dúzia de letras que rapidamente se vieram juntar ao caudal daquela caminhada. Respirou fundo, retirou a bolsinha preta de sob o casaco ensopado e entrou. As pedras da calçada, a imagem da ribeira enfurecida, as raízes da árvore em que quase se transformara (ah, não fora o banco, não fora o cheque…) e o rio de palavras entraram com ela. Como uma multidão de pequenos mas irredutíveis raios de sol, entrou, também, o Segredo. A porta fechou-se. Automaticamente.


 


 


Maria João Brito de Sousa - 23.01.2009


 



"Caminhado" em direcção à http://fabricadehistorias.blogs.sapo.pt/


 


 


Imagem retirada da internet

Comentários

  1. Oi Maria

    É uma bela história para a fábrica de histórias. Até parece real!

    Um abraço.

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    1. Digamos que foi inspirada em algo que realmente se passou. Hoje tenho um dia semelhante pela frente. Ai!
      Abraço grande.

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  2. Tao real. É uma viagem partilhada com quam le.
    Beijinhos e bom fim de semana.
    E a ET, está melhor? Bjx

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    1. Olá Maria. Peço desculpa pela minha ausência ao seu "cantinho". Ando mesmo derreada com estas caminhadas. As reais e as simbólicas.
      Beijinho para si e para os pequenitos.

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  3. Caminhando contigo e sentindo...
    Está lindo!
    Bjinhos

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    1. :) Olá Carla! Hoje há mais outra caminhada parecida. Duas ou três, se eu aguentar...
      Beijinho grande!

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  4. Fica-se com vontade da continuação, mas as regras não o permitem...Ficamos no "e agora?!". Beijinhos

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    1. :) Obrigada, Cloudy. Até eu estou no "e agora?". Mas hoje o dia vai ser, novamente, de caminhada. Mais curtas, mas mais caminhadas. Não ou estar em casa a maior parte do tempo e ainda só consegui ler três histórias das minhas colegas da fábrica...
      Abraço grande.

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  5. Lindíssima a sua escrita e a história que criou. Até parece que seguimos os caminhos, palavra a palavra, em cada passo!

    Beijinhos...

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    1. Se eu fosse escritora profissional, diria que era essa a ideia... mas não sou. Não sou coisa nenhuma. Sou uma mulher que vive para se escrever e escrever o que sente... esse texto, para ser muito, muito sincera, é a descrição mais realista possível de tudo o que senti na caminhada de ontem. Hoje foi um pouco melhor... encontrei, a meio do caminho, uma cachorrinha que me fez sorrir tanto que até me esqueci das dores e do cansaço! Publico logo à noite.
      Agora tenho mais uma caminhadazita pela frente...
      Abraço grande.

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  6. Respostas
    1. Olá Blogando-me 1 ! Tudo bem por aí? Tenho estado sem fazer visitas porque tenho tido uns dias muito cheios... amanhã vai ser outro. Hoje acabei por não ter forças para levar a ET ao veterinário. Depois dos correios e do Banco Alimentar, fiquei boa para "deitar para o lixo"... "não podia com uma gata pelo rabo", quanto mais pela tranportadora. :)
      Mas amanhã, se tiver boleia, tenciono ir ver uma exposição colectiva na Verney. Claro que vai ser mais um dia em que quase não trabalho nos blogs, mas... vocês não me ralham, pois não? :)
      Ontem deveria ter ido à reunião da APP na Verney, mas já não tive coragem...
      Beijinho!

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  7. Boa Noite minha amiga que lindo texto, sabe que eu consegui viajar consigo! Fui consigo ao banco levantou o seu cheque e depois saímos e continuava a chover, entramos num café e toma-mos uma bica ficamos a conversar, e a ter algumas ideias para o próximo soneto.
    E acredite que foi uma tarde muito bem passada, e gostaria de repetir.
    Um grande abraço

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    1. Essa parte de entrar no café e tomar uma bica interessou-me bastante! Um dia, se lhe der jeito, poderíamos experimentar! Também já tenho dois cafezinhos "em lista de espera" com outras duas amigas. Com esta vidinha maluca que eu tenho, nunca é fácil... nunca posso garantir que tenha uma horinha livre, mas vou pensando nisso e acreditando que um dia acontece mesmo!
      Fico muito contente por tê-la tido a 2viajar" comigo!
      Um grande abraço!

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  8. Oi Maria

    Depois de visitar a fábrica de histórias...
    Pude assim perceber que o seu texto está bem escondido o segredo.
    Quando li logo de início achei que teriam de contar o segredo. Caso fosse deixaria de ser segredo.
    Por isso o seu está ótimo!

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    1. Pois é Velucia... segredo contado, não é segredo!
      Sabes que eu tentei entender cada palavra do "Rei" Roberto Carlos e não ouvi do seu cãozinho? Deve ser porque estou com demasiado sono. Amanhã oiço novamente!
      Abraço!

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  9. ola! Acho que está fantástico este segredo... e acimade tudo muito bem guardado...
    Fica bem... beijinhos....

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    1. Olá Dany! Desculpa a ausência nas visitas, mas tenho andado com uma vidita muito complicada!
      Obrigada pela tua apreciação do texto.
      Beijinho!

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  10. Uma bela história que ao ler, mais me pareceu um caso verídico!...

    Afinal...as histórias são sempre baseadas em algo...concreto ou imaginativo!
    Gostei muito!
    Os meus parabéns sinceros!
    Sua admiradora
    Chicailheu

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    1. Muito obrigada, Chica! Obrigada pelas suas palavras, pelos comentários, pela amabilidade e pela disponibilidade!
      Tem alguma razão. É uma descrição de sensações, tal como foram vividas.
      Abraço!

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