CANTO DE UMA ANTIQUÍSSIMA MEMÓRIA


 


 


Lembras-te dos caboclos, já cansados,


Enchendo a escadaria de queixumes?


Dos carregos dos móveis, mal atados,


De arestas afiadas como gumes?


 


 


E lembras-te de mim que, aos castigados,


Enchia de perdões, dando perfumes?


A pena que eu senti dos desgraçados


A quem tu foste impondo os teus costumes…


 


 


Lembras-te do escritório, dos teus quadros,


Da enorme cozinha onde as mulatas


Preparavam segredos culinários


 


 


E cantavam baixinho aos seus amados?


Lembras-te do brilhar das velhas pratas


Por cima da janela e dos armários?


 


 


 


 


Maria João Brito de Sousa


 


 


Imagem retirada da internet


 


 


"Le philosophe, lorsqu`il n`a pas de motif pour juger, sait rester indeterminé"


 


DIDEROT

Comentários

  1. Olá M. João!
    É maravilhoso quando Deus nos capacita a escrever poesia. Eu sempre tentei fazê-lo, mas sinto-me melhor a prosear!
    Vou visitar mais vezes os seus belos poemas.
    Beijinhos

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    1. Muito obrigada, Maria Helena! Eu acredito que tenho um dom... bem, é um "donzinho":) mas eu sei que é através dele que me devo cumprir. Também desenho com muita criatividade, desde muito pequenina mas, neste momento, estou sem material e sem força física para pintar. Pintar é um exercício que tem muito, muito de físico! Pelo menos a forma como eu sempre pintei, é quase uma " dança " com o papel ou a tela :) e só assim vale a pena eu pintar, Maria Helena. Desenhar meia dúzia de coisas bonitinhas, não me diz absolutamente nada.
      Abraço!

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  2. Posso perguntar?

    Donde vem esta memória? Estiveste tão longe? Quem diria...

    Estou melhor, hoje e te vim visitar.
    Mas o soneto me parece que não queria acabar

    Que se passa? Estendias o soneto noutro
    soneto. Ele não se sentiu terminado!

    Mª. Luísa

    Maria Luísa

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    1. É muito imaginativo, amiga, muito embora eu tenha tido antepassados no Brasil, que viveram em condições similares e cujas narrativas foram chegando até mim através da oralidade e também de cartas muito antigas.
      E tu? Como vai a tua coluna? Sabes que o CJO está quase a encerrar...
      Abraço gde!

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    2. Eu estive hoje no teu blog, mas não me consigo recordar se comentei ou não... há coisas em que estou mesmo muito desmemoriada, sabes?
      Se me surgir uma linha de continuidade para este soneto, prometo-te publicá-la.
      Vou ver se ainda consigo ir ao Prémios!
      Abraço e a continuação das melhoras!

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    3. Mª. João

      Não deixaste comments no google - Nudez -

      Que é o CJO que vai fechar? Me parece que é a biblioteca onde escreves.

      Fica para amanhã! Eu espero sempre por ti!

      Mª. Luísa

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    4. Sim, Maria Luísa, é o Centro de Juventude de Oeiras, onde eu acedo à internet. Eu sou sempre a última a sair e; às vezes, abuso... ontem foi mesmo até me pedirem para sair :)
      Irei hoje ao teu blog do Google, sem falta.
      Abraço grande!

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  3. Este seu soneto fez-me viajar até há uns anos atrás quando eu via as novelas brasileiras, entre elas a "Cabocla"aquelas cenas dos escravos e da " menina" muito boazinha que ajudava os escravisados.
    Gostei muito.
    Um abraço

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    1. Ora aí está! Eu nunca fui de ver telenovelas, mas também pode ser uma boa maneira de nos fazer viajar no espaço e no tempo... e eu tive, efectivamente, familiares que por lá viveram no final do século XIX, princípios do XX.
      Um grande abraço!

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