FRACÇÃO


 




(Soneto de coda ou estrambote em decassílabo heróico)


 


 


FRACÇÃO


*


O Tempo, esse tirano, esse vilão


A quem, teimosos, nunca aceitaremos,


É quem gere, afinal, tudo o que temos


Na nossa humana bio-condição


 *


Mas, longe de aceitar que tem razão,


Que da sua passagem dependemos,


Chegamos a negar quanto aprendemos


Ser fruto dessa vasta produção


 *


E contra a própria vida nos erguemos


Se, esquecido o percurso que fizemos,


Cairmos nessa vã contradição


 


De achar que, por mais voltas que engendremos,


Por mais que o próprio tempo confrontemos


Em busca da perfeita solução ,


*


 


À Vida pouco importa o que inventemos,


Nem pensa em resolver quanto vivemos;


O Tempo é que o traduz numa fracção.


*


 


 


 


Maria João Brito de Sousa – 21.05.2014 – 20.08h


 


 


Imagem - A Persistência do Tempo - Salvador Dali

Comentários

  1. “Do nada”

    Do nada pode surgir
    Magia ou abstracção
    Sem que possas impedir
    Esse acto de criação

    Só o tudo tentará
    Interpôr-se no caminho
    Mas o nada demoverá
    Esse interesse mesquinho

    Esta é a força do nada
    Que não podes ignorar
    Contra o medo de perder

    Surgido na encruzilhada
    Pois ela irá impulsionar
    O nada para vencer.

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    1. DO NADA II

      Do nada me nasce tudo
      E mesmo o próprio soneto
      Veste a capa de veludo
      Com que aqui me comprometo

      Mas sobre a qual não me iludo
      Pois se, em tudo, um nada meto,
      Nunca pensarei, contudo;
      Qual será seu novo aspecto?

      Do que nunca me acontece,
      Tudo aquilo que conheço
      Será quantos versos tece

      Este de quem me despeço
      Porque, agora, me parece
      Que de sono desfaleço...


      Maria João

      Roubei-lhe o título, Poeta... mas alterei-lhe a "estatura" hierárquica, eheheheh...

      Estou preocupada porque enviei a declaração e o relatório médico juntamente com a baixa temporária (12 dias...) para a Segurança Social, via email e nem sequer recebi o aviso de recepção... amanhã, quando vier das análises, terei de telefonar... não sossego enquanto não souber que aquilo chegou ao seu destino...

      Abraço grande!

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  2. Respostas
    1. Pois, eu, já não corro mais, hoje!
      Com esta coisa de responder a "muita coisa" quase em simultâneo, já meti as mãos pelos pés, à bocado, no Face...

      Vou lá, mas vou devagarinho!

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  3. “Em busca do povo perdido”

    Mais um dia de eleição
    Em qu’o povo não votou
    Reinante a abstenção
    Sobre este reino pairou

    Vão estudar a lição
    Centos de comentadores
    E p’ra nossa comoção
    Todos sairão vencedores

    Só o povo sai vencido
    Desta imensa trapalhada
    Em que alguém o meteu

    Democracia dum só sentido
    Que ao povo não diz nada
    E em que o povo se perdeu.

    Prof Eta

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    1. Intensifiquemos a luta!!!

      É reinante, essa abstenção,
      Mas eu não gosto de reis
      E à luta lanço a mão
      Pr`a tentar mudar as leis!

      Não morre agora o caminho,
      Nem se acaba o caminhar
      E o que eu faça, poucochinho,
      Outro irmão há-de regar!

      Que se não perca, este povo!
      Que esteja atento e, sem medos,
      Levantar-se-á de novo!

      Quase não posso escrever
      Porque anda a net "em folguedos",
      Mas consegui responder!!!

      Maria João


      Abraço grande, Poeta!!!

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  4. “Loucos”

    Este mundo está louco
    Mas o ser humano não
    Loucura sabe a pouco
    Que venha a alucinação

    Por gritos acompanhada
    Fruto de grande aflição
    Dum cantar à desgarrada
    Donde já não sai canção

    Onde já não frutifica nada
    Porque frutificou o engano
    Numa sociedade alucinada

    Erigida pelo ser humano
    Desta forma desastrada
    Com o estatuto de louco.

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    1. Loucos, uns, resistentes, outros...

      Loucos... talvez seja o termo
      Pois, com tal contradição,
      Tudo se torna num ermo,
      Vive-se em grande aflição,

      Enquanto este (des)governo,
      Que é louco, mas "sabichão",
      Nos "cozinha" um negro inferno
      Para os dias que virão...

      ... mas sempre houve Resistência!
      Resiste quem se não rende
      Mesmo perdida a paciência,

      Mesmo quando alguém o "vende"
      E, ainda que haja inclemência,
      Quem confronta aquel`que o prende!


      Maria João

      Aqui vai, com o abraço do costume, Poeta!


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  5. Respostas
    1. ... ai que atrasada que eu estou, Poeta! Peço desculpa, mas levo uma eternidade para fazer as coisinhas mais ínfimas... vou lá! Vou ver essa alegria!

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  6. “Eleitos nulos”

    Já não parece credível
    Nenhuma das opções
    Povo tornou-se invisível
    Neste dia de eleições

    Tudo tornado possível
    Pela corja de aldrabões
    Com um discurso sofrível
    E pleno de contradições

    Antes parecia impossível
    Brancos, nulos e abstenções
    São agora aos milhões

    Prevejo um futuro risível
    E parco em revoluções
    Um futuro sem soluções.

    Prof Eta

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    1. Efeitos, esperam-se!

      De insolúveis equações
      Deve andar o mundo cheio
      E, se achar as soluções,
      Divido o problema ao meio,

      Mas se o divido em porções
      E, depois, falta "recheio",
      Não resolvendo as questões,
      Meto ao bolso o que era alheio...

      Se, porém, espero ovações,
      Se ajo à prova de receio
      E confronto os tais vilões,

      Só a mim própria premeio...
      (... e se o fiz por uns tostões,
      o que fiz, foi muito feio!)

      Maria João


      Cá vai, com o abraço de sempre!



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  7. FABULÁRIO

    DOIS CÃES A UM OSSO

    Se dois cães querem o osso
    Falta osso e sobra cão
    E, ou dividem a ração,
    Ou acabam em destroço…

    Um ao outro, o pescoço,
    Ferozmente morderão,
    Faltando aos dois razão,
    Cedo irão cair no fosso…

    E, assim, tudo se ajeita
    P´ra comerem o petisco
    Cães matreiros, à espreita.

    E por gula ou por desleixo
    Quem não correu nenhum risco
    Acabou lambendo o beiço.

    Eduardo

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    1. Não há osso que resista
      A tão grande gulodice!!!
      Enquanto a luta persista,
      Vai se fonte de chatice...

      O que primeiro desista
      - não sei se o disse ou não disse... -
      Fará com que o outro insista,
      Só vai sobrar palermice!

      Pobre do cão esfomeado
      Que olha a luta entre os rivais
      Vendo o osso disputado,

      Sabendo haver osso a mais
      Para um cão... mesmo anafado!,
      Que o não "saque"... aos racionais!


      Maria João

      Muito obrigada, amigo Eduardo!
      Cá vai um sonetilho que me ocorreu para lhe responder! O meu abraço para si e Maria dos Anjos!!!








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  8. “Persistência”

    O amor quando existe
    Pode ver-se no sorriso
    E mesmo estando triste
    Ilumina se é preciso

    E na memória persiste
    Esse olhar decisivo
    Pelo qual não se desiste
    Porque serve d’incentivo

    Torna-te um ser melhor
    Ilumina o teu caminho
    E que ninguém se iluda

    Esse que é amor maior
    Nunca te deixa sozinho
    Nem regateia sua ajuda.

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    1. O cúmulo da persistência

      (Sonetilho de coda ou estrambote)


      Mas, sendo Amor tão mais vasto
      Na abrangência e na amplitude,
      Não será "conceito gasto",
      Nem de incompleta virtude

      Pois, mais casto ou menos casto,
      Nunca esse amor desilude,
      Ou mostrará ser nefasto
      Na mudança de atitude...

      Viva, então, tal sentimento!
      Viva, sempre, a Poesia
      Que nos traz conhecimento!

      Sei bem quanto bem faria
      Amar, sem constrangimento,
      A própria Sabedoria

      E, sem qualquer desalento,
      Ir ouvindo a Melodia
      Que houver no próprio talento!



      Maria João


      Aqui vai, Poeta, um sonetilho um pouco mais "completo"! Penso que seja o meu primeiro sonetilho de coda... mas também já só uso os sonetilhos aqui, para lhe ir respondendo... de qualquer forma, gosto muito deles - porque também gosto muito da redondilha maior... - e, por vezes, lamento que não sejam um pouco mais "burilados"... porém, colocarei sempre e antes de tudo o mais, estas respostas "causa/efeito", esta decisão de responder com a primeira coisa que me viesse à cabeça, fruto da leitura dos poemas que me envia.

      Um abraço grande!!!






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  9. Respostas
    1. ... confesso que fiquei curiosa, Poeta... sempre quero ver isso! Já conhecia a "sopa da pedra", mas o "chá da pedra" é novidade para mim...

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  10. FABULÁRIO

    O FESTIVAL

    Quase ninguém no festival
    E a banda que o ganhou
    Nos compassos, fraquejou
    E no acorde vocal

    Contudo, em ar triunfal,
    A vitória festejou,
    Pois o cantor principal
    Nem se ouviu… esse piou

    Agitou-se o maioral
    E depois de forte espirro
    Sentenciou, paternal

    Com certo ar de profeta:
    - Este festival de Pirro
    É p´ra meter na gaveta.

    Eduardo

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    1. EU, "BICHO RARO" E NUNCA VISTO...



      Dos alegres festivais,
      Nem mesmo um concertozinho
      Pude ver... nunca, jamais!
      Vivi "presa ao velho ninho"...

      Todos os jovens, "normais",
      Vão ao seu festivalzinho...
      Devo ter sido um dos tais
      Que escolheram "mau caminho"...

      Não calculei, no entanto,
      Que estivesse pouca gente...
      Que estranhíssimo quebranto

      Criará "público ausente"?
      Festival, tem grande encanto!
      Que pena eu estar tão doente...


      Maria João



      Cá vai, com outro grande abraço!!!

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  11. Para a distinta poetisa Maria João de Brito e Sousa

    O QUE EU APRENDO!...

    De coda, o soneto, ou de estrambote
    As coisas que me ensina a musa amiga!
    As regras do saber a que me instiga
    Se suas rimas são, p´ra mim, o mote

    São como a ventania que fustiga
    As velas dum moinho dum Quixote,
    Oferta generosa ou, então, dote
    Que inspira, em minha lira, a cantiga

    A mim, de sua corte, pobre bobo,
    Imitador do verbo, sem talento
    A escorregar no solo em que me movo

    No dealbar da estrada em que caminho
    Mas de renovação sempre sedento
    Em ti vejo a matriz em que me alinho.

    Eduardo

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    Respostas


    1. Que maravilha de soneto, Eduardo! Nem sei como lho agradecer... quando me comovo, fico sem palavras...

      Mas já li o soneto com a pequenina emenda e vou-lho deixar aqui mesmo. Tive de o copiar e levar para os ficheiros de Word para o poder ler porque a caixa de correio, neste ecrã sobressalente - o ecrã original do portátil continua apagado... -, só me deixa ler metade das mensagens... como não sei configurar isto, ando para aqui numa verdadeira "luta" para ler o que quero mesmo ler... deixo-lhe o maior e mais grato dos meus abraços, meu amigo!



      Pedro, envia este soneto em vez do anterior, pois fiz uma emenda no último terceto.





      Para a distinta poetisa Maria João de Brito e Sousa





      O QUE EU APRENDO!...





      De coda, o soneto, ou de estrambote

      As coisas que me ensina a musa amiga!

      As regras do saber a que me instiga

      Se suas rimas são, p´ra mim, o mote





      São como a ventania que fustiga

      As velas dum moinho dum Quixote,

      Oferta generosa ou, então, dote

      Que inspira, em minha lira, a cantiga





      A mim, de sua corte, pobre bobo,

      Imitador do verbo, sem talento

      A escorregar no solo em que me movo





      No ocaso da estrada em que caminho

      Mas de renovação sempre sedento

      Em ti vejo a matriz em que me alinho.





      Eduardo Maximino.

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  12. “Das bestas”

    O país para o passado
    Pelo constitucional
    Está a ser arrastado
    De forma irracional

    O governo empenhado
    Em não nos deixar mal
    Tem o percurso estudado
    P’ra levantar o moral

    Pagar tudo ao mercado
    Com saquinhos de sal
    Que é produto nacional

    E com o credor saciado
    O rating será bestial
    Das bestas em Portugal.

    Prof Eta

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    1. Garanto que só li este sonetilho depois de ter respondido ao anterior, do amigo Eduardo... mas que têm pontos em comum, têm!

      Seja, então, sal de... salário
      Pois de salários "sem sal"
      Já está farto o proletário
      Deste nosso Portugal

      Quando sendo seu operário,
      Mais que "agente laboral",
      Deve, de modo contrário,
      Ser dono do capital!

      Porém, do que tenho ouvido,
      Por muito pouco que seja,
      Nada lhe está garantido

      Pois, do nadinha que o esteja,
      Nunca tem quanto é devido,
      Nem quanto às "bestas" sobeja!


      Maria João


      Cá vai, com o abraço do costume!







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  13. FABULÀRIO

    OS CRAQUES E OS CLIENTES

    Não a atirarão ao chão,
    Os dois craques, a toalha…
    Depois, com água e sabão,
    Hão-de lavar-se da poalha.

    Mas há-de haver uma falha
    Nessa limpeza e na acção.
    Pois com uma e outra mão
    Não se assearão da malha

    Que a um e outro encalha
    E a cada qual mais enreda:
    Livrarem-se da escumalha

    Que seus interesses defende
    A troco da vil moeda
    Por que o cliente se vende

    Eduardo

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    Respostas
    1. ... cai tão bem no Fabulário
      Mas, em mim, fica bem mal
      A descrição dum cenário
      Que desconheço, afinal,

      E descrevê-lo é contrário
      Ao que, em mim, foi natural
      Pois não vem no dicionário...
      Nem tudo é consensual!

      Pois... que seja! O balneário
      Entra em "revolta" global
      Porque alguém foi perdulário,

      Já gastou mais que o normal
      Reduzindo o numerário
      A "fracção" do seu total...


      Maria João

      Muito obrigada e desculpe-me este sonetilho tão coxo que até precisa de umas muletas, amigo Eduardo!
      Tenho estado sem qualquer tipo de acesso à net. esta ligação é precária e nunca sei quanto tempo me vai durar...

      O meu abraço!

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  14. Respostas
    1. Serve, Poeta!

      Apesar de nunca ter tido um cão que morresse de amores por chá, tenho um gato que até há bem pouco tempo mo roubava descaradamente... e só o não faz agora porque está demasiado velhinho para se lembrar desses entusiasmos "chalados"...

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  15. FABULÁRIO

    (em decassílabo muito heróico)

    Para um dia eu ser deputado,
    Que um feiticeiro me transforme em burro,
    No hemiciclo, muito emproado,
    Haveis de ver como é que eu zurro.

    Vou dar um coice, em vez de dar murro
    De vez em quando, no duro tablado
    Assim mostrando como estou irado
    Que um deputado tem que ser casmurro.

    Vereis um asno esperto de verdade
    Que suas crenças para a frente empurra
    A defender a lei da paridade,

    Mostrando, assim, a esta sociedade
    Que a par do burro, também é a burra
    A escoicear o fim da austeridade.

    Eduardo

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    Respostas
    1. Eduardo, sei que sabe muitíssimo bem que este seu delicioso poema não é em decassílabo, nem - muito menos, uma vez que o "heróico" é um adjectivante que só se aplica ao decassílabo! - heróico... mas gostei muito!

      Só lhe não respondo em sonetilho porque já estou meia a dormir dado o adiantado da hora...

      Abraço!

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