A CEIA DO POETA
(Soneto em decassílabo heróico)
O verso ardendo ao lume, a mesa posta,
a toalha das rimas bem estendida
e um prato de silêncios, sem lagosta,
aguardando, expectante, essa comida
Que o nutre, que o sustenta, de que gosta
e que está quase pronta a ser servida
pela mão do poeta, numa aposta
em resistir, fintando as leis da vida...
Apaga o lume e serve-se à vontade
de imagens, de palavras, de conceitos
expurgados da excessiva quantidade
Dos "ais", dos gongorismos, dos trejeitos
em que, alguns, julgam estar a qualidade,
e a qualidade sempre achou defeitos...
Maria João Brito de Sousa - 08.09.2015 - 16.47h
Imagem - "A Refeição Frugal" - Pablo Picasso (água forte)
...sem lagosta ? Então não vou !
ResponderEliminarEheheheheh... não há disso, por cá, Poeta...
EliminarLagostas, nem sequer das poéticas. A palavra, por aqui, quer-se expurgada, exacta, acutilante, mesmo quando serve a metáfora... e sobretudo quando serve a metáfora.
Sou uma poeta expressionista. Bem mais do que possa parecer. Os traços necessários, nos sítios absolutamente necessários e muito poucos enfeites. Nenhum excesso. Nada de barrocos, rococós, dourados e prateados..
Devo ter recebido estas características "cirúrgicas" do laconismo irónico do António de Sousa e do Torga... ou então, são mesmo minhas, sei lá...
Abraço grande!
PS - Pode vir que uma açorda sempre se arranja!
Então serei o papa-açorda !
ResponderEliminarAh, mas eu também sou papa açordas, Poeta! E vê algum problema em ser papa-açorda ??? Olhe que se fosse um "papa recursos do pobre cidadão", como tantos senhores do Arco da Lambança, seria bem pior...
EliminarSejamos uns orgulhosos papa-açordas!
“Sem saber”
ResponderEliminarEu que escrevo sem saber
Já nem sei porque escrevo
Talvez seja p’ra não me perder
Ou estar perdido e não devo
Perdido numa selva imensa
De rimas, vogais, consoantes
Atacado de forma intensa
Por estes sons dissonantes
E por não saber escrever
É que impera a dissonância
Em palavras por mim coladas
Mas já não quero aprender
Fico p’la minha irrelevância
Entre rimas assim baralhadas.
Sabe, sabe... só falta saber escutar!
EliminarSó não sabe é musicar
Porque bem sabe escrever
E melhor sabe rimar;
Falta-lhe o ritmo entender...
Toda a poesia é som
Cujo jogo de batidas,
Num crescendo marca o tom
Das palavras quando ouvidas...
Umas sílabas são fortes,
Outras são quase inaudíveis;
Misture e dê-lhes sentido
Sem desrespeitar-lhe os cortes
Das vogais, quando impassíveis
Não lhe ecoem no ouvido...
Maria João
Cá vai com o abraço de sempre, Poeta!
“Lambanças”
ResponderEliminarÉ no arco da lambança
Que a açorda perde sentido
Aí gostam d’encher a pança
Com algo faustoso e sortido
Entre ostras e caviar
E o champanhe francês
Venha mais, toca a aviar
Que o povo paga outra vez
O banquete dos convivas
De paladar tão refinado
E sem sequer suspeitar
Cria relações afectivas
Governante, governado
Sente-se mal se não pagar.
Prof Eta
Com ostras, com caviar,
EliminarCom espargos ou sapateira,
Fica o Arco a abarrotar
E, pr`a nós, fome certeira...
Ele há, pois, que o derrotar,
Que apoucá-lo, de maneira
A que, em vez de o engordar,
Se lhe passe uma rasteira
Nas eleições e, ao votar,
Pense bem, não faça asneira!
Há que ocupar-lhe o lugar;
Burguesia caloteira,
Deixa o Arco e vai pastar!
Dá lugar à causa obreira!
Maria João
Cá vai, Poeta, feito à pressa, mas muito certo do que diz, este meu sonetilho martelado.
Abraço grande!
ResponderEliminarCara amiga,
É muito difícil ler os seus sonetos e não ingressar no clima da poesia com toda a inspiração, seja em alto ou baixo astral.
BANQUETE DE LUXÚRIA
Ao abrires do nosso amor solitário
O teu mais saboroso dos banquetes,
Buscas o mais glutão destinatário,
Fã incondicional desses espaguetes.
São fibras demais sólidas e puras,
Que busco entusiasmado e quase louco
E sinto as tuas essências nas escuras,
Quando a amor se faz por muito e pouco.
Na mesa bem posta e sempre estendida
É que busco o meu prato favorito
Dessa doçura nunca confundida.
Na ceia inigualável sou saciado
E essa minha loucura depravada
Deixa-me bem feliz e desmaiado.
Muito grata por mais este poema, amigo Adílio Belmonte.
EliminarO meu fraterno abraço.
“Limites”
ResponderEliminarCompetência incompetente
Como linearidade circular
Contentamento descontente
Como alguém ousou pensar
Já não pensa linearmente
Já não sabe o que ousar
Já não se sente competente
Já se consegue contentar
Com a mediocridade vigente
Pois mais não vê alcançar
Toda esta limitada gente
Manda vir uma aguardente
Sentado à mesa num bar
Não pensa, não sabe, não sente.
Quem precisar de aguardente
Eliminarpr`a melhor poder pensar,
está, com certeza, doente,
não se sabe controlar,
Ou pensa que só dormente
é possível enfrentar
essa exigência inclemente
na qual se deixou levar...
Poeta, é muito dif`rente
saber, na vida, enfrentar
o que a vida of`rece à gente,
Se à lucidez se agarrar
nesse instante em que a corrente
pareça querê-lo afogar...
Maria João
Poeta, cá vai com um abraço para si, para os pequeninos - que estão enormes! - e para a minha homónima!
“Avoari”
ResponderEliminarAvoari e avoando
Um passarinho qualqueri
Estava ê olhando
Pra ti linda mulheri
E eis-me senã quando
Isto mesmo sem quereri
O passarinho cagando
Logo me veio acertari
Co sê excremento, o malandro
E ê havera de me jangari
Mas foi tali a rapidez
Que mesmo rápido olhando
Já nã o vi a avoari
E tê rasto perdi-o de vez.
Avoe, Poeta, avoe,
Eliminarque tem muito que avoari
e que a musa lhe abençoe
cada quadra que cantari!
Quando a música faltari,
haverá quem lhe perdoe,
por isso, sem hesitari;
Avoe, Poeta, avoe!!!
E se, acaso, o passarinho
não puder compareceri,
foi porque ficou no ninho,
Pois, de si, não quis saberi;
antes quis ficar sozinho
do que deitar-se a perderi...
Mª João
Cá vai, Poeta, com o abraço de sempre e os votos de bons vôos!
“Nossas dores”
ResponderEliminarOutro mundo se levanta
Em forma de indiferença
O papão que se agiganta
Não tem a ver com crença
Tem sim a ver com a dor
Ser a do vizinho do lado
Portanto o seu clamor
É p’los outros ignorado
Um dia se a dor fôr nossa
E o vizinho tiver partido
Então partiremos também
Pois um por muito que possa
Se está sozinho e condoído
Busca o outro mais além.
Não só isso... mas também
Eliminarpor ausência de empatia
que todo o ser vivo tem
(quando a não tem, deveria..)
Ou manobra que convém
às maquinações da CIA...
De tudo um pouco contém
a tão falada apatia...
Não me sinto nada bem,
mas quis ver se conseguia
responder-lhe à letra e bem
Neste avo de poesia
que nenhuma dor detém
porque a mão não consentia...
Mª João
Não estou mesmo a sentir-me bem, Poeta... mas não é a primeira vez que lhe envio um sonetilho-resposta todo martelado... segue com o abraço de sempre!
“Passadas”
ResponderEliminarPassos largos daqui pra fora
Quem se habituou a roubar
O mal já não vem de agora
Vem de época milenar
Donos que fomos do mundo
Riqueza que era abundante
Depois do rombo profundo
Vestimos alma de pedante
O subsídio e o pedantismo
Na alma se nos entranhou
Mas só chega prá nobreza
São tiques de novo-riquismo
Que o povo um dia sonhou
Mas não saiu da pobreza.
Prof Eta
Talvez sim... sonha-se ainda
EliminarCom riquezas desmedidas,
Mesmo estando na berlinda
Com risco das próprias vidas...
Ele é ver-se as "raspadinhas"
A venderem-se aos montões;
"Sonham-se" reis e rainhas
Dos reinos de alguns milhões
E se o sonho é necessário,
Se, afinal, comanda a vida
Sonhe-se um digno salário
E seja, então, preterida
A ambição do milionário
Que é sempre injusta, à partida...
Maria João
Aqui vai, Poeta, meio "martelado", mas vai... abraço grande!
O NOSSO COUVAL
ResponderEliminarEnquanto o Costa se encosta
Ao que fez na Capital
O Coelho faz o que gosta:
Devasta o nosso couval…
Como é irracional,
Mantém sempre a mesma aposta;
Não faz mais do que ele, o Costa
E aposta de modo igual.
E o couval, assim tratado
Por um e outro tratador,
Cada vez mais devastado,
Vai ficar no mesmo estado
Em que o deixou um tutor
Que por Abril foi julgado.
Eduardo
Gostei muitíssimo deste seu sonetilho, Eduardo!!! Gostaria imenso de lhe responder, mas estou completamente exausta e sei que não escreveria nada de jeito...
EliminarObrigada e um forte abraço para si e Maria dos Anjos!
“Pergaminhos”
ResponderEliminarDuvido da capacidade
Até do mais capacitado
Assim como da verdade
Do charlatão encartado
Proponho a humildade
E registo com agrado
Traços de verticalidade
Mesmo ao invertebrado
São bons pontos de partida
P’ra chegar a nenhum lado
Sem limitar o caminho
Chega-se à morte em vida
É um direito consagrado
No mais rico pergaminho.
Chega-se à morte com vida...
EliminarEis aqui a condição
Que é pela morte exigida
Pr`a cumprir sua função!
Esta fórmula é cumprida
Pela vida, sem excepção,
Estando, assim, bem garantida
A sua renovação...
Melhor, não foi conhecida;
Garante a reprodução
Que a vida seja vivida
Sob a chama da paixão
Pr`a`poder ser concebida,
Pr`a que haja continuação...
Mª João
Aí vai Poeta, com outro abraço grande!
Chá vivinho.
ResponderEliminarOra bem! Vou vê-lo, Poeta!
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