EU E FLORBELA

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Eu


Eu sou a que no mundo anda perdida,
Eu sou a que na vida não tem norte,
Sou a irmã do Sonho, e desta sorte
Sou a crucificada ... a dolorida ...

Sombra de névoa ténue e esvaecida,
E que o destino amargo, triste e forte,
Impele brutalmente para a morte!
Alma de luto sempre incompreendida! ...

Sou aquela que passa e ninguém vê ...
Sou a que chamam triste sem o ser ...
Sou a que chora sem saber porquê ...

Sou talvez a visão que Alguém sonhou,
Alguém que veio ao mundo pra me ver
E que nunca na vida me encontrou!

Florbela Espanca, in "Livro de Mágoas"


 


EU


 


Eu, em contrapartida, sei quem sou;


Poeta, fui-o sempre, a vida inteira,


Dos versos dedicada companheira,


Rocha, ou papoila, que do chão brotou


 


E, depressa demais, desabrochou,


Tomando a sua própria dianteira


Na caminhada junto à ribanceira


Em que o passo apressado a colocou,


 


Mas vive, agora muito lentamente,


Um tempo mais teimoso e mais urgente


Que teima em não parar pr`a repousar


 


E que passa por ela e segue em frente,


Sem dar conta do mal que faz à gente


Que vai estando cansada de passar...


 


 


Maria João Brito de Sousa - 28.01.2016 - 11.00h


 


 

Comentários

  1. “Zicas”

    Zic, zic, zic, zica
    Assim se vê a desgraça
    Pois melhor nunca fica
    Esta imagem que passa

    A tod’a hora e minuto
    Absorvido nesta farsa
    Mesmo o ser mais arguto
    Confundido não disfarça

    Na saúde e na doença
    Na alegria e na tristeza
    Até que a morte fracture

    O mundo da indiferença
    Não pode ter a certeza
    De que a certeza dure.

    Prof Eta

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    Respostas
    1. ... e ainda pouco sabemos
      das formas de transmissão
      desse Zica que mal vemos,
      mas causa destruição...

      É bom que lhe dispensemos
      a necessária atenção
      e que jamais aceitemos
      que marque uma geração...

      Talvez nem se dê por cá,
      mas grassa noutros países
      de dif`rente latitude

      E aquilo que faz por lá
      vai destruindo as raízes
      da vindoura juventude...

      Maria João


      Forte abraço, Poeta!

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  2. NOVO ACORDO DE ORTOGRAPHIA

    Vindos nós de novo a as medievas eras
    Mai-la o negrume da crua escravidão
    Acordados ´inda doutras primaveras
    E agora falidos em tal servidão

    Tomemos, asinha, esta tentação
    De a fala e escrita salvar de quimeras
    Amostrando audazes nossa erudição
    Vamos arrimar acordo deveras

    Já que a as arrecuas voltamos agora
    A os tempos de perca de a independência
    Com fervor de Celtas vamos lançar fora

    Arengada insana sem estilo nem cura
    Espelho que amostra a nossa falência...
    Se tudo vendemos queremos fala pura.

    Eduardo

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    Respostas
    1. Loucura seria tão pura deixá-la
      Que imóvel ficasse, sem poder mexer-se,
      Mas esta "acordice" quer assassiná-la;
      E ao desfigurá-la não vai comover-se

      De a ver deturpada na escrita e na fala...
      E um pobre poeta tem de defender-se;
      Procura a raiz e não sabe encontrá-la
      Pois foi-lhe arrancada e mal pode entender-se...

      Nem morta lhe aceito esses novos "preceitos";
      Não fazem sentido, são contraditórios!
      Escritor que se preze tem os seus direitos,

      Contesta os caprichos dos grandes "empórios"
      Que enchem a grafia de tantos defeitos
      Tão disparatados, tão contraditórios!

      Maria João

      Obrigada, amigo Eduardo! Este meu soneto-manco foi-me "saindo" em verso endecassilábico, nem eu sei como... mas contém o essencial, no que respeita a este obsoleto arrazoado de disparates que é o AO90...

      Forte abraço!

      Eliminar
  3. “Leilão de almas”

    O demónio tem cifrões
    Dá-te tudo e até prazer
    Deixas de ter ralações
    Páras logo de sofrer

    Doutro lado só espinhos
    Rochas, pedras, muita lama
    Foge já desses caminhos
    Não terás minuto de fama

    Damos-te já a receita
    Para alcançar um milhão
    Rica vida vem viver

    Vais levá-la bem direita
    Terás tudo sempre à mão
    Depois da alma vender.

    Prof Eta

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Nunca tive a alma à venda,
      Nem no demo acreditei;
      Talvez nunca alguém me entenda
      Mas é assim que eu me sei

      E nesta absurda contenda
      Nunca a mim me venderei,
      Nem percorrerei tal senda,,,
      Só a que eu mesma tracei!

      Mas bem conheço a receita
      Desse obsceno oportunismo
      Que tantos vai seduzindo

      E sempre faço a desfeita;
      Ando à beira desse abismo,
      Nunca, nunca nel` caindo...


      Maria João


      Aqui vai com o forte abraço de sempre, Poeta!

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