GLOSANDO FLORBELA ESPANCA (11)

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PERDI OS MEUS FANTÁSTICOS CASTELOS





Perdi meus fantásticos castelos 
Como névoa distante que se esfuma... 
Quis vencer, quis lutar, quis defendê-los: 
Quebrei as minhas lanças uma a uma! 

Perdi minhas galeras entre os gelos 
Que se afundaram sobre um mar de bruma... 
- Tantos escolhos! Quem podia vê-los? – 
Deitei-me ao mar e não salvei nenhuma! 

Perdi a minha taça, o meu anel, 
A minha cota de aço, o meu corcel, 
Perdi meu elmo de ouro e pedrarias... 

Sobem-me aos lábios súplicas estranhas... 
Sobre o meu coração pesam montanhas... 
Olho assombrada as minhas mãos vazias... 

Florbela Espanca, in "A Mensageira das Violetas"





... E EU, A MINHA PEQUENINA "TOCA"...


 


"Perdi os meus fantásticos castelos"


- ah, meras ilusões feitas de espuma... -,


No instante em que deixei de merecê-los


Por não ambicionar mais coisa alguma...


 


"Perdi minhas galeras entre os gelos";


Os sonhos, em cochins de sumaúma,


Foram-se transformando em pesadelos


Que hoje devolvo à dimensão da bruma...


 


"Perdi a minha taça, o meu anel


E esta incansável espada de papel


Foi-se embotando em causas destemidas...


 


"Sobem-me aos lábios súplicas estranhas"


Nos versos que me sobem das entranhas


Esgrimindo-se em batalhas já perdidas...


 


 


Maria João Brito de Sousa - 02.02.2016 - 13.54h


 


 


 


 


 

Comentários

  1. Cada dia te acrescentas
    no que te acrescenta
    a quem tanto te inspira

    fosse Florbela viva
    e ela te admiraria

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    1. Obrigada, Rogério!

      Penso que eu e ela nos teríamos dado muito bem, se nos tivesse sido dado viver num tempo comum a ambas... embora olhando o mundo de forma muito diferente, ambas batalhámos - eu batalho ainda... - pela mais-do-que-perfeita musicalidade do soneto em épocas que tenderam a pô-lo de parte... também ela o abraçou quando ele ameaçava naufragar nas águas da poesia modernista, que então se levantava em plena praia-mar...

      Beijo!

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  2. “Puzzle”

    Cristo está em cartaz
    Os homens no purgatório
    Nossa existência fugaz
    Que seria sem falatório

    Neste puzzle que é a vida
    Vão saindo peças à sorte
    Última peça recebida
    Será a peça da morte

    Cristo continuará
    Sua infinita caminhada
    Salvando-nos com sua dor

    Uma outra peça nos dará
    Pois o puzzle não seria nada
    Sem receber a peça do amor.

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    Respostas
    1. Letra a letra, peça a peça,
      Cada peça um laço forte
      Da manta que a gente teça
      Desde o nascimento á morte...

      Devagar, que tenho pressa
      De apanhar esse transporte;
      Não há força que me impeça
      Quando enfrento a própria sorte!

      Cá por dentro, cá no fundo,
      Guardo muito bem guardado
      Esse amor de que me inundo

      E que vou vendo cantado
      Pela vida e pelo mundo
      Desde um remoto passado...

      Maria João

      Aqui vai, Poeta, com o abraço de todos os dias!




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