GLOSANDO FLORBELA ESPANCA (8)
AS MINHAS ILUSÕES
Hora sagrada dum entardecer
D’Outono, à beira-mar, cor de safira.
Soa no ar uma invisível lira...
O sol é um doente a enlanguescer...
A vaga estende os braços a suster,
Numa dor de revolta cheia de ira,
A doirada cabeça que delira
Num último suspiro, a estremecer!
O sol morreu... e veste luto o mar...
E eu vejo a urna d’oiro, a baloiçar,
À flor das ondas, num lençol d’espuma.
As minhas Ilusões, doce tesoiro,
Também as vi levar em urna d’oiro,
No mar da Vida, assim... uma por uma...
Florbela Espanca, in "Livro de Mágoas"
... E AS MINHAS...
"Hora sagrada dum anoitecer"
A que a nuvem se esquece que aspergira
Com a bênção da chuva e que suspira
Por ver o dia assim, quase a morrer...
"A vaga estende os braços a suster"
As mil desilusões que já sentira,
Pr`a que a força dos braços lhe sugira
Que, amanhã, há-de o dia amanhecer...
"O sol morreu... e veste luto o mar..."...
De nada serve à vaga sustentar
As razões por que escreve, ou por que fuma...
"As minhas Ilusões, doce tesoiro,"
Quais bolas de sabão, vão ´dando o estoiro`,
Nenhuma tem mais peso que uma pluma...
Maria João Brito de Sousa - 30.01.2016 -21.41h
“Lei morta”
ResponderEliminarProclamam que tudo é lei,
Como se fora mesmo assim
Mesmo presidente ou rei
Não posso dizer-lhes sim
Dos homens, sei quanto sei;
Não antevendo um bom fim
Mas empecilho nunca serei
Se eles o querem, enfim,
Como as ondas rebentando,
Envolvem em espuma os dias
Na vazante ou maré cheia
Ah, fosse tão só na areia
Mas a vida tem outras vias
Mesmo com a lei controlando.
Bem mais morta do que viva
EliminarJá eu estou, Poeta amigo...
Toda a noite a mente activa
Pôs-me Morfeu de castigo
Com medo de não ouvir
O despertador tocar,
Nada consegui dormir
E estou quase a soçobrar,
Mal vejo as teclas, coitadas,
E tanto soninho tenho
Que estas pálpebras pesadas
Se de fechá-las me abstenho,
Pesam quilo, tonelas...
Vou dormir... mais logo venho....
Maria João
Estou mesmo muito, muito cansada e dorida, Poeta... isto foi tudo o que me ocorreu... abraço grande!
“Existindo”
ResponderEliminarExistir, eu não existo
Mas sim, penso existir
E como tal não desisto
De me tentar exprimir
Se acaso não pensara
Existir nunca poderia
Mas a existência é bizarra
Pois não há dela garantia
Neste mundo de pensar
Tudo é efémero, enfim
E carece de confirmação
Pode-se à existência chegar
Mas embora digam que sim
Tu podes pensar que não.
Poeta, só por exprimir-se,
EliminarFique certo de que existe...
Pode e deve decidir-se
Pois é nisso que consiste
O conceito de existir-se,
Mesmo quando não lhe assiste
O direito de assumir-se
No verbo que, então, desiste...
Se muitas dúvidas tenho,
Nunca a da minha existência
Me passou pela cabeça,
Porque "sinto" e não desdenho
Desta minha (in)coerência,
Disso, não há quem me impeça...
Maria João
Aqui vai, Poeta, com o abraço de sempre; exausto mas concreto!