O ESTUÁRIO II

Tejo e Mar.jpg


Soneto nascido muito apressadamente na sequência do poema "Parava o Tempo", de Felismina Costa.


 


Permito-me transcrever os versos do poema que vieram a sugerir-me esta resposta;


 


..."... A sul, o rio correndo, é prata agora

E beija a cidade, enamorado…

Numa preguiça, numa dolência,

de quem sabe ter chegado! "...


 


 


O ESTUÁRIO II


 


 


Assim que chega à foz, o manso Tejo


Pressente o mar imenso, avança, então,


E, nessa correria, eu quase invejo


O abraço que, por fim, os dois darão...


 


Aí cresci, aí, onde os cortejo,


Nesse ponto onde os dois se encontrarão,


Na foz, nesse estuário em que revejo


Mil horas de infantil contemplação...


 


E enfrentam-se esses dois, que já mal vejo,


Num rude amplexo, em plena transgressão,


Onde há espumas e vagas, de sobejo,


 


Porque onde um quer passar, outro diz: - Não!


Mas passa o Tejo a mar num louco beijo


E o mar adentra um Tejo em convulsão...


 


 


Maria João Brito de Sousa - 28.01.2016 - 19.25h


 

Comentários

  1. “Sete mares”

    São oceanos d’esperança
    Não ribeiros de lamentação
    Imagem viva na lembrança
    Certezas perdidas em vão

    Neste mundo de incerteza
    De imagens que o não são
    Vale uma visão de firmeza
    Mesmo se turvada a visão

    Serão mares por navegar
    Assim que passada a ilusão
    Duma inexistente bonança

    Águas revoltosas p’ra sulcar
    Sempre foram e sempre serão
    Caminhos que o mar nos lança.

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    Respostas
    1. Sempre nos lançou caminhos,
      Esse mar - ai, "tanto mar..." -
      Alguns trazem remoinhos,
      Outros, bons de navegar...

      Nem toda a flor terá espinhos,
      Desses que se irão espetar
      Quando esperamos carinhos
      De quem nunca soube amar...

      Sete serão os tais mares
      Tantas vezes percorridos
      Que à conta de os navegares

      Passaste uns anos sofridos
      E, em vez de o conquistares,
      Conquistou-te, el`, os sentidos...

      Maria João

      Contente por revê-lo nestas andanças, Poeta, envio o que me ocorreu deixar escrito bem como o abraço de sempre!



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  2. ERA O ÚLTIMO

    Pelos mais abandonado
    Sozinho, ali jazia
    À mercê da hipotermia
    Lívido, triste e prostrado…

    Embrulhei-o com cuidado
    Comovido de alegria,
    Mas notei que o desgraçado
    Já quase se desfazia.

    Depois, à mesa sentado,
    Mirei-o, sem compaixão
    E ele, a olhar-me de lado,

    Aquele queijinho fresco
    Que eu devorei com pão
    E a sorver o meu refresco.

    Eduardo

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    Respostas
    1. Também eu guardo com esmero
      E na franca hipotermia
      Do Whirpool que ainda espero,
      Mos conserve noite e dia,

      Uns restinhos, sem tempero,
      De arroz branco, uma azevia,
      E outras sobras que nem quero
      (nem eu própria as tragaria!)

      Pois ficaram esturricadas,
      Tão negras quanto o carvão,
      De umas ervilhas guisadas

      Que esqueci sobre o fogão,
      Mas que ficaram guardadas,
      Nem eu sei por que razão...

      Maria João

      Está uma delícia, este seu sonetilho, amigo Eduardo!
      Confesso que, quando li a primeira estrofe, nunca pensei que se referisse a um queijinho, rsrsrsrs...

      Forte e grato abraço!


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