GLOSANDO FLORBELA ESPANCA (18)

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PANTEÍSMO





Ao Botto de Carvalho

Tarde de brasa a arder, sol de verão
Cingindo, voluptuoso, o horizonte...
Sinto-me luz e cor, ritmo e clarão
Dum verso triunfal de Anacreonte!

Vejo-me asa no ar, erva no chão,
Oiço-me gota de água a rir, na fonte,
E a curva altiva e dura do Marão
É o meu corpo transformado em monte!

E de bruços na terra penso e cismo
Que, neste meu ardente panteísmo
Nos meus sentidos postos e absortos

Nas coisas luminosas deste mundo,
A minha alma é o túmulo profundo
Onde dormem, sorrindo, os deuses mortos!

Florbela Espanca, in "Charneca em Flor"





TROPISMO(S)





"Tarde de brasa a arder, sol de Verão"


Sobre um estuário estático e brilhante


Que me parece vir da dimensão


De um mundo imaginado e já distante ...





"Vejo-me asa no ar, erva no chão",


Cauda de peixe, nau de navegante,


Sargaço, limo, lapa ou mexilhão


Nas desnudadas rochas da vazante...





"E de bruços na terra penso e cismo";


Que louco este infindável mimetismo,


Que estranha a minha eterna devoção





"(Às) coisas luminosas deste mundo",


À minha velha casa do Dafundo,


À mais-do-que-fecunda introspecção...





Maria João Brito de Sousa - 10.02.2016 - 18.40h


 


 

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