DIALOGANDO COM FLORBELA ESPANCA
A MINHA DOR
*
A minha Dor é um convento ideal,
Cheio de claustros, sombras, arcarias,
Aonde a pedra em convulsões sombrias
Tem linhas dum requinte escultural.
*
Os sinos têm dobres de agonias
Ao gemer, comovidos, o seu mal...
E todos têm sons de funeral
Ao bater horas no correr dos dias...
*
A minha Dor é um convento. Há lírios
Dum roxo macerado de martírios,
Tão belos como nunca os viu alguém!
*
Nesse triste convento aonde eu moro,
Noites e dias rezo e grito e choro,
E ninguém ouve... ninguém vê... ninguém...
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Florbela Espanca
In "Livro de Mágoas"
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MINHA DOR, MINHA MUSA
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A minha Dor, se às vezes me domina,
As mais das vezes bate em retirada;
Diante de um poema, vale um nada
Do que me vale o verso que a fascina!
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Minh`alma - minha carne e minha sina -
Quando por tanta dor desencantada,
Consuma-se em soneto e, consumada,
Torna-se a dor, menor, mais pequenina
*
E se, em verdade, a Dor molda o meu mundo,
Também a ela a moldo, se a confundo
Com tão frontal estratégia e, já confusa,
*
Envergonha-se e tenta-se esconder...
Quanto daria a Dor para entender
Como é que dela faço a minha Musa?
*
Maria João Brito de Sousa - 11.12.2016 - 10.10h
IMAGEM - "Fábula e Verdade" , José de Brito (meu bisavô)
Muito, muito bons!!! Adorei.
ResponderEliminar:) Obrigada, Fashion!
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