DIALOGANDO COM FLORBELA ESPANCA

fabula-e-verdade- Jose de Brito.jpg


 


A MINHA DOR


*


 


A minha Dor é um convento ideal,


Cheio de claustros, sombras, arcarias,


Aonde a pedra em convulsões sombrias


Tem linhas dum requinte escultural.


*


 


Os sinos têm dobres de agonias


Ao gemer, comovidos, o seu mal...


E todos têm sons de funeral


Ao bater horas no correr dos dias...


*


 


A minha Dor é um convento. Há lírios


Dum roxo macerado de martírios,


Tão belos como nunca os viu alguém!


*


 


Nesse triste convento aonde eu moro,


Noites e dias rezo e grito e choro,


E ninguém ouve... ninguém vê... ninguém...


*


 


Florbela Espanca


 


In "Livro de Mágoas"


 


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MINHA DOR, MINHA MUSA


 


*


 


A minha Dor, se às vezes me domina,


As mais das vezes bate em retirada;


Diante de um poema, vale um nada


Do que me vale o verso que a fascina!


*


 


Minh`alma - minha carne e minha sina -


Quando por tanta dor desencantada,


Consuma-se em soneto e, consumada,


Torna-se a dor, menor, mais pequenina


*


 


E se, em verdade, a Dor molda o meu mundo,


Também a ela a moldo, se a confundo


Com tão frontal estratégia e, já confusa,


*


 


Envergonha-se e tenta-se esconder...


Quanto daria a Dor para entender


Como é que dela faço a minha Musa?


*


 


 


 


Maria João Brito de Sousa - 11.12.2016 - 10.10h


 


 


IMAGEM - "Fábula e Verdade" , José de Brito (meu bisavô)


 


 


 

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