GLOSANDO ANTÓNIO CODEÇO

flor murcha.jpg


 


 


FEL





Aceito haver o fraco, haver o forte,


A negra morte, o nada, a breve vida


O Sol a desaparecer na despedida


A Lua à noite viúva entregue à sorte.


 


Aceito aquele que anda já sem norte


O que não encontra a porta de saída


O que vive do vício da rapina


O que sucumbe sem ter passaporte.


 


Aceito o vento como obra do acaso


A cobra fria que usa letal veneno


Entrando num jardim que não é o seu


 


Aceito a flor que morre em seco vaso


A dor de ser mortal, de ser pequeno


Mas esse fel que provas não é meu


 


 


António Codeço, 2016


 


 


NEM TUDO FEL, NEM TUDO MEL...


 


"Aceito haver o fraco, haver o forte,"


Nascer, da sombra, a luz dum Sol intenso,


Queimar, até à cinza, um pau de incenso,


Ou quanto tempo reste, antes da morte...


 


"Aceito aquele que anda já sem norte",


E o outro, o que o descobre e torna imenso,


Mas mal me aceito a mim, se fico tenso


De tanto ir aceitando e, de tal sorte,


 


"Aceito o vento como obra do acaso",


Mas nunca meço o fluxo entre as pressões


Que, de alta para baixa, vão soprando,


 


"Aceito a flor que morre em seco vaso",


Mas duvido que aceite as distracções


Dos que a viram murchar, nunca a regando...


 


 


 


Maria João Brito de Sousa - 11.08.2016 -01.43h


 

Comentários

  1. “Do verbo e do abismo”

    Era o tudo e era o nada
    No início do estado verbal
    E uma aparência desfigurada
    Contra o bem e contra o mal

    Essa realidade percepcionada
    Seria em todo o caso fatal
    Pois a parte descodificada
    Viria a revelar-se-nos letal

    Faz parte do relativismo
    Inerente à mente humana
    No processo de descodificação

    O verbo oculta o abismo
    Numa lógica cartesiana
    Mas o abismo resulta da acção.

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    Respostas
    1. Se tomados como extremos
      Vida - Bem e Morte - Mal,
      Tal e qual nos mantivemos,
      Tudo continua igual

      E apenas inquiriremos,
      Através do som verbal;
      Nesta vida, o que fizemos
      E o que fazer, afinal?

      Mas tem o verbo função;
      Serve pr`a comunicar
      E é na comunicação

      Que as coisas podem mudar,
      Tendo sempre em atenção
      Que viver é renovar.

      Maria João


      Cá vai, Poeta, com o abraço de sempre e, caso nos não encontremos por aqui antes do Natal, Feliz Natal para si e toda a família!

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  2. Que dupla maravilhosa. Adoro os poemas do António e os seus. Muito, muito bons!!

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