GLOSANDO ANTÓNIO CODEÇO II
FOLHAS OUTONAIS
Julguei pintar imagens outonais
De folhas moribundas pelo chão
Soando nos meus pés tão musicais
De acordes dados pela solidão
Sombrios rostos tornam-se banais
Passam por mim, tremenda confusão
Na falsa ilusão serem imortais
Esquecemos que há no corpo um coração
Caem folhas dos ramos do meu peito
As folhas outonais já ressequidas
De tanto sol que enfrentam diariamente
Conseguirei dobrar este conceito
Ser rei dum reino de árvores despidas
Ser cego e mesmo assim ver toda a gente?
António Codeço
AUTO-RETRATO
"Julguei pintar imagens outonais",
Mas foi o meu retrato que pintei
Em pinceladas quase acidentais
Sobre o branco da tela em que as lancei.
"Sombrios rostos tornam-se banais"
E na banalidade me espelhei,
Confundindo esses traços vegetais
Com este, muito humano, em que os pensei.
"Caem folhas dos ramos do meu peito"
Quando o vento outonal sopra a favor
Desta minha cegueira indesmentida...
"Conseguirei dobrar este conceito",
Dobrada em lucidez, saber-me expor
Nos traços, meus também, dessoutra vida?
Maria João Brito de Sousa - 30.01.2017 - 08.36h
Os dois muito,muito bons! Adorei.
ResponderEliminarConfesso que me rendi perante a magnífica chave-de-ouro deste soneto do António Codeço, Fashion!
EliminarBeijinho e obrigada, pelo que toca à minha glosa!