GLOSANDO ARY DOS SANTOS

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SONETO DE MAL AMAR








Invento-te recordo-te distorço
a tua imagem mal e bem amada
sou apenas a forja em que me forço
a fazer das palavras tudo ou nada.

A palavra desejo incendiada
lambendo a trave mestra do teu corpo
a palavra ciúme atormentada
a provar-me que ainda não estou morto.

E as coisas que eu não disse? Que não digo:
Meu terraço de ausência meu castigo
meu pântano de rosas afogadas.

Por ti me reconheço e contradigo
chão das palavras mágoa joio e trigo
apenas por ternura levedadas.




Ary dos Santos, in 'O Sangue das Palavras'











SONETO DE MAL-LEMBRAR








"Invento-te recordo-te distorço"


Essa velha memória desgastada


Pelo tempo passado, pelo esforço,


Pela estrofe que passa, desgarrada.





"A palavra desejo incendiada";


Erro de paralaxe, ou óbvio escorço


Duma memória em versos recriada


Que é, da figura humana, apenas torso.





"E as coisas que não disse? Que não digo (:)"


Sobre as fomes de um pão que encontra abrigo


Em quadras e sextilhas (en)cantadas?





"Por ti me reconheço e contradigo"


Que andei de verso em verso, qual mendigo


Da esmola das canções que são rimadas.





 





Maria João Brito de Sousa - 18.01.2017 - 11.02


 


No dia do 33º aniversário da sua partida.











 

Comentários

  1. Olá Maria.
    Muito tempo não visito você por este blog.
    Muito linda sua glosa. Talvez um dia poderei escrever assim...
    Retornei aos estudos, segundo ano do curso de Letras.

    Pode enviar-me seu e-mail?
    Preciso de obter algumas informações sobre "Portal CEN".
    Pode ser pelo facebook in box .

    Obrigada.


    Vera.

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    Respostas
    1. Bom dia, Vera!

      Obrigada por gostares da minha glosa ao SONETO DE MAL AMAR, do enorme poeta que é o Ary. É um soneto em decassílabo heróico a que eu "respondi" também em decassílabo heróico.

      Arranjarei forma de te fazer chegar o meu endereço electrónico, embora raramente vá ao FB, agora, desde que as cataratas oftalmológicas cresceram ao ponto de praticamente me inviabilizarem a leitura naquele espaço sobrecarregado de todo o tipo de informação visual. Nestes últimos dias, apenas tenho ido à minha página de escritora - bem menos "invadida" pelas caixinhas de diálogo... - "colo" os sonetos que levo do Office, faço um upload de imagem e saio, porque, depois de fazer tudo isso, a minha acuidade visual fica reduzida a zero... ou muito perto disso.

      Por aqui, nestas caixinhas, também não me é nada fácil responder, mas sempre posso aumentar o tamanho da letra e descansar o tempo que for preciso, a meio da minha resposta... este é um espaço bastante menos "móvel" do que o Fb...

      Beijinho!

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    2. E neste teu país não tem cirurgia para retirada das cataratas sem custos? Temos um país de corruptos, mas ainda assim temos esta cirurgia, mesmo que demore meses. Se retirá-las. Vai ver como nunca!

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    3. Não sei o motivo do sapo ter-me dado este nome "demasiado tímido".

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    4. Ah, Vera, desculpa! Não foi o Sapo, fui eu que configurei - faz muitos anos... - a opção "Demasiado Tímido" para os comentadores anónimos...

      Sim, Portugal oferece, através do Serviço Nacional de Saúde, a remoção cirúrgica gratuita de cataratas oculares, mas há que esperar pela consulta e, depois, entrar na fila de espera das cirurgias oculares. Pelos vistos é um processo muito demorado... as listas de espera devem estar muito longas porque a minha consulta de oftalmologia já foi requisitada há cerca de um ano e ainda não recebi a carta convocatória... mas, embora com dificuldade, já enviei o meu endereço electrónico para a tua caixa de mensagens do Fb... viste? Beijinho!

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