AINDA GLOSANDO FLORBELA ESPANCA III
RENÚNCIA
A minha mocidade há muito pus
No tranquilo convento da tristeza;
Lá passa dias, noites, sempre presa,
Olhos fechados, magras mãos em cruz...
Lá fora, a Noite, Satanás, seduz!
Desdobra-se em requintes de Beleza...
E como um beijo ardente a Natureza...
A minha cela é como um rio de luz...
Fecha os teus olhos bem! Não vejas nada!
Empalidece mais! E, resignada,
Prende os teus braços a uma cruz maior!
Gela ainda a mortalha que te encerra!
Enche a boca de cinzas e de terra
Ó minha mocidade toda em flor!
Florbela Espanca, in "Livro de Sóror Saudade"
AFIRMAÇÃO
“A minha mocidade há muito pus”
No cantinho das coisas já passadas
Que guardo, dia a dia acumuladas,
Porque só a memória as reproduz...
“Lá fora, a noite, Satanás seduz!”
Mas eu que, renegando almas penadas,
Observo as gentes tristes e cansadas,
Deduzo cada medo que as traduz;
“Fecha os teus olhos bem! Não vejas nada!”
- Só fecho os olhos quando, atordoada,
Possa o sono nublar-me a lucidez!
“Gela ainda a mortalha que te encerra!”
- E eu quero lá saber de quem me enterra,
Se morro por chegar a minha vez?!
Maria João Brito de Sousa – 12.07.2017 - 16.26h
“Mais além”
ResponderEliminarNo infinito e mais além
Nunca foi um problema
Mas não revelo a ninguém
A chave deste sistema
Pode não vos parecer bem
Mas é tabu este tema
Pois revelar não convém
Face oculta dum dilema
Assim vos deixo a pensar
Ide em busca da solução
Que pode nunca surgir
O objectivo é não parar
Mais além me encontrarão
Mas convém não desistir.
"COISA DE ESPÉCIE"
Eliminar"Ir além" é coisa nossa,
Muito humana e natural;
Não há quem "além" não possa
Chegar, mesmo em seu quintal,
Mesmo se o medo o acossa,
Mesmo sentindo-se mal,
Mesmo quando a sorte troça
Dessa essência racional...
"Ir além", sempre o fizemos,
Sempre o faremos sonhando,
Projectando e construindo;
É um "bem" com que nascemos
E que foi frutificando
Porque sempre foi bem-vindo...
Maria João
Bom dia, Poeta! Entendo o "ir além" como algo muito próprio da nossa espécie, algo que nos é intrínseco e que nos caracteriza desde sempre... somos a única espécie que o pode consciencializar, embora na minha opinião, não seja nada de muito transcendente...
Aui vai, com o abraço de todos os dias!
“Disfunções”
ResponderEliminarNosso modo de pensar
Embrulhado em cifrões
Faz o pensamento parar
Quando se fala em milhões
Podem até tudo queimar
Ardendo as populações
Deixar-se tudo roubar
Dos rockets às munições.
Deverá um dia mudar
Pensará sem hesitações
Quem não se deixam toldar
Por semelhantes aberrações,
Quem não pensa está a tratar
De os eliminar de funções.
Prof Eta
CONFUSÕES
EliminarNestas "eras" engendradas
Para endeusar os cifrões,
São,as gentes, enganadas,
Confundem-se opinões
E as convicções, baralhadas,
Vão rolando aos trambolhões
Enquanto se erguem fachadas
Pr`a esconder as confusões...
Andam, uns, às gargalhadas
E, outros, aos empurrões
Pelas ruas asfaltadas
Das suas opiniões
Que, por mais que engalanadas,
São escravas dos tais milhões...
Maria João
Bom dia, Poeta!
De saída para mais duas consultas, aqui vai o meu sonetilho-resposta-improviso. Depois lhe enviarei um mail.
Abraço grande!
“Depenada”
ResponderEliminarEm minh’alma alcatroada
As penas se vão colando
Constrói-se assim a estrada
Vão-se as penas realçando
Muita pena ou pouca pena
Pouco importa na verdade
Se a alma não é pequena
Ou refém da mediocridade
De manhã, de manhãzinha
Logo após a madrugada
Se a alma ainda fôr minha
Partirei sem dizer nada
E mais logo à tardinha
Regresso d’alma depenada.
Cada alma traz as penas
EliminarQue a vida lhe foi doando;
Nuns, são as penas pequenas,
Noutros, vão-se agigantando,
Tornando-se longas, plenas,
Porque, esses, que as vão penando,
Mais do que as penas, apenas
Vão pela vida pugnando...
Alguns há que só depenam,
Pois por um nada condenam
Crendo ser sempre os maiores
E vão, de penas, enchendo
Os que passam não sabendo
Quem são os seus predadores...
Maria João
Boa tarde, Poeta! Iniciei este sonetilho-resposta por volta das sete da manhã, mas fui "raptada" por uma vizinha amiga que me veio buscar para almoçar... só agora o pude terminar.
Abraço grande!
“Construcções”
ResponderEliminarPendem lágrimas de sal
P’ra irrigar a tolerância
Perdas não são um mal
Se refinam a paciência
Podes esculpir ao falhar
Sorrisos de serenidade
Com dor podes lapidar
Prazer furtado à ansiedade
Obstáculos te permitam
Abrir janelas d’inteligência
Demolir castelos de cartas
No final, se todos gritam
Partilha a tua ausência
Sai do meio das baratas.
eheheheh...
EliminarSe a barata fosse cara,
Jamais teria subido
Todo o espaço que a separa
Deste meu espaço, é sabido...
Mas úma única vez
Tive essa amarga surpresa,
Faz um ano neste mês...
Não voltará, de certeza!
As perdas, são naturais,
Inevitáveis, normais...
Tão só as faltas de meios,
Sendo muitas, são demais
E os "danos colaterais"
São graves, severos, feios...
Maria João
Boa tarde, Poeta. Cá vai a "construção" possível, no momento.
Abraço grande!
“De cá e de lá”
ResponderEliminarComboio era a vapor
A terra seria barrenta
Sentia-se aquele odor
De mentalidade cinzenta
Vivia-se no esplendor
Segregando a tormenta
Até que o muro em redor
Certo dia já não aguenta
E todos reivindicaram
A sua superioridade
Pois eram a parte boa
Aqueles que sobejaram
P’ra não haver duplicidade
Deixaram de ser pessoa.
Prof Eta
Eu cresci à beira-Tejo,
EliminarJunto à linha de Cascais,
Frente ao mar que hoje mal vejo,
Entre estrada e areais...
Hoje, as memórias protejo;
Recordar nunca é demais
E são as boas que elejo
Sendo, algumas, bem reais...
Do "choque das gerações"
Me recordo muito bem;
Cá tive as minhas razões
Para achar que a minha mãe
Ficava aquém das pulsões
Que nos levam muito além...
Maria João
Bom dia, Poeta! Aqui vai com o abraçode sempre!
“Escravizados”
ResponderEliminarO preconceito está feito
Não interessa a realidade
Nem interessa ser desfeito
Pois cairíamos na verdade
Na verdade não há proveito
E é mentira a sua metade
Outra metade não aproveito
Despida que é d’intensidade
Todos nus vamos andando
Chafurdando na mentira
Que estes dias padroniza
As grilhetas transportando
Essas já ninguém no-las tira
Já que a mente se escraviza.
EliminarTenho em casa uma vizinha
Que me veio visitar,
Pois não quis ficar sozinha
Quando qu`ria conversar.
Peço desculpa, porém;
Não sabendo o que dizer,
Digo-lhe que fico sem
Conseguir-lhe responder...
Quanto à nova escravatura,
Tem razão... é muito dura,
Tão ou mais que a mais antiga
Porque a nova ditadura,
Nunca pára, nem descura...
E, de qualquer forma, obriga.
Maria João
Bom dia, Poeta! Peço desculpa, mas tenho mesmo uma vizinha amiga cá em casa, motivo pelo qual este sonetilho vai ainda mais "martelado" do que o costume.
Abraço grande!
“Às voltas”
ResponderEliminarA mente manda em mim
E na mente mando eu
Não sabia ser assim
Mas assim aconteceu
E anda num frenesim
Mas sempre desconheceu
Só eu escrevo o boletim
Que a pobre sempre leu
Dessa leitura concluo
Muito pouco aprendeu
Menos ainda aprenderá
Nesta mente eu diluo
As voltas que ela deu
E todas mais que dará.
Prof Eta
ÀS VOLTAS II
EliminarPoeta, irei sair não tarda nada...
Trata-se duma consulta excepcional
Que na outra semana foi marcada,
Uma vez que o valor estava bem mal,
Da espessura do sangue, essa malvada
Que desceu muito abaixo do normal,
Não porque eu tenha sido desleixada,
Mas porque é metabólico... e letal.
Eu, pela mente, pugno a tempo inteiro;
Minha maior riqueza e meu luzeiro,
Vai funcionando, ainda, muito bem...
O "resto" é que anda todo escangalhado...
Por isso é que me sai desafinado
O "tom" deste soneto... e eu, também.
Maria João
Bom dia, Poeta! Desta vez saiu-me a "resposta" em soneto, em vez de sonetilho. Vai desafinado e martelado, mas é o possível, dentro das circunstâncias...
Abraço grande!
ABUTRES
ResponderEliminarSopra forte a ventania
Arde a mata num momento
E a Ministra bem podia
Ter mandado embora o vento.
Salivam, já em orgia,
Saltam de contentamento
Abutres que com mestria
Se aproveitam do tormento.
Já vêem chegar o tempo
De cumprir o ideário
Que correu a contratempo
E, embora tarde demais
Traz fulgor incendiário
E cios eleitorais.
Eduardo
De menina me ensinaram
EliminarNão ser nada linear
O tempo que alguns acharam
Deveria não mudar
Assim que impermeab`lizaram
Grandes áreas, sem olhar
Aos efeitos que causaram,
Tanta vez sem planear...
Sei bem ter muitos defeitos,
Não me conto entre os eleitos,
Mas... ainda sei pensar
E, deduzindo, consigo
Só ver p`rigo onde houver p`rigo,
Tentando não me enganar...
Maria João
Amigo Eduardo, peço desculpa pelo atraso, mas tudo tem andado muito complicado por aqui e, ontem, nem sequer cheguei a abrir o meu correio electrónico.
Dentro desta maré de confusões, ausência total de "inspiração" e extremo cansaço, segue um sonetilho muito, muito "martelado" e nada melódico. Foi o possível e aqui lho deixo com um grande abraço para si e toda a família.
Muito obrigada pelo sonetilho que trouxe até este meu agora tão "estagnado" cantinho virtual.
“Robotizado”
ResponderEliminarA minha ignorância falou
O meu ser está esgotado
Imensas análises efectuou
Sem perceber o resultado
Por isso aquilo que sou
Se encontra desfasado
Daquilo que a correr dou
Ao andar tão atarefado
Esta é a lógica evolução
P’ra onde somos impelidos
Não sendo excepção, aí vou
Podeis ter toda a razão
Mas coração, boca e ouvidos
Não são órgãos dum robot.
Se a sua "ignorância" fala,
EliminarQue fale a minha, também;
Nenhuma delas se instala
Confortavelmente... e bem.
Eu, deambulo na sala,
Olho quanto dela advém,
E, ao ver que nada a cala,
Vou levá-la um pouco além,
Faço um esforço, empurro um pouco,
Deduzo, comparo, evoco
O que, em tempos, aprendi;
Robots artificiais,
Nunca o fomos, nem jamais
O tentei dizer aqui...
Maria João
Bom dia, Poeta!
Peço desculpa pelo meu atraso, mas... estes últimos dias têm sido muito confusos e cansativos. Só hoje reparei que, ontem, nem sequer cheguei a abrir o meu correio electrónico. De qualquer forma, aqui vai o sonetilho possível dentro desta maré de cansaços e confusões.
Abraço grande!