COISAS COMUNS

A Ansiedade - Munch, 1894 (2).jpg


COISAS COMUNS


*


 


As coisas mais comuns, mais pequeninas,


Tornam-se ameaçadoras, gigantescas,


E roem-te por dentro e escavam minas


Cada vez mais profundas, mais dantescas.


*


Pensavas dominá-las? Não dominas;


Tentas matá-las e renascem frescas


Do espectro das vitórias que imaginas,


Mais brutais, mais cruéis e mais grotescas.


*


 


Se eu pudesse escrever como escrevia


Quando olhos e razão me eram senhores,


Delas, decerto, conta nem daria,


*


Mas  não sei se virão dias melhores,


Nem se as coisas comuns do dia-a-dia


Um dia deixarão de ser só dores.


*


 


Maria João Brito de Sousa –  08.39h - 03.93.2020h


*


 


Imagem - "A Ansiedade", Edvard Munch, 1894

Comentários

  1. Com esperança
    faremos pra sempre
    aquela bonança

    Bela noite sossegada e aconchegada
    Beijinhos

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. É com muita, muita esp`rança
      Qu* inda faço esta jornada
      No mundo sempre em mudança
      Sobre o qual fui semeada.
      *

      Obrigada, Anjo! Beijinhos

      Eliminar
  2. Cara Maria João,
    Não é suficiente dizer que este seu soneto é belo, como quase todos os outros poemas que cria. Mais do que belo, este soneto é perturbador, por causa da dor angustiada que veicula. O quadro do pintor norueguês Edvard Munch, que o ilustra, vem adicionar ainda mais dor à dor. A Maria João está a lançar um grito de socorro, mas eu não sei como socorrê-la, nem como consolá-la. Dizer-lhe que estou solidário consigo é pouco, mas que mais posso eu fazer?

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Muito obrigada, caro Fernando.

      Acredite que não é bem um grito de socorro, é mais um desabafo de alma... um daqueles gritos de alma a que até os poetas mais adeptos da racionalidade e da objectividade têm direito quando uma dor e um mal estar físico se eterniza e começa a ultrapassar o suportável.
      Estou com uma grave infecção urinária - agora pielonefrite, ao que tudo indica - há mais de três meses e não estou nada melhor apesar das uroculturas constantes e de tomar atempadamente todos os antibióticos que me são receitados. O meu médico de família tem-me acompanhado criteriosamente, bem como o médico que, no sábado à noite, me observou nas urgências do HSFX e detectou, também, um grave desequilíbrio hidro-electrolítico. É o meu corpo que não está a conseguir reagir ou esta estirpe bacteriana consegue ser ainda mais teimosa do que eu...
      Como calculará, quando a dor física se eterniza, até a alma acaba por adoecer...

      Fico muito grata pela sua solidariedade, mas nada poderá fazer para minimizar as minhas muitas mazelas físicas. Terei de esperar mais uns dois dias para fazer as próximas análises clínicas e ficar a "torcer" para que o resultado dos antibióticos, "in vivo", corresponda mesmo aos resultados "in vitro". que os laboratórios reportam.
      Infelizmente, até hoje, tudo tem vindo a piorar.

      Forte abraço.

      Eliminar
  3. Nem tudo que dói amarra
    Nem tudo que alegra liberta

    Vamos falando, sempre que pudermos
    é pouco?
    quem disse?

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. "Fezes"

      Nem tudo o que dói te mata
      Mas, se infectado há três meses,
      Teu corpo se desacata
      E até a alma, por vezes,
      *
      Se desata e nos retrata
      Como se fôssemos reses
      Que algum carrasco maltrata
      E, à dor, chama-se "fezes"
      *
      Lá pelo nosso Alentejo,
      Como bem sabes, decerto,
      E que eu há muito não vejo;
      *
      Não estou nem longe, nem perto...
      Talvez me volte o desejo
      Mas, hoje, estou no deserto.
      *

      Mª João

      Obrigada, Rogério Abraço!

      Eliminar

Enviar um comentário

Mensagens populares deste blogue

NAS TUAS MÃOS

MULHER

A CONCEPÇÃO DOS ANJOS - Em nove sílabas métricas