SONETO SEM TÍTULO

SONETO SEM TÍTULO.jpg


SONETO SEM TÍTULO


ou


NAUFRAGANDO, SEM MAREAR


*


Por que fomes passaste, companheiro
Feito de pó de estrelas como eu?
Que sede insaciável te bebeu
Sonho, sangue e suor do corpo inteiro?


*



Por que alto mastro ou por que chão rasteiro
Passaste a vida que te anoiteceu
Enquanto um velho sonho te prendeu
À pulsão de ir ao mar sem ter veleiro?


*


Assim te vejo. Assim me aconteceu,
Velho ou menino, casado ou solteiro,
Lembrar-te ou inventar-te enquanto réu


*


De imaginário tribunal costeiro,
Entre barcas com velas azul-céu
E ondas moldadas em rodas de oleiro.


*


 


 


Maria João Brito de Sousa - 26.04.2020 - 14.25h


 


 


Imagem retirada daqui

Comentários

  1. Maria Elvira Carvalho26 de abril de 2020 às 16:16

    Com titulo ou sem ele, está um primor.
    Abraço e bom domingo

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    Respostas
    1. Muito obrigada, Elvira!

      Hoje estou particularmente "pitosga" e custou-me bastante rever este soneto. Acordei com os olhos tão vermelhos, doridos e lacrimejantes que mal via as portas e as paredes... agora, com o anti-histamínico, estou um bocadinho melhor, mas ainda muito insegura do que escrevo.

      Bom Domingo e um forte abraço

      Eliminar
  2. Posso dar-lhe o título
    porque lhe é merecido?

    "Naufragando, sem marear"

    Pode ser?
    Mas olha, podes recusar!

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Pode ser, claro, Rogério!

      Mas olha que o naufrágio, para mim e para o meu avô poeta, tem uma conotação bem diferente da que habitualmente se lhe atribui... para nós é como... como entregar, de vez, o testemunho à poesia depois de a termos servido até ao limite das nossas forças, ou das nossas vidas.

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