A MUSA E EU

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A MUSA E EU
*


Brincando aos Desentendimentos
*


 


Da distraída musa em que me invento


Fiz alter-ego; a culpa é toda dela


Se o vento amaina e não me enfuna a vela,


Se o bote encalha e o verso nasce lento.
*


Dela é o ponto fraco. O que é talento


Também, a bem dizer, lhe cabe a ela...


Se assino no final, quase à cautela,


É sempre com algum constrangimento.
*


Tropeça um verso coxo e sonolento


Na esquina em que uma rima se afivela


Por falhar-lhe uma nota, um mero acento?
*


Está perdida a toada tagarela


De compasso cantante e turbulento...


E onde é que a culpa mora se não nela!?
*


 


Maria João Brito de Sousa - 19.11.2020 - 15.24h


 


 

Comentários

  1. "E onde é que a culpa mora senão nela!?"
    Ah, eu não creio que a culpa é da musa!
    Sendo poetisa, a mesma que se usa
    Para inspirar-se a si, qual se revela.

    A culpa do mau verso, como vela
    Não enfunada por ser obtusa,
    Não é do vento que não se recusa
    A enfuná-la e, é sim, mesmo dela.

    Porém, Maria, musa e poetisa
    É nau, é vela, é vento e deslisa
    Veloz no vão das vagas verdejantes

    Singrando à aragem de uma doce brisa
    Que encanta, enternece e se eterniza
    Fazendo versos como os feitos antes!

    Parabéns, musa e poetisa! És divina ou divinal? Abraço fraterno! Laerte.


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    Respostas
    1. Muito, muito obrigada, Laerte!

      Divina não serei, nem divinal...
      Apenas incansável produtora
      Do soneto, do qual sou servidora
      Devota, fervorosa e tão leal
      *
      Que chego a transformar num ideal
      A sua melodia redentora
      Que nunca pára; toda a hora é hora
      De dar mais voz à voz que é musical.
      *
      Estou doente, porém. De quando em quando
      Vai-se-me a voz sumindo e degradando,
      Perde, o soneto, a força d`harmonia.
      *
      Descanso uns dias, nunca descurando
      O verso que mantenho em lume brando
      Até que em mim renasça a poesia.
      *

      Maria João Brito de Sousa - 20.11.2020 - 12.02

      Fraterno abraço

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    2. “Até que em mim renasça a poesia.”
      A poesia és tu – teu alter ego!
      E tua afirmação eu a renego!
      É improcedente, querida Maria!

      Eu a concebo como uma heresia
      Qual a visão tolhida de um cego,
      Que tateando tudo, pisa em prego
      E amaldiçoa Deus, a sorte e o guia!

      Deus te fez gênio e teu engenho e arte
      É a genialidade que faz parte
      Da parte anímica do teu doce ser!

      E essa grande alma pois reparte
      Conosco a poesia e destarte
      Tua alma e ser és tu, a escrever!

      Abraço fraterno! Laerte.

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    3. Muito grata, Laerte :)

      Sim, serei eu. De corpo e alma. Inteira,
      Mas ironicamente retratada
      Pelo pincel da Musa transformada
      Numa caricatura ou brincadeira.
      *
      Esta musa que afirmo verdadeira
      É coisa que por mim foi inventada
      Pra partilhar a "culpa", se culpada
      Das minhas falhas, da minha canseira.
      *
      Sou eu cantando a minha pequenez,
      Sou eu que aqui respondo aos teus porquês
      Num pequeno soneto de amizade;
      *
      Já tudo o que afirmava se desfez
      Para à realidade dar a vez;
      Sou eu apenas, sou eu de verdade.

      Maria João Brito de Sousa - 20.11.2020 - 14.30h

      Outro fraterno abraço!

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    4. “Sou eu apenas, sou eu de verdade.”
      E quem falou que tu não eras tu?
      Tu és teu ser inteiramente nu
      E a tua alma, em vão, te persuade

      Que tu em ti, teu ser a alma invade
      A te envergar qual vara de bambu
      A arquear-se por falso guru,
      Mas volta à origem para a liberdade!

      És tu, tua verdade e és teu guia
      Para a composição da poesia,
      Em que a meta é revelar o belo.

      Tua alma encontra o meio e a magia
      Para buscar no universo a via
      Que havia eivada no teu ser singelo.

      Beijinhos! Laerte.

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  2. Um alter ego que é uma maravilha e que habita uma poetisa excelente!

    Noite serena. Beijinho

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    Respostas
    1. Muito grata, Ana!

      É sempre com profunda ironia que trato e destrato esta minha capa de cavaleira andante do soneto :)

      Beijinho

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  3. O savoir faire é bom
    melhor ainda no dom, de ser

    Beijinhos e um belo dia de Sol, frio

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  4. É sempre uma surpresa sim, embora saiba que há muito sempre me surpreendes com a beleza dos teus incomparáveis sonetos. Foi uma casualidade boa ter-te conhecido puder ler-te e dizer-te que ninguém te supera nesta tua arte. Bom domingo M João

    abraço-te

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    1. Rogério? Natália?

      Sejas quem fores, muito obrigada, anónimo/a

      Forte abraço

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  5. Reforço o que já comentei noutro espaço...Ou seja culpada ou tenha louros, a verdade é que essa musa tem uma capacidade acima de todas as culpas ou louros.
    Aqui se provou mais uma vez isso mesmo, nesta conversa poética, feita acima.
    Magnifico minha querida.
    Beijinho grande

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    Respostas
    1. Muito obrigada, querida MEA!

      Na verdade, na verdade, devo à Musa mais os louros do que as culpas, rsrsrsrs...

      Beijinho grande!

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