SERVIDO AO POSTIGO - Coroa de Sonetos - Maria João Brito de Sousa e Jay Wallace Mota

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SERVIDO AO POSTIGO


*
Coroa de Sonetos
*


Maria João Brito de Sousa (Oeiras, Portugal) e Jay Wallace Mota (Belém, Brasil)
***
1
*


Trago um soneto servido ao postigo;


Vá prá fila senhor concidadão


Tal qual como se fosse comprar pão


Ou tomar um café... sem um amigo.
*



Adquira um verso ou qualquer outro artigo


Pois passa o meu postigo a ser balcão


De um boteco de esquina sem patrão,


Sem tecto, sem cadeiras, nem abrigo...
*



Vou servir-lho no copo descartável


De um protesto que sei incoerente,


Mas que se vai tornando inevitável
*



Pois já não sei se sei s`inda sou gente


Se apenas sou mais uma variável


De uma curva ascendente ou descendente...
*



Maria João Brito de Sousa - 12.03.2021 - 11.21h
*


(em co-autoria com a minha irreverentíssima Musa)
***


2.
*


De uma curva ascendente ou descendente,


Depende o mundo todo, a cada dia,


Pra ver a evolução da pandemia


E decidir os passos para frente.
*


Mostrados em escala contundente,


Os gráficos revelam uma fria


Maneira de medir essa agonia


Porque só mostram números, não gente!
*


Mas o que posso ver pelo postigo


Pelo qual te proteges num abrigo,


Em um modo de agir tão consciente,
*


Que mesmo eficaz, frente a bruma turva,


Pouco importa a tendência da tal curva,


Tu serás variável dependente!
*


 


Belém, 14 de março de 2020.


Jay Wallace Mota
***


3.
*


"Tu serás variável dependente"


De uma resiliência natural


Hoje bem burilada por um mal


Que caiu sobre ti e toda a gente
*



E hás-de conseguir ser paciente


Pois verás que o convívio virtual


Embora bem mais pobre que o real,


É também fuga ao medo deprimente.
*



Se ao postigo me serves os teus versos


Nestes tempos tão duros, tão adversos,


Espero que, um dia, mos sirvas em mão...
*



Terá de haver um fim para a clausura


Ou morreremos todos desta cura


Porque também nos mata a solidão.
*


 


Maria João Brito de Sousa - 15.03.2021 - 11.32h
***


4.
*


Porque também nos mata a solidão,


Ao nos trancar qual fôssemos cativos


Que, a falta de melhor definição,


Nos torna verdadeiros mortos-vivos!
*


 


Não que me contraponha à solução,


Que nos impõe limites restritivos,


Os quais aceito, até sem coerção,


Pois vejo os resultados positivos.
*


Porém, o que de fato já me assusta


É perceber a forma, sempre injusta,


Que não distingue os fortes dos mais fracos;
*



Quando se impõe iguais obrigações


Aos poucos que se isolam em mansões


E a tantos que se juntam em barracos!
*


 


Belém, 15 de março de 2021.


Jay Wallace Mota.
***


5.
*


"E a tantos que se juntam em barracos"


Insalubres, tão pobres que um só pão


Se divide por cinco, à refeição


Que foi servida em louça feita em cacos.
*



Dormem no chão embrulhados em sacos,


Que muitos del`s não têm nem colchão


E, por mais que procurem solução,


Não conseguem tapar tantos buracos.
*



Do outro lado, em casas luxuosas,


Parece essa clausura um mar de rosas


Entre edredões de penas e o regalo
*



Das refeições servidas em bandejas;


Lagosta, caviar e, enfim, cerejas


Pr` acompanhar um Porto*, dos "de estalo"!**
*


 


Maria João Brito de Sousa - 15.03.2021 - 17.31h
*


* Vinho do Porto


** De estalo - expressão muito usada em Portugal para adjectivar os vinhos mais requintados.
***


6.
*


“P’ra acompanhar um Porto, dos de estalo”,


Para valorizar a refeição,


Que come sem sequer dar atenção


Aos números que assiste sem abalo!
*


 


Ignora que chegou-se ao gargalo


De um sistema em completa lotação,


Gerido por um louco fanfarrão,


Com quem ele costuma ir no embalo;
*


 


Bradando sempre contra o isolamento,


Pois só pensa em seu próprio rendimento;


Crítica os exageros sem motivos!
*


 


E enquanto toma um vinho envelhecido,


Vê seu trabalhador, todo espremido,


Exposto nos transportes coletivos!
*


 


Belém, 15 de março de 2021.


Jay Wallace Mota.
***


7.
*


"Exposto nos transportes colectivos"


Como se fosse carne pra canhão*,


Não gente com família e coração


E que é suporte dos que inda estão vivos.
*



Esses que afinal são os mais activos


Dos alicerces vivos da nação,


Vão sendo destratados sem razão


E sem medicação nem lenitivos
*



Vão tombando às dezenas, aos milhares,


Nas valas que os civis e militares


Vão abrindo e fechando sem parar.
*



Será que são deveras descartáveis


As vidas desses pobres miseráveis


Que sufocam assim, sem pinga de ar?
*


 


Maria João Brito de Sousa - 15.03.2021- 20.03h
*


*Carne pra canhão - Expressão muito usada na tropa para designar os soldados rasos que eram enviados para as frentes de batalha para morrer e que abrange também os mais pobres, os considerados "dispensáveis à sociedade".


***


8.
*


 


“Que sufocam assim, sem pinga de ar”


E passam a sentir dentro do peito


O tempo que se torna mais estreito


Que o tempo que dispõe pra procurar
*


 


Sem nada e sem ninguém com quem contar


Procuram encontrar de qualquer jeito


Nos hospitais lotados algum leito


Até morrer nas filas sem achar!
*


 


E justo quando já se tem vacina


O moribundo chora, se lastima


E luta pra ficar firme na raia...
*


 


Mas sem quem possa ouvir seu choro rouco,


Ele vai se entregando pouco a pouco,


C’a sensação de quem morre na praia!
*


 


Belém, 15 de março de 2021.(18:37h).


Jay Wallace Mota.
***


9.
*


"C`a sensação de quem morre na praia"


Junto com a revolta que brotava


Do peito imóvel que antes ofegava


Como potro selvagem preso à baia.
*


 


Na contra-mão da vida, a morte ensaia


Uma dança letal que ninguém trava;


Já não respira alguém que respirava


E a espécie humana torna-se a cobaia
*


 


Da procura imp`riosa duma cura


Que ninguém sabe se será segura,


Ou se pode trazer um novo p`rigo
*



E enquanto o "jogo" assim se desenrola,


Eu, que não passo de uma velha tola,


Componho uns versos pra venda ao postigo...
*


 


Maria João Brito de Sousa - 15.03.2021 - 22.39h


***
10.
*


“Componho uns versos pra venda ao postigo...”


É sempre o que me dizes quando assunto,


Ou se indiscretamente te pergunto


Por que te isolas dentro deste abrigo!
*


Parece até que vives de castigo!


Ou será que não queres ninguém junto?


Que possa intrometer-se no conjunto;


Aquele que a tal musa faz contigo!
*


Não penso mexer nessa sintonia,


Mas quando terminar a pandemia,


E todos nos livrarmos desse medo,
*


Prometo, e vou cumprir tudo que digo,


Depois de escancarar esse postigo,


Vou ver, além da porta, o teu segredo!
*


 


Belém, 15 de março de 2021.


Jay Wallace Mota.
***


11.
*


"Vou ver, além da porta, o teu segredo"


Que não é mais do que uma minudência


Pr`aliviar o Estado de Emergência


Que fechara o comércio. E, que degredo!,
*



Só ao postigo é que, de manhã cedo,


Algumas lojas servem, com prudência,


Aquilo que esta nossa impaciência


Exigia normal, esquecendo o medo...
*



Esta medida, muito discutida,


Foi depois pelos "media" difundida...


Julguei que se soubesse, por aí,
*



Que os postigos, aqui em Portugal,


São os reis deste novo não-normal...


(sirvo, ao postigo, aquilo que escrevi)
*


 


Maria João Brito de Sousa - 16.03.2021 - 10.59h


***


12.
*


 


“(sirvo, ao postigo, aquilo que escrevi)”


O que parece ser o não normal


Neste momento triste em Portugal,


Eu te asseguro ser normal aqui!
*


 


Não só pelas razões que tens aí,


Em decorrência desse tal lockdown!


Além deste, há por cá um outro mal


Que, de banal, eu quase me esqueci!
*


 


Aqui, nossos receios, sobressaltos


Decorrem da frequência dos assaltos


Seja à porta de casa ou da oficina!
*


 


O que vai nos minando a resistência


Porque quando a doença é violência,


Nem se tem a esperança da vacina!
*


 


Mosqueiro, 16 de março de 2021, (14:38h).


Jay Wallace Mota
***


13.
*


"Nem se tem a esperança da vacina"


Na qual não tenho assim tanta confiança;


Este vírus sofreu tanta mudança


Que ressurgiu mais forte em cada esquina
*



Porém, antes ter esperança pequenina


Do que, de todo em todo, não ter esp`rança


Que eu bem me lembro da cruel matança


Da Pneumónica, a trágica assassina...
*



No caso da violência, Portugal,


É bem mais moderado. Essoutro mal


Não nos aflige tanto quanto a vós.
*


 


Neste "jardim à beira-mar plantado"


Toda a gente prefere ouvir um fado


A cometer um qualquer crime atroz.*
*


 


Maria João Brito de Sousa - 16.03.2021 - 18.30h


***


14.
*


 


“A cometer um qualquer crime atroz”


E assim levar alguém à fria cova,


Prefiro reviver a Bossa Nova,


Ouvindo João Gilberto a baixa voz!
*


 


C’alguém com quem pudesse estar a sós!


E viver meu momento Casanova,


Cantando meu amor; loas em trova!


Sem me importar com contras e nem prós!
*


 


Porém, devido à louca pandemia,


Não posso ter nenhuma companhia,


Quer seja como amante ou como amigo!


 


Porquanto, sem querer ser insensato,


Privado de estreitar qualquer contato,


“Trago um soneto servido ao postigo.”
*


 


Belém, 16 de março de 2021.


Jay Wallace Mota.
***


 


 


 


 


 

Comentários

  1. Maria João e jay w.mota

    temos aqui vários sonetos todos bons e muito actuais.

    parabéns aos dois pela partilha.

    beijinhos
    Piedade Sol
    http://olharemtonsdemaresia.blogspot.com/

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    Respostas
    1. Pela parte que me cabe, muito obrigada, Piedade.

      Isto é uma Coroa de Sonetos; uma estrutura composta por catorze sonetos que vão encadeando uns nos outros e remata, sempre com o primeiro verso do primeiro soneto.
      Cada soneto, por seu lado, deve responder ao anterior, estabelecendo-se, assim, um diálogo, uma conversa em soneto, neste caso, soneto em verso decassilábico. Fico muito contente por esta nossa conversa/abraço transatlântico lhe ter agradado.

      Beijinho

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  2. Brancas nuvens negras18 de março de 2021 às 18:52

    Estes poemas refletem a tragédia, as particularidades da crise, já existente, mas aprofundada com a pandemia.
    Estes poemas serão história daqui a uns tempos, uma peça para a compreensão do fenómeno.
    Um abraço
    L

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    Respostas
    1. Pela parte que me cabe nesta longa conversa em soneto, agradeço-lhe sinceramente, L.

      Forte abraço

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  3. Isto é que é poetar
    e as coisas do mundo
    sem parar
    altos e baixos por segundo
    que de assim escrever
    abre-se o saco sem fundo
    até aos parabéns que deixo de assim ser
    sermos deste nosso viver

    Bom dia com alegria
    bom fim de Semana pra vocês
    que o frio
    deixa-nos sem pio
    Beijinhos de aqui MJ

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    Respostas
    1. Pela parte que me cabe, agradeço-te e fico muito feliz por ver que este nosso trabalho te entusiasmou, Anjo

      Que tenhas um excelente fim-de-semana, apesar de todas as condicionantes.

      Beijinhos

      Eliminar
  4. Parabéns a ambos os poetas, por este partilhar de talento e desalento, sobre um mal que atravessa continentes e oceanos.
    Um despertar de emoções que me comoveu. Obrigada a ambos !

    Beijinhos

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