MOVER MONTANHAS - Coroa de Sonetos - Mª João B. Sousa e Ró Mar

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MOVER MONTANHAS
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Coroa de Sonetos
*


Mª João Brito de Sousa e Ró Mar
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I
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Não te procurarei até que venhas


E que tragas contigo o que levaste


De mim, que te dei mais do que sonhaste,


De mim, que hoje abandonas e desdenhas
*



Como se as tuas glosas fossem estranhas


Aos versos que comigo partilhaste...


Voa, então, até onde te encantaste


Ainda que voando me detenhas
*



Mas se em verdade, Musa, me olvidaste,


Enquanto noutras vozes te entretenhas


Ache eu a voz da voz que em mim calaste
*



E ainda que me perca se me ganhas,


É no poema que hoje me negaste


Que encontro a força pra mover montanhas.
*



Mª João Brito de Sousa


19.01.2022 - 13.45h


***
II
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"Que encontro a força pra mover montanhas"
E destrono a Musa feiticeira,
Que de repente em manhas e artimanhas
Dá volta ao miolo e traz canseira!
*


Ah, como me apraz saber-me capaz
De improvisar sem ter fada madrinha
P'ra o toque final, tão bem que isso faz!
Não sendo ingrata, também sou estrelinha!
*


Venha o pôr do Sol, que eu desfilo ao lado!
Haja mar altaneiro e mais natureza
Para me consolar no poema amado!
*


Se tiveres de novo a delicadeza
De sobrevoar o meu céu estrelado
Serás o luar dos meus dias de tristeza.
*


© Ró Mar | 20/01/ 2022


***


III
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"Serás o luar dos meus dias de tristeza"


E o sol das minhas noites de alegria,


Mas fada não serás onde a magia


Seja maior que o pão que levo à mesa...
*



Se sou plebeia, serás tu princesa


De um reino que nem sei se principia


Ou finda assim que cessa a melodia


A que vou estando noite e dia presa?
*



Existirás pr`além da teoria


E serás, realmente, a chama acesa


Duma candeia que só me alumia
*



Quando a palavra voa e me não pesa?


Musa, não sei que chama ardente ou fria


Soube acender em mim tanta incerteza...
*



Mª João Brito de Sousa



19.01.2022 - 23.30h
***


IV
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"Soube acender em mim tanta incerteza..."
Por minha culpa, entreguei o coração
Num dia núveo p'ra sentir firmeza
Na minh' alma ao compor uma canção;
*


Mas, dias não são dias, hoje sei bem
O quanto tu me amaste na surdina;
Se me foges é porque queres-me bem
E eu sempre preciso da lamparina...
*


Ah, quantas as noites o Morfeu não vem!
E, o que me têm acesa noite adentro
És mesmo tu: ó Musa de todos sem...
*


Querubina da colina, epicentro
Da retina, qual o horizonte advém
Liberto, peculiar do circuncentro!
*


© Ró Mar | 20/01/ 2022


***


V
*
"Liberto, peculiar do circuncentro(!)",


Polígono imperfeito, deus de barro,


Espiral de fumo ou cinza de cigarro


E tudo o mais que exista cá por dentro
*



Quando de ti me afasto e desconcentro


E nunca sei se agarro e quando agarro...


Desse abraço improvável e bizarro


Há-de nascer a luz de um céu cruento
*



Montanhas trazes dentro do teu tarro


E algumas são de ferro e de cimento


Ainda fresco ou já mostrando o sarro
*



Do tempo em imparável movimento


Como se o ir e vir de um autocarro


Que não tem um motor nem traz assento
*



Mª João Brito de Sousa


20.01.2021 - 11.00h
***


VI
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"Que não tem um motor nem traz assento"
E este carcomido, desamparado,
Onde a poeira aninha no argumento
Ressaltando o tempo pré-encerrado!
*


Por mais que abra janelas p'ra arejar
A maleita está aqui de tal forma,
Que não resta dúvida a despistar
Nem exclamações, tornando-se norma.
*


O vai-e-vem de engrimância na escalada
Ressalta, saltam os carretos, teia
Premiando a permuta prá 'pousada'.
*


Imagético, contudo recheia
De esperança o olhar da voz calada
E os dedos tremulando a ideia!
*


© Ró Mar | 20/01/ 2022
***


VII
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"E os dedos tremulando a ideia",


Movem montanhas, plantam mil florestas


E, solidários, limam as arestas


Das estrelas-do-mar na maré cheia
*



Ninguém os pára, ninguém os refreia;


Nem os arqueiros com as suas bestas


Podem abrir mais que pequenas frestas


No muro de vontade que os rodeia
*


E se cansados fazem suas sestas


No sal do mar, em castelos de areia,


Jamais as horas lhes serão funestas
*



Que à noite hão-de ter astros para a ceia


Degustados ao som de mil orquestras


Conduzidas por uma só sereia.
*



Mª João Brito de Sousa


20.01.2022 - 15.40h
***


VIII
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"Conduzidas por uma só sereia"
É mote de génio, que iça esta barca
Cambaleante entre o mar e a candeia
Na mística e aventurada matriarca;
*


Protetora das ninfas Oceânides
Criadora de floreado marítimo,
Que ascende às excelsas efemérides,
Ah, Tétis, Musa do vento Oceânico!
*


Move-se a Terra e ascende-se aos Céus
Neste belo pedaço mitológico
Onde se faz viagens pelos ilhéus;
*


Metáforas de mérito cronológico
Filiadas na Lumena dos coruchéus
Onde nasce o poder morfológico.
*


© Ró Mar | 20/01/2022
***


IX
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"Onde nasce o poder morfológico"


E a lógica se despe de sentido,


Surge um ardor imenso e desmedido


Como se o surrealmente fisiológico
*



Nascesse, por acaso, num zoológico


E fosse um estranho sem nunca o ter sido...


Ah, quem o não teria enaltecido


Se fosse belo e sábio ou antológico?
*



Vogasse a Barca num mar já rendido


Ao vírus mais letal, mais patológico


E fosse o tripulante dissolvido
*



Num punhado de plâncton ideológico...


Seja este poema aceite ou proibido,


Nada do que foi escrito é escatológico!
*


 


Mª João Brito de Sousa


20.01.2022 - 17.20h
***


X
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"Nada do que foi escrito é escatológico"
São meros laivos de raízes profundas
Ao vocábulo impugnando o lógico
Da maré, que se adivinha nas fundas!
*


Assim, esvaziado o pote mágico
Calcorreado vai o pensamento
Ao leme dum desnorte nostálgico
Implorando pelo sentimento.
*


Desvanece o modo de frasear
Porque escasseia a leda inspiração,
Que só dotados sabem desenrolar.
*


Cabe-me mover montanhas p'ra achar
O dom que outrora abria o coração
Num leque emotivo de fascinar!
*


Ró Mar | 20/01/2022
***


XI
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"Num leque emotivo de fascinar(!)"


Lançou ao vento um punho de sementes;


De pé ficou, cerrados os seus dentes


Que mais não tinham para mastigar
*



Já que as sementes rodavam no ar


Todas seguindo rotas bem diferentes...


Que faria sem ter ingredientes


Pra pôr na mesa o pão do seu jantar?
*



Por que razão tivera tais repentes


E perdera as sementes sem pensar?


O vento não devolve em pratos quentes
*



Palavras acabadas de idear,


Mas pode um poema ser manjar de gentes,


Tentear-lhes a fome... e até sobrar?
*



Mª João Brito de Sousa


20.01.2022 - 19.15h
***


XII
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"Tentear-lhes a fome... e até sobrar"
Para procriar fiapos noutra sequência
Expetante que venha a melhorar
O cardápio com dose de paciência.
*


E, por este labirinto sequiosa
Duma boa prosa escarafuncho
Até aos confins, nada receosa,
Embora se denote o caruncho.
*


Tenha eu ainda alguns dentes molares
Até ao dia de partir... hei-de sorrir,
Dar dentadas nas côdeas e acenares
*


Ao universo o uno verso de devir
Num cear coerente de afagares
Saciar famintos de estro... coexistir...
*


© Ró Mar | 20/01/2022
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XIII
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"Saciar famintos de estro... coexistir..."


Ser verbo e carne e nervo e até ser pão


Que desse verbo nasce humano e são


Enquanto a mão da Musa o permitir
*



E com dentes, ou não, saber sorrir,


Explorar a vida até à exaustão,


Escrever com toda a força da paixão,


Ser-se um vulcão que aprende a não explodir...
*



Movemos a montanha, mão com mão,


E abrimos as janelas do devir


Como quem abre uma outra dimensão
*



E se essa dimensão nos não servir,


Depressa mais janelas se abrirão


Sobre as montanhas que houver que subir!
*



Mª João Brito de Sousa


20.01.2022 - 22.05h
***


XIV
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"Sobre as montanhas que houver que subir"


Se o fôlego falhar, basta a vontade


Que ela é quem nos traz a felicidade


E este pequeno orgulho de existir
*



Que vai nascendo em quem não desistir


De ir dando quanto pode em qualidade,


Pois só assim se alcança a igualdade


E a alegria imensa de a fruir...
*



Não desistas agora! Mais um passo


E um outro ainda. Nunca te detenhas


Que o teu maior troféu é o cansaço;
*



Se lhe resistes, moverás montanhas...


Mas nunca esperes pelo meu abraço,


"Não te procurarei até que venhas"!
*


 


Mª João Brito de Sousa


20.01.2022 - 22.45h
***


 


 


 


 


 


 


 


 


 


 


 


 


 

Comentários

  1. Obrigada pela parte que me cabe, Anjo

    Esta festa durou o dia inteiro e ainda vais muito a tempo de ir buscar o teu cavaquinho para nos acompanhar

    Beijinhos com os olhos ainda em chamas

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  2. Fico contente por saber que a fisioterapia está a resultar em pleno, Lis :)

    Se a malfadada pandemia deixar, vem visitar este nosso pequenino "jardim à beira mar plantado". Vale a pena!

    Quanto à Coroa, agradeço-te pela parte que me cabe. Foi um desafio e tanto, sim, dado o estado lastimável em que tenho os olhos... e mais alguns outros órgãos. Ontem, em desespero de causa, cheguei a colocar gelo sobre as pálpebras, de tal maneira os olhos me ardiam...

    Beijinho, Lis

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  3. Muito grata, pelo que à minha meia-coroa respeita, Piedade.

    Saúde (muita), paz e inspiração

    Beijinhos

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