ABRAÇO - Custódio Montes e Mª João Brito de Sousa

3.
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“Te cubro inteiro quando estou feliz”
Mas na tristeza, claro, também quero…
Ouvi a entrevista e reitero
A beleza de ser um aprendiz
*
Se é tarde muito tarde não se diz
Que mesmo nesta idade ainda espero
Que a musa nos afaste o desespero
E nos dê outro rumo e directriz
*
Viver, viver, viver com alegria
Ouvir um canto mestre e a magia
De circundar o mundo sem problema
*
Andar pelo mar dentro, amar o Tejo
Ter em cada palavra um desejo
Girarmos sempre envoltos no poema
*
Custódio Montes
11.2.2022
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4.
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"Girarmos sempre envoltos no poema",
Irmos aonde o sonho nos levar,
Subirmos às alturas e pousar
Com elegância e sem que a voz nos trema
*
Na segurança de um qualquer fonema
Que surja sem sequer nos avisar;
Nada me seduz mais que improvisar,
Ainda que enfrentado algum dilema...
*
Abracemos a Vida enquanto há vida
Pulsando em nós enquanto a nós rendida;
Nenhum de nós pediu a eternidade,
*
Nenhum de nós quer mais do que poder
Abraçar cada verso que nascer
Deste exercício da nossa amizade.
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Mª João Brito de Sousa
11.02.2022 - 14.40h
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5.
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“Deste exercício da nossa amizade”
Há-de resplandecer a nova aurora
Quebrando a escuridão que noite fora
Encobre mais e mais a claridade
*
Que o verso é só amor, é irmandade
É lágrima que sai e que se chora
Mas sem mágoa…alegria protectora
Carinhosa lembrança na saudade
*
Limites não os há e continua
A noite, o dia, o sol e mesmo a lua
E esta discussão tão criativa
*
Recuso-me a viver sem a palavra
Sem ela tudo morre tudo acaba
E no poema a gente encontra a vida
*
Custódio Montes
11.2.2022
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6.
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"E no poema a gente encontra a vida"
Que o mundo tantas vezes nos recusa
E quando a dor emerge, há sempre a Musa
Que mitigando a dor nos cura a ferida
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E ela virá, ousada e decidida,
Pra retocar a estrofe, se confusa,
Ou pra tomar as rédeas, que ela abusa
E às vezes faz do verbo uma corrida...
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Sem a palavra também eu não sei
Se sobreviveria ao que enfrentei;
Nela pus toda a força que me resta
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E sem abraços destes... que tristeza!,
Bem mais me pesaria esta pobreza
Se nos abraços fosse mais canhestra.
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Mª João Brito de Sousa
11.02.2022 - 17.10h
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7.
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“Se nos abraços fosse mais canhestra”
Mas não é, porque os gestos nada são
Se neles não couber a emoção
Que se define ao vir e nos sequestra
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Não basta a conferência e a palestra
Faz falta revelar-se o coração
E termos no amigo um irmão
E ver em si, amiga, uma mestra
*
Por isso, dei-lhe o abraço merecido
E ao tê-lo aceite fico agradecido
Que até me respondeu mesmo doente
*
Paremos por aqui esta coroa
Para voltar a ela estando boa
E regresse depressa e mais valente
*
Custódio Montes
11.2.2022
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8.
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"E regress(o) depressa e mais valente" :)
Que menos treme agora a minha mão
E já bate a compasso o coração
Que há pouco latejava loucamente
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Temi que rebentasse de repente
De espanto, de surpresa e comoção
Por saber que a ansiada operação
Se irá realizar tão brevemente...
*
Agora, entre contente e receosa,
Conquanto a Musa penda para a prosa,
Devolvo à Poesia o nosso abraço
*
Ela virá depois, conheço-a bem,
Atrás do ritmo que o poema tem;
Nunca resiste a Musa ao seu compasso!
*
Mª João Brito de Sousa
11.02.2022 - 21.10h
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9.
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“Nunca resiste a musa ao seu compasso”
Ainda bem. Então, continuamos
Que enquanto nesta azáfama andamos
Damos continuidade ao nosso abraço
*
Enchemos a coroa espaço a espaço
Florimos o caminho e atapetamos
E quando para ela nós olhamos
Sentimo-nos alegres, sem cansaço
*
E tem-se mesmo até a ilusão
Que a doença se foi e o corpo são
Renova como o faz a primavera
*
E volta a alegria e até se pensa
Que se foi a moléstia e a doença
E volta a gente a ser como antes era
*
Custódio Montes
11.2.2022
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10.
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"E volta a gente ser como antes era"
Pois se em verdade uma criança houver
Em cada um de nós, pode até ser
Que esteja a Primavera à nossa espera
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Onde o verso renasce e prolifera
E ao verbo aponta o rumo que entender...
Se assim for por instantes, quero crer
Ser gentil, ser graciosa e ser sincera
*
A criança que nunca envelheceu
Que mora em nós, que (somos?) tu e eu
Neste abraço e nos tantos que já demos
*
Mas se um de nós afirma que a perdeu
Algures, num tempo em que a desconheceu,
Não a perdeu um só, que os dois perdemos.
*
Mª João Brito de Sousa
12.02.2022 - 00.20h
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11.
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“Não a perdeu um só, que os dois perdemos”
Isso só em hipótese poética
Que lendo-se o que diz, a sinalética
Indica que um e outro a mantemos
*
Velhos são os trapos bem sabemos
E seguindo o discurso, a dialética
Entendo que nem mesmo em fonética
A criança que fomos já não temos
*
Quem anda por jardins a colher flores
Tem dentro da sua alma só amores
E é com eles que pula e que avança
*
O inverno há-de vir mas não chegou
E não chega a quem tanto sempre amou
Que não mais deixará de ser criança
*
Custódio Montes
12.2.2022
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12.
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"Que não mais deixará de ser criança"
Quem de velho e menino cultivar
O melhor que um e outro possam dar
De alegria, de espanto e de confiança
*
A que se vem juntar serena a esp`rança
(a última a morrer, a primeira a lutar),
Que viver, meu amigo, é conquistar
Dentro de nós o que a vontade alcança
*
E se a vontade pede, de repente,
Humano abraço que aproxime a gente
Dessoutra gente que abraçar não sabe
*
Faça-se-lhe a vontade que a Amizade
É transversal a toda a humanidade
E não há monstro que com ela acabe!
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Mª João Brito de Sousa
12.02.2022 - 11.50h
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13.
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“E não há monstro que com ela acabe”
Sim, era o que faltava que acabasse
Porque quando a amizade terminasse
Como seria o mundo ? Não se sabe
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Havia em toda a parte o seu entrave
A raiva, como o ódio, era impasse
Sem respeito algum por cada classe
Com as portas trancadas e sem chave
*
Mas ao falar sentimos a amizade
Como há dias senti, com claridade,
Nessa entrevista dada eu me enlaço
*
Gostei bem do que é e da razão
De ter o Tejo e o mar no coração
Por isso, lhe renovo o meu abraço
*
Custódio Montes
12.2.2022
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14.
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"Por isso lhe renovo o meu abraço"
Que recebo e, sentindo-me abraçada,
Um outro lhe devolvo alvoroçada;
Mais forte é a amizade que o cansaço
*
E vence esta amizade um longo espaço
Transformando um ecrã numa jangada,
Numa canoa ou numa barca alada,
Consoante a destreza do meu traço...
*
Ao longe, junto à praia, uma gaivota
Parece ter escolhido a mesma rota,
Talvez nesse teu cais venha a pousar...
*
Perco-lhe o rasto, fica-me o talvez,
E em cada Abraço/Fado português
"O Tejo passa em frente para o mar"...
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Mª João Brito de Sousa
12.02.2022 - 16.10h
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Amizade é tudo isso. Até na lágrima teimosa que cai pela cara abaixo.
ResponderEliminarPois é, querida Ligeirinha... a amizade está presente nos bons e nos maus momentos E é algo que eu valorizo muitíssimo!
EliminarBjo gde!
Parabéns aos grandes Poetas que acabei de ler , deixo um abraço. Saúde amiga.
ResponderEliminarObrigada pelas tuas palavras, querida Natália!
EliminarBoa semana, saúde e um bjo gde
Natália, querida amiga, desculpa mas só agora te descobri no meio da parafernália de notificações e mensagens da minha caixa de correio...
EliminarObrigada pela parte que me cabe :)
Um beijo
Lindíssimo de ler.
ResponderEliminar.
Cumprimentos … domingo feliz.
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Muito grata, Rik@rdo!
EliminarBoa semana!
Boa Semana pra vocês
ResponderEliminare haja coração e esperança para mais um belo dia
com alegria e amor.
Beijinhos
Boa semana para ti também, Anjo!
EliminarA partir de amanhã e durante toda a semana estarei pelo hospital, em exames clínicos, exames e consultas do pré-operatório e cirurgia. Não sei quando, nem se conseguirei vir trabalhar nos blogs.
Torce por mim
Beijinhos
Giram envoltos nas palavras, com abraços à mistura, e uma grande amizade e um enorme amor pela poesia e pela vida. Gostei de ler os vossos sonetos. Parabéns!
ResponderEliminarUma boa semana com muita saúde.
Um beijo.
Pela parte que me cabe, muito obrigada, Graça!
EliminarBoa semana e muita saúde!
Um beijo
Vi o vídeo e gostei muito. Leio os poemas em diálogo poético e também aprecio muito.
ResponderEliminarDigno de Academia.
Beijo
Só agora descubro esta sua apreciação que muito agradeço, Ana! :)
EliminarUm beijo