FILHO DAS TEMPESTADES - Mª João Brito de Sousa e Custódio Montes
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FILHO DAS TEMPESTADES
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Coroa de Sonetos
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Mª João Brito de Sousa e Custódio Montes
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Andou perdido por remotas plagas
Sem bússola nem vela. Era a Paixão
Quem o mantinha à tona sobre as vagas
Do mar da sua imensa solidão
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Cerrava as mãos. Fechadas como garras
As levava do leme ao coração
Quando da barca soltava as amarras
Aos primeiros sinais de um furacão
*
E assim se fazia à tempestade
Como à bonança os outros se faziam
Mal o vento amainava o seu furor
*
Pra si, porém, o vento é liberdade
E os raios são pendões que o desafiam
A vencê-los em espanto e garra e cor.
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Mª João Brito de Sousa
21.02.2023 - 10.00h
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2.
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"A vencê-los em espanto e garra e cor"
E o vento bem soprava ao desafio
Mas ele como as mães tinha valor
E como seu filhote, força e brio
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Por sobre as ondas viu-se o seu fulgor
Andava contra o vento em corrupio
Com força mais depressa que um vapor
Singrando sem ter medo ou arrepio
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Elas, as tempestades, com orgulho
Paravam para verem o seu filho
Correr desde o Alentejo até ao mar
*
Saltavam sempre a dar-lhe o seu arrulho
Via-se nos seus olhos tanto brilho
Que, destras, o aplaudiam sem parar
*
Custódio Montes
22.2.2023
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3.
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"Que, destras, o aplaudiam sem parar"
Sorrindo com sorrisos maternais
Que até um furacão aprende a amar
E talvez este amasse até demais
*
Ou vendo o filho quase a soçobrar
Soprasse até deixá-lo junto ao cais...
O que sabemos nós do que é ser-se ar
E ter-se um filho vivo entre os mortais?
*
Quis este filho dos ventos em fúria
Domar o mar imenso e encapelado
Num simples lugre/escuna. Assim o fez,
*
E eu sei que não o fez por mera incúria:
Fê-lo como quem canta ou toca um fado,
Fê-lo por ser poeta e português!
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Mª João Brito de Sousa
22.02.2023 - 17.40h
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4.
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"Fê-lo por ser poeta e português"
Cantando a terra e o mar com o desejo
De mostrar seu jardim, seu Alentejo
Na caravela ao leme uma outra vez
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Singrou o mundo inteiro lés a lés
Saltando da estepe ao rio Tejo
Vogando sem cessar com o almejo
De brilhar na palavra como o fez
*
E venceu a tormenta. A tempestade
Orgulhou-se do filho e da paixão
Com que ele também dobrou o bojador
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E rompeu pelo ar com tal vaidade
Que até lhe fez saltar o coração
Redobrando por ele o seu amor
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Custódio Montes
23.2.2023
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5.
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"Redobrando por ele o seu amor"
Mais um vez se fez ao mar imenso
E não cabendo nele amor maior
Sentiu-se a flutuar, no ar suspenso
*
Ainda que sem asas de condor
Sentiu ser mais veloz que vento intenso:
- Ó vento, meu irmão de amor e dor,
Será que sou mais leve do que penso?
*
Olhou o mar que manso lhe sorria,
Depois o horizonte e finalmente
Olhou a sua barca ora vazia
*
Qual berço balouçando suavemente
E, de repente, só a barca via,
Só a barca existia realmente.
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Mª João
23.02.2023- 17.30h
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6.
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"Só a barca existia realmente"
Mas ele mesmo assim continuou nela
Andando pelo mar e sempre em frente
Na barca a que chamou a barca bela
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A tempestade olhou e de repente
Sentiu imenso orgulho e os olhos dela
Molhados se encontravam e, contente,
Acalmou e não houve mais procela
*
O filho navegava plo mar fora
Descrevendo a mãe, a tempestade,
Com encómios e vénia filial
*
Louvando-à por ser mãe tão protectora
Singrando a mostrar felicidade
Sempre assim, sem parar, até final
*
Custódio Montes
24.2.2023
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7.
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"Mesmo assim, sem parar, até final"
Se fez no grande mar tal calmaria
Que, do vento, não houve nem sinal
Enquanto a Tempestade assim dizia:
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"Que bom foi ter-te tido, ó ideal
Filho da minha imensa fantasia,
E descobrir-te assim, vivo e real,
Bem mais real do que eu te sonharia!
*
Foi a barca o teu berço, filho meu,
Que docemente embalo até que a lua
Venha roubar à noite o negro véu
*
Com que te quer cobrir essa alma nua...
Mas se essa força é minha, o verbo é teu,
E teu é cada sonho que eu construa! "
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Mª João Brito de Sousa
24.02. 2023 - 11.00h
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8.
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"E teu é cada sonho que eu construa"
Com calma ou com força destemida
Porque sondas o sol sondas a lua
E a tua barca vai de proa erguida
*
E tens uma mestria que é só tua
Com poesia bela e escolhida
Espalhada ao sol vista na rua
E que engrandece tanto a tua vida
*
Meu filho, és o máximo, eu quero
Levar-te nos meus braços sobre o mar
E abraçar-te mais e sempre mais
*
Na calmaria vem porque te espero
Para seres só meu e te beijar
E livrar-te dos fortes vendavais
*
Custódio Montes
24.2.2023
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9.
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"E livrar-te dos fortes vendavais"
Se os fortes vendavais te apoquentarem
Porém sendo esses ventos os teus pais
Pedir-lhes-ei tão só pra se afastarem
*
Até que a tua barca aporte ao cais
E os teus humanos pés o chão pisarem...
Isto te dou, que não sei dar-te mais
E tão só se esses ventos concordarem...
*
Tempestuosa sou por natureza
E tu, aventureiro e sonhador,
Trazes nos olhos teus a chama acesa
*
De quem é santo sendo pecador,
Tomo, por isso, em mãos tua defesa
Pra te livrar de um mal muito maior...
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Mª João Brito de Sousa
24.02.2023 - 16.00h
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10.
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"Pra te livrar dum mal muito maior"
Vou descansar enquanto tu versejas
Para ser o poema bem melhor
Ficando encantador como desejas
*
Não fales em ciúmes ou invejas
Anda em voos altos à condor
Alarga as tuas asas pra que sejas
Um mestre em poesia, um senhor
*
Porque te quero ao pé….sou tua mãe…
Vou amainar o vento sobre o mar
Podes andar na barca aqui e além
*
Sem haver tempestade a incomodar
Escreverás poemas mais que cem
Que te eternizarão a relembrar
*
Custódio Montes
24.2.2023
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11.
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"Que te eternizarão a relembrar"...
E, no entanto, muito poucos são
Os que me quererão acompanhar
Montando um raio em vez de um alazão
*
Como se um demiurgo a atravessar
O mar imenso ao som de um só trovão...
Vem, tempestade, e deixa-te abraçar
Ou pelo menos dá-me a tua mão
*
Vem, deixa que te leve aonde eu queira
E ainda que depois nos separemos
Quero-te aqui e agora à minha beira
*
Não viste ainda que tudo o que temos
É esta fantasia derradeira
E, no mundo real, um bote a remos?
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Mª João Brito de Sousa
24.02.2023 - 17.45h
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12.
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"E no mundo real um bote a remos"
Anda com lentidão e devagar
Com ele nunca mais o mar vencemos
E ocupamos as mãos só a remar
*
No bote tão só água é o que nós vemos
E o poeta quer mais quer ver, voar
Ver céus, ver luzes, deuses e até demos
Para um belo poema enramalhar
*
Por isso, tempestade, deixa o filho
Dá-lhe asas, dá-lhe um barco com motor
Para que possa andar sem empecilho
*
Circundar todo o mar ao seu redor
Para maior encanto e maior brilho
Enfeitando o poema com primor
*
Custódio Montes
24.2.2023
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14.
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"Ri-se até do seu próprio desespero"
Ao ver virada a barca sobre o mar
E a mãe dizer-lhe ao longe: filho eu quero
Ficar ao pé de ti e ajudar
*
Mas ele disse-lhe não em tom severo
A minha rota sigo-a sem parar
Vencer as altas vagas eu espero
Tal como um campeão sempre a ganhar
*
O poeta lá foi e sem demora
Andou com todo o brio sobre as vagas
Já não se vendo ao longe ao ir-se embora
*
Enfrentou inimigos com adagas
Destemido seguiu pelo mar fora
“Andou perdido por remotas plagas”
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Custódio Montes
25.2.2023
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Que fôlego. Vê-se que a Musa voltou e trouxe reforços.
ResponderEliminarUm abraço.
L
Ainda não voltou em força, está um tanto bloqueada pelo extremo cansaço intelectual que estou a tentar combater, L.
EliminarConfesso que quando vi o segundo soneto do poeta Custódio Montes, duvidei muito de poder vir a conseguir continuar esta coroa...
Obrigada e um forte abraço!
Belo domingo com alegria e sorriso MJ, beijinhos
ResponderEliminarUm Domingo sorridente também para ti, !
EliminarBeijinhos
Mais uma coroa de sonetos muito bem conseguida. Gostei muito! Infelizmente com o meu novo horário de trabalho mal consigo vir cá, mas sempre que posso cá volto a matar saudades da tua escrita! Espero que a tua saúde te vá dando mais dias tranquilos. Beijinhos e um bom domingo 🌼🌷
ResponderEliminarBom dia, Sandra! :)
EliminarTenho pena de que o teu novo horário de trabalho seja tão... tão severo, mas o facto de teres um trabalhinho remunerado já é muito bom nos tempos que correm.
Da minha saúde e dos malabarismos que tenho de fazer para me ir mantendo viva - consultas e exames sem fim mais o dobro da medicação que tomava o ano passado - nem te falo para não estar aqui a desfiar um rosário de tristezas.
Como hoje terei de cozinhar, não sei se vou conseguir fazer-te uma visita...
Quanto à Coroa de Sonetos, obrigada pela parte que me cabe! :)
Feliz Domingo e um grande beijinho!