CAOS (COM)SENTIDO
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CAOS (COM)SENTIDO
*
Dentro de mim vivem ainda os sábios
Da minha infância agora tão distante
E os mil e não sei quantos alfarrábios
Que se perfilam numa imensa estante
*
Encimada por velhos astrolábios,
Um busto de Petrarca, outro de Dante
E uma africana sem olhos nem lábios
A amamentar um mal esboçado infante
*
Povoa-me este caos, um caos amigo
Que mais ninguém irá testemunhar
E que abrigo no corpo em que me abrigo
*
Tudo fazendo para achar lugar
Para qualquer recém-lembrado artigo
Que me tenha esquecido de guardar.
*
Mª João Brito de Sousa
19.04.2023 - 20.50h
***
Gostei de ler este caos poético e com sentido.
ResponderEliminarJá não gostei tanto do “caos matemático” na casa, onde permaneci durante a minha estadia na cidade invicta.
Abraço, desta vez, das margens do rio Reno, onde o caos não existe.
Lamento que tenha sido tão caoticamente acolhida na casa em que permaneceu durante a sua estadia na cidade invicta, Teresa.
EliminarEste meu caos é consentido e, para mim, faz todo o sentido :) Obrigada e um forte abraço daqui, do meu Tejo quase mar
Que ingrata que sou!!
EliminarTive uma estadia maravilhosa na casa da minha família, sendo o caos minimal.
Eu é que sou muitíssimo pedante.
Boa noite 😴
Nesse caso fico muito contente por saber que teve uma maravilhosa estadia :)
EliminarBom descanso, Teresa
A foto de hoje prendeu a minha atenção, recordou-me o meu inicio escolar em casa de uma professora à volta de uma mesa redonda com outros meninos.
ResponderEliminarUm abraço.
L
Ah, L., esta fotografia foi tirada pelo meu pai na copa da casa de Algés, onde se celebrou o "baptismo" de uma das minhas bonecas... sei que tinha outra - que não encontro - onde se viam bem a boneca e a Aurora, uma das nossas mais queridas empregadas, fantasiada de padre para dar mais realismo à "cerimónia" :)
EliminarAqui, as duas pessoas crescidas são a minha avó paterna e a minha mãe, ambas madrinhas de baptismo da minha Miquiqui
Quanto ao soneto, esse é bem mais literal do que possa parecer....
Forte abraço!
Olá Maria João.
ResponderEliminarBelo postal de família a ilustrar o soneto que nos recebe, este partilhado "Povoa-me este caos, um caos amigo
Que mais ninguém irá testemunhar
E que abrigo no corpo em que me abrigo." no quotidiano do dia a dia.
Por curiosidade, puseram-me em pequenina um nome carinhoso com que a minha mãe, agora com 90 anos, ainda me trata, de Kiki, provavelmente um "batismo" pelos mesmos motivos desta boneca Miquiqui.
Abraço forte.🐦
Então, bom dia, Kiki :)
EliminarFui uma criança muito amada, mas nunca fui mimada... mimada no sentido de exigir isto ou aquilo e fazer birras para conseguir fosse o que fosse, mas havia uma coisa de que não abdicava e ainda hoje não abdico: aos meus brinquedos e aos animais de lá de casa, era eu quem lhes dava o nome. Só isso, porque os nome eram uma coisa importantíssima para mim e ocorriam-me sempre com a rapidez de um relâmpago, como acontece com os versos iniciais dos meus poemas ... e com os seguintes também, quando a Musa está comigo e ambas saltamos para a garupa do cavalo de fogo.
Mas, a propósito do teu delicioso "petit nom", também eu tive um, dado pelo meu avô poeta: Chininho. O avô era nortenho e, por lá, dava-se o nome de chininhos aos porquinhos da Índia. Segundo ele, de quem eu herdei tantas características, quando nasci parecia um porquinho da índia. Assim fiquei a chamar-me Chininho para o resto da sua vida. Só por ele, que o meu pai e a minha mãe chamavam-me João, a minha avó chamava-me Jean-Jean e a minha Aurorinha chamava-me "minha santa"
Abraço forte, pequena Cotovia
Olá Maria João.
EliminarBom dia!
Que bom ler sobre a tua infância e deliciosa a origem do Chininho :) e do Jean-Jean.
A origem do petit nom foi uma precipitada escolha de nome, pois se fosse rapaz seria Francisco, do Francisquinho ao Kiki foi um ápice. ;)
Mas não gostava de bonecas, nem de tachos senão para fazer música com eles, ou antes barulho, que a falta de musicalidade vem de longe. ;) e nunca fiz uma birra, ao que consta ;)
Abraço forte, Maria João.🐦
Então estamos empatadas a zero birras, pequena Cotovia
EliminarEu gostava de tudo, bonecas, panelinhas, carrinhos da Corgi Toys, lápis de carvão e canetas de tinta-da-China, patins, bicicletas, enormes compêndios sobre todas as áreas da Medicina, incluindo as teses de licenciatura dos alunos do meu bisavô que era médico e cientista, vasos de barro que me permitissem desenhar cenas de trabalhadores no campo ou em torno de uma mesa discutindo política - essas cenas eram-me familiares lá por casa e eu entendia que os trabalhadores da terra e das fábricas podiam e deviam fazê-lo também, sem correrem o risco de serem aprisionados pela asquerosa PIDE, que eu conhecia muito bem porque andavam sempre a rondar a nossa casa e, volta e meia, faziam incursões por ela adentro e viravam do avesso o escritório do avô. Abominava aquelas criaturas perversas e cinzentistas.
Curiosamente, tanto me agradava uma boneca quanto um enorme catrapázio sobre biologia ou sobre os primeiros passos no tratamento do Kala-Azar (Leishmaniose) em Portugal, datado de 1907. A propósito, vivo numa zona endémica do mosquito que serve de intermediário ao parasita, o Leishmania Donovani... Mas, adiante, aprender era, para mim, tão tentador quanto brincar e creio que nunca fiz grande distinção entre uma e outra coisa.
O que me chateava supinamente era ter de decorar coisas que, no meu entender, não serviam para nada, ainda que fizessem parte dos conteúdos programáticos do ensino primário nos tempos do decrépito estado novo :)
Ai, ia embalada e quase me esquecia de te dizer que se fosse rapaz me chamaria Jean Pierre. Claro que seria João Pedro, mas nunca ninguém falou em nenhum João Pedro, a minha avó francesa dizia-me que eu me chamaria Jean Pierre, se tivesse nascido com um cromossoma x e outro y, em vez dos dois X que fizeram de mim uma fêmea :)
Forte abraço
Outro abraço
"Povoa esse caos, um caos amigo"
ResponderEliminarIsso tem a ver... comigo?
Teu pai era um fotografo mais hábil que o meu...
Abraço longo e largo!
O meu pai era um grande fotógrafo amador, biólogo amador, geólogo amador, numismata, filatelista e um leitor compulsivo além de ter um traço tão belo quanto o de Ingres, Rogério :)
EliminarSe te sentes confortável nesse caos amigo que abrigo dentro de mim, fica à vontade, mas olha que quase todos os que me habitam já deixaram de viver há muito tempo embora possa garantir-te que os vejo/sinto sempre felizes. Creio que a minha memória selectiva tratou de apagar todos os sofrimentos que tiveram e só lhes deixou os momentos de alegria e satisfação pessoal.
Abraço longo e largo, meu amigo!
Adorei a foto, mas ainda mais, as palavras!
ResponderEliminarBeijinhos
PS. Espero que esteja tudo "a andar" por aí
Olá, Ana!
EliminarPor aqui só há duas formas de locomoção, rsrsrs : Coxear, arrastando-me à velocidade de uma lesma em estado de coma, ou voar na garupa de um desenfreado cavalo de fogo...
A primeira é a minha realidade física e a segunda é a minha realidade poética nos dias de Musa
A primeira é dolorosa e frustrante, mas a segunda compensa tudo isso e ainda sobra
Suponho que os 90 euros do Apoio aos Mais Vulneráveis já estejam na minha recém-nascida conta bancária, mas o meu amigo está hoje a tratar de outros assuntos e só amanhã poderá vir buscar o cartão para o activar e fazer a primeira consulta de saldo. Sozinha, já não chego à caixa Multibanco, nem consigo ficar de pé a clicar em códigos e opções.
Beijinhos