MEMÓRIAS DE UM NÁUFRAGO PERFEITO- Reedição

O NÁUFRAGO PERFEITO (1).jpeg


MEMÓRIAS
DE
UM NÁUFRAGO PERFEITO
*


 


Do vento que sopra, da proa que afunda,


Do mastro partido, do leme encravado,


Dos longos gemidos do velho costado,


Da barca que oscila, bojuda, rotunda,
*


 


Na crista da onda, no mar em que abunda


Escolho traiçoeiro que espreita, aguçado,


Escondido na espuma, submerso, acoitado


Em zona que a Barca julgava profunda...
*


 


De tudo me lembro, se bem que já esteja,


No tempo passado, submerso também


E seja esta imagem longínqua o que eu veja
*


 


Da Barca que afunda nos sonhos de alguém


Apenas a sombra que passa e festeja


Não ser verdadeira, nem ser de ninguém!
*


 


 


Maria João Brito de Sousa


11.01.2017 - 10.52h
***


Avô na casa de Algés.gif


 


Ao meu avô poeta, António de Sousa


*


(Soneto em verso hendecassilábico)

Comentários

  1. Brancas nuvens negras30 de maio de 2023 às 12:10

    Essas são as referências que marcam.
    Um abraço.
    L

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  2. Quem sai aos seus não degenera!
    Um abraço, Maria

    ResponderEliminar
  3. Olá Mª. João!
    Que maravilha de partilha este soneto em verso hendecassilábico! Que bom já ter aprendido umas coisitas sobre sonetos para o reconhecer, assim como reconhecer em ti a sua tão importante influência, mas tens o teu cunho próprio o que também só consigo perceber por reconhecer nos teus sonetos a tua mão, a tua forma própria, tão pessoal e soberba. Mesmo nas coroas, é interessante ver como os sonetos se entrelaçam mas mantém a voz individual nas inúmeras nuances a características próprias de cada um dos poetas.
    Gostei muito de conhecer este soneto do teu avô, o grande Poeta Antonio de Sousa, uma partilha muito bonita.
    É verdade que a Natália Correia escreveu sobre o teu avô, "A ilha de San Nunca: atlantismo e insularidade na poesia de António de Sousa: antologia"? Fiquei imensamente curiosa...
    Refere no índice vários títulos que deduzi sejam obras poéticas de António de Sousa: O Encantado, A ilha de Sam Nunca, Fado do Navegante, A Morte do Encantado, Linha de Terra?
    Aparece terminologia associada ao mar, navegante, naufrágio...
    Este mar da Poesia corre-te nas veias isso é verdade!
    Obrigada por a partilhares!
    Um grande Xi, Mª. João!🐦

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    Respostas
    1. Boa noite, pequena Cotovia! :)

      Desculpa-me a hora tardia, mas hoje foi dia do programa de rádio do Horizontes da Poesia e eu nunca falho... bem já falhei um ou dois, mas foi por puro engano no dia da semana.

      Li atentamente tudo o que escreveste mas não posso deixar de te agradecer profundamente por teres reparado em pormenores tão importantes como o facto de cada soneto ter um ADN próprio, coincidente com aquele que o escreve e cria Acreditas que quando começo a ler um soneto ao acaso, sei sempre quem o escreveu? Bom, se for de um dos vários sonetistas com quem trabalho, claro... ou se for do meu avô, ou de Camões, ou de Bocage, ou de Florbela, ou de Antero, ou do Ary, ou do recentemente falecido Joaquim Pessoa...

      Mas espera que eu a esta hora já estou meia a dormir... Reparei agora que tu pensas que este soneto é do meu avô, mas não é! É muito meu e foi dedicado ao meu avô

      Sim, A ILHA DE SAM NUNCA contém uma pequena biografia do meu avô, dividida em duas partes: uma mais generalista e outra a que a Natália chamou de Perfil Surrealista do Poeta. Depois tem uma resenha de poemas dele, escolhidos por ela. Não focou muito a importância que o meu avô teve enquanto Secretário Geral da Associação Cristã da Mocidade, ou Triângulo Vermelho, cargo que ele ocupou quando era ainda muito jovem e o que o levou a percorrer este mundo ... e o outro, como diria Saramago, que o avô passava a vida de cá para lá em conferências, palestras e outros eventos. Era uma espécie de Web Summit sem Web :) O ENCANTADO foi o primeiro livro dele, ainda com o pseudónimo de António de Portucale. Teria uns 18 anitos, quando o viu publicado. LINHA DE TERRA é outro livro dele, um dos meus favoritos... os outros são títulos de poemas. Conheces o SAUDADES DE COIMBRA muito cantado pelo Zeca? Embora poucos saibam, a letra é do meu avô e posso prová-lo porque o meu avô era advogado e tem toda a sua obra mais do que legalizada, além de registada na SPA. https://youtu.be/WRzuA-K6KuQ . E este, que passa por ser do Menano, foi escrito para a minha jovem avó quando ele estava na Dinamarca https://youtu.be/QHTOQNbdgfg . Mas o Menano e ele eram amicíssimos, eles que se entendam lá onde estiverem...
      O Fado do Navegante também foi transformado em canção mais recentemente, mas a minha desgraçada memória não me mostra o nome do compositor e cantor. Indesculpável, eu sei! Creio que o encontras no Spotify.. esquece, não o consigo encontrar e não é aquele que eu pensava.
      Ele é filho de um dos mais ilustres cientistas açorianos de sempre e eu cresci de olhos postos no final do Tejo, estas temáticas andam presas a nós com a maior das naturalidades, é quase uma relação simbiótica :)

      Um grande xi

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    2. Desculpa! O ENCANTADO foi o segundo livro dele! O primeiro foi CRUZEIRO DE OPALAS!!!

      Eliminar
    3. Olá Mª. João!
      Verdade, pensei que o soneto era do teu avô o Poeta António de Sousa!
      Pois suponho que isso seja uma coisa boa? Quer dizer que incorporaste o seu ADN neste soneto. Achei-o diferente, acho que no ritmo, mas que digo? Não ligues, sou marinheira de beira de água, praticamente podia sair do barquito em que navego e ficava com a água pelos tornozelos neste mar de Poesia
      Mas que nas tuas Coroas se sente as diferenças nos sonetos é uma realidade, e quando se conhece os diferentes autores é reconhecível o seu cunho pessoal, a sua assinatura, por exemplo, no último terceto é curioso ver as diversas opções, muito entusiasmante!
      O dia de hoje vai ser uma azáfama para ti com a preparação para amanhã, desejos de que corra tudo bem na cirurgia dentária desta 5a feira, Mª. João, que possas ter uma recuperação rápida.
      Um grande, forte e grato Xi para ti! Força, bon courage Mª. João!

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    4. uma obra vasta para conhecer melhor sem dúvida!
      Outro forte Xi Mª. João!🐦

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    5. Se o fiz, fi-lo inconscientemente, já que as barcas, os naufrágios e os navegantes são também temáticas minhas... Mas há uma coisa que nos distingue: O meu avô nunca escreveu um único soneto em verso hendecassilábico e este é-o. Por outro lado, sempre que lhe dedico um poema, procuro utilizar a linguagem que ele utilizaria. Até penso como sei que ele pensaria, mas disso só agora me estou a dar conta...

      A diferença de ritmo existe, é enorme e está no hendecassilábico com tónicas na quinta e na décima primeira, mas como já "disse" o avô nunca utilizou este tipo de verso: todos os sonetos dele são em decassílabo, heroico, na sua maioria.

      Ai, ai, venho para casa toda cosidinha, sim. Espero é que não rebente nenhum ponto como na primeira cirurgia, nem infecte como na última.

      Um grande xi

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  4. Teresa Palmira Hoffbauer31 de maio de 2023 às 00:03

    Uma louvável homenagem ao avô POETA, que nasceu na “minha cidade”, embora eu tenha nascido, hoje, na terra dos bons presuntos e das Caves da Raposeira.

    Abraço forte e solidário, desejando-lhe que a operação corra muitíssimo bem, na próxima quinta-feira 🍀

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    Respostas
    1. Muito obrigada, Teresa!

      Já ando mortinha de medo porque a última redundou numa tremenda infecção... o meu sistema imunitário não é de fiar ;)

      Continuação de muito boas férias!

      Forte abraço!

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  5. Bonita e merecida homenagem ao Vovô
    Belo dia em harmonia MJ, beijinhos

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    Respostas
    1. Desculpa, , só agora te vi...

      Obrigada!

      Um belo dia também para ti, que eu estou tremeliques por causa da cirurgia dentária...

      Beijinhos

      Eliminar

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