"LE MIROIR"

le miroir - georges rouault.jpg


Tela de Georges Rouault


1871/1958
*


"LE MIROIR"
*



O Tempo pintou-me o cabelo de branco,


No meu rosto franco, ravinas cavou


E, por onde vou, o meu passo vai manco,


Cada solavanco vos diz quem eu sou...
*



Sentei-me. Bastou uma tábua de banco


Que alanca o que alanco pois não se quebrou


E tudo mudou ao mirar-me de flanco:


Quase tive um tranco, o meu Ego murchou,
*



Tremeu, gaguejou e... num pulo sumiu,


Pisgou-se, fugiu! Para onde, não sei,


Mas considerei o pavor que sentiu
*



Ao ver o que viu quando pra ele olhei...


A mim me culpei porque, cheia de frio,


Em vez de no rio... num "miroir" me mirei!
*


 



Mª João Brito de Sousa


25.12.2023 - 15.00h
***

Comentários

  1. Não pode avaliar só o exterior, tem de avaliar o muito valor do interior.
    Feliz noite, Maria João!
    Um abraço

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    1. Olá, Cheia!
      Não estou nada descontente com o meu interior, não senhor... Já com o exterior... Mas há muita ironia neste soneto, não se preocupe que embora gostasse muito de estar funcional ao nível da marcha e de ainda ter os meus saudosos dentes, sentir-me-ia muito pior se a consciência me pesasse.
      Feliz dia, que eu acabo de chegar do hospital e estou mortinha de sono e de cansaço.

      Um abraço

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  2. Vai desculpar-me, Mª João, mas mal comecei a ler desatei a rir e ri do princípio ao fim!
    Devia haver uma Bem-Aventurança para as pessoas que têm a grandeza de espírito por saber rir de si mesmas, agravando até, aquilo que consideram ser defeito seu.
    Mas se não há, passa a haver:

    Bem-Aventurados os que de si riem
    com a modéstia dos grandes
    pois deles será a perfeição eterna.

    Um beijinho com ternura!

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    1. Eheheheheh... está desculpada, Janita! Confesso que também o escrevi a rir do princípio ao fim, eheheheheh... e isso é uma coisa muito boa, quase uma Bem-Aventurança, porque nos mantém longe das depressões num tempo em que mais de meio mundo anda seriamente deprimido.
      O MR era igualzinho a mim, neste rir de si mesmo, dos seus actos falhados e das muitas palavras sem sentido que ambos trocávamos enquanto conversávamos sobre o que quer que fosse. Nunca fomos outra coisa senão grandes Amigos, mas muitas vezes tive a sensação de que ele era mesmo meu irmão. Fez por mim o que muitos irmãos nunca fariam e eu não pude retribuir senão com uma enorme amizade e gratidão. Mas que trocámos muitas saudáveis gargalhadas juntos, essa é a mais pura das verdades. Ah, ele também morria de amores pelos meus sonetos: tanto ou tão pouco os admirava que me vinha pedir licença para os usar nas suas aulas de língua materna, ou para os ler nas reuniões, eventos ou palestras a que era chamado, por razões de trabalho ou outras. Assim, a sorrir com o seu ar travesso de menino de sessenta anos, o guardarei na minha memória enquanto por cá andar.

      Um beijinho com ternura

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  3. Trés beau regarde
    Bom e belo dia em harmonia, e boas rotinas também MJ
    Beijinhos

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    1. Obrigada, !

      Hoje foram rotinas hospitalares... Fico sempre toda moída e cheia de sono... Provavelmente não escreverei nada hoje... Ooops, nem amanhã, nem depois...
      Olha, esta semana está complicadita para mim. Posso sempre fazer reedições, mas duvido muito que com este cansaço todo a Musa se abeire de mim...

      Beijinhos

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  4. Olá querida Mª João, um saldo em alta, que este soneto está belíssimo, ontem a, o tom, e a rima interna do primeiro ao último verso, que fecha com chave de ouro!
    Soberbo!
    Bela Musa que te sorria, e de mãos dadas contigo, bela Poetisa nos presenteia com tão excelente partilha!
    Muito muito obrigada, uma inspiração!
    Adorei, claro o tom de humor, tão ao meu gosto
    Um bom dia para ti, querida Mª. João.
    Xi forte.

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    1. Pois claro, pequena Cotovia, eu escrevi-o a rir à gargalhada, eheheheh...

      Se fosse um soneto de coda, ainda arranjava maneira de sentir um arrePIO e deixar o "miroir" cair nalgum barrANCO

      Mas olha que, agora, estou a fazer um esforço tão grande para não adormecer, que duvido muito que a Musa me faça uma visita. Estes dias vão ser cansativos e agora tenho mais uma dor - esta é de origem venosa, que eu conheço bem os diferentes tipos de dor - na mão direita, que só se faz sentir agudamente em algumas posições e que ainda me vai obrigar a fazer mais uma eco, não vá o diabo tecê-las, disse a médica. As tromboses venosas nas mãos e braços são raras, mas não uma impossibilidade.

      Ai que soninho, caramba! Tenho montanhas e montanhas de coisas por fazer nesta casa e o desbragado do Morfeu não me deixa fazer nada...

      Um grande xi

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    2. Dias compridos querida Mª João, com tantas coisas que ficam por fazer, ainda assim, dentro do possível brindas-nos com tão inspirada Poesia. Obrigada.
      Votos de que tudo esteja bem contigo, fazes bem em prevenir e fazer exames, muitas vezes a diferença reside no diagnóstico "precoce", por isso todo o cuidado é válido.
      Uma noite tranquila, querida Mª João.
      Um enorme Xi.

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    3. Bom dia, pequena Cotovia.

      Desculpa-me mas ainda não tive... Ia escrever tempo, mas o que na verdade aconteceu é que, até este momento, me esqueci de acabar de escandir o teu soneto.

      Não estou muito bem disposta, mas vou ver se consigo acabar de o fazer quando terminar de agradecer aos amigos que ontem vieram até aqui ou até ao Montanhas.

      Obrigada por me fazeres saber que gostaste deste soneto bem humorado.

      Um grande xi

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    4. Dias compridos, pouca disponibilidade física e, agora, até psicológica...
      Não sou eu quem quer fazer tantos exames: são os médicos das várias especialidades que mos vão requisitando. Alguns, garanto-te que não quereria, de todo, fazê-los para não obrigar o Rogério perder tanto tempo em idas e vindas em vez de se poder dedicar inteiramente aos mil e um trabalhos que tem em mãos...É que as minhas multi-morbilidades obrigam a que seja seguida em cinco ou seis especialidades diferentes e estou cansada de tanta viagem para os hospitais.

      Que tenhas um dia feliz! Um grande xi

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    5. Nada a desculpar querida Mª João, eu ando numa roda viva e isso faz com que fique assoberbada e acabe por me esquecer de várias coisas, ter de regressar ao mesmo sítio mais de uma vez. Sem problema. Vou agora para uma reunião às 14.30. Até já, mais logo volto ao teu poetaporkedeusker e ao montanhas que vi que publicaste lá também!
      Beijinhos, querida Mª. João
      Enorme, gigante Xi !

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    6. Acredito que sim, que não te seja agradável, tantas especialidades, tantas consultas e exames, mas, o que tem de ser tem mesmo de ser, em função dessas mesmas comorbilidades que mencionas, há que redobrar os cuidados.
      Sabes que a Margaret Atwood tem um problema de coração, foi operada recentemente, e publicou um texto sobre isso que acho te vai agradar. Vou procurar o link e já te envio, antes mesmo de ir voando para a reunião que tenho as 14.30.
      Até já, querida Mª João.
      Mais um Xi!

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    7. Aqui vai o link do texto da Margaret Atwood, (referido no comentar anterior) de uma pequena carta escrita ao.... coração da Margaret.
      Espero que consigas abrir o link, e que faça sentido para ti esta minha partilha.
      Mais um Xi querida Mª João, beijinhos!

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    8. Olha as horas! Eu acabo de me injecatr na barriga com a Teriparatida e sei que deixei passar as 14 horas, hora em que o telemóvel faz soas o alarme para eu não falhar...

      Outro xi

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    9. Reeditei... infelizmente estou sem ânimo para escrever um poema novo em folha...

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    10. https://margaretatwood.substack.com/p/my-heart-sasses-back?publication_id=1195719&utm_campaign=email-post-title&r=2mh33b

      Aquí, desculpa querida Mª João, vês sou um desastre quando estou neste registo, as distrações apanham-me em todos os minutos, mil desculpas.

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    11. Adorei a carta escrita ao coração de Margaret! Uma verdadeira delícia!
      Obrigada!

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    12. Ainda bem que gostaste, subscrevi os artigos da Margaret, recebo alguns deles no e-mail (na versão gratuita não tenho acesso a todos), e quando recebi esta carta lembrei-me logo de ti e de teu coração.
      No que enviou a seguir a este fiquei preocupada pois não sei se a escritora (também poeta) irá continuar a sua permanência naquela plataforma pois, e com muita razão, está contra a existência de grupos nazis, com milhares de subscritores, onde, e volto a concordar, a presença da suástica e discurso de ódio, seriam mais do que suficientes para a exclusão desses grupos. Ao permitirem a permanência destes radicais, contra todas as leis de serviço da própria plataforma, e ao terem subscritores que pagam, estão a receber dinheiro para continuar a promover o discurso de ódio e morte, beneficiando da possibilidade a quem ali abre conta do "patrocínio" dos seus subscritores, o que é assustador por um lado e ilegal por outro. Muitos autores de renome já abandonaram a tal plataforma, e mais se seguirão como forma de protesto e pressão. Entre eles, provavelmente, a Margaret Atwood.
      Desculpa o longo comentário, mas por outro lado, acho que se enquadra na necessidade de todos sermos activos tomando posições claras sobre o que se passa no mundo.

      Mil Xi, um dia bom para ti, que sei vai ser atribulado, como habitual. Eu por mim estou a aguardar pelo final do dia com bastante ansiedade para poder gozar o fim-de-semana!

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    13. Concordo com todos os que abandonaram uma plataforma onde, segundo me dizes, proliferam os nazis e as suas tão famigeradas suásticas. Tentar dialogar com esse tipo de gente é perfeitamente inútil. É mil vezes preferível que se retirem para um espaço mais livre e deixem os nazis a escrever para o vazio... Assim pudesse ser também na vida real.

      Estou mesmo aflita com o tempo e a casa continua de pantanas, ai Creio que vou dormir o fim de semana inteiro, tal é a soneira com que ando...

      Mil xi

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  5. Esta é uma época em que somos levados a olhar para nós próprios e para o ano que passou. A Maria João com um humor muito criativo deu nota disso. Achei muita graça. Nem por coincidência, também eu publiquei um texto de autocrítica.
    Um abraço e não ligue aos espelhos, eles não têm alma.
    L

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    1. Obrigada, L.
      Vou tentar chegar ainda hoje ao seu poema, mas Morfeu está a vencer-me no braço-de-ferro que me impôs assim que cheguei do hospital com o Rogério. E ele está a ganhar, vou ter de desligar e ir descansar umas horitas... Mas eu hei-de arranjar maneira de o ler hoje.

      Forte abraço!

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  6. "...Ao ver o que viu quando pra ele olhei..."
    É saudável rirmo-nos de nós mesmos!
    Excelente Novo Ano!

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    1. Obrigada, Francisco!

      Tem toda a razão, faz-nos um bem imenso sabermos rir-nos de nós mesmos

      Espero ainda visitá-lo antes da chegada de 2024, mas... Feliz Novo Ano!

      Um abraço

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  7. É um privilégio essa capacidade de olharmos para nós próprios com semelhante humor.
    Abraço, saúde e continuação de boas festas.

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    1. Obrigada, querida amiga.

      Mais mazela, menos mazela, cá vou indo, apesar destes dias que nos separam do novo ano serem mais movimentados do que eu gostaria que fossem e de a minha mão direita estar meio avariada. Espero que se desavarie depressa que eu dependo muito da sua capacidade de trabalho e sou um desastre a usar a mão esquerda.

      Abraço, muita saúde e a continuação de Boas Festas

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