INTEMPORALIDADE - Mª João Brito de Sousa e Lourdes Mourinho Henriques

Pétala Luís Rodrigues.jpg


Aguarela de Luís Rodrigues


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INTEMPORALIDADE
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Coroa de Sonetos
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Mª João Brito de Sousa e Lourdes Mourinho Henriques


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1.
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Aqui não há passado nem futuro;


O presente é fieira que não finda


E não tem de passar por nenhum furo


Embora a agulha disso não prescinda
*



E disto estou seguro, tão seguro


Quanto de não haver ninguém que cinda


A ponta que se afasta e que conjuro


Como se o tarde cedo fosse ainda...
*



Onde não há princípio nem há fim


Sou tudo e não sou nada. Este ínterim


É somente ilusão. Paradoxal?
*



Talvez sim, talvez não, talvez talvez,


Já não quero saber de outros porquês;


Quem mede esta meada intemporal?
*


 


Mª João Brito de Sousa


01.11.2021 - 10.30h
***


2.
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“Quem mede esta meada intemporal?”


Alguém cujo engenho e muita arte


Pintando numa tela sem igual,


Expõe a sua alma em toda a parte.
*


Alguém que seus poemas nos of’rece


Cada dia que passa, que beleza,


Qual deles o melhor, e com certeza


Que sua inspiração jamais falece!
*


A Musa está presente a toda a hora,


Mas insistindo sempre, vai lutando


Contrariando a falta da visão!
*


Eis Morfeu a chegar, e a João


Pára a poesia e lá vai andando


P’rós braços dos lençóis, dormir agora!
*


Lourdes Mourinho Henriques


02.11.2021
***



3.
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"Prós braços dos lençóis dormir agora (!)"


Como se lá por fora a noite escura


Tentasse convencer-me de que a hora


Se tornou, de repente, mais madura...
*


Irei, sim, quando a Lua tentadora


Vier falar-me da sua loucura


E, aproveitando o Sol ter-se ido embora,


Cerrar-me os olhos com toda a candura...
*



Mas na verdade, minha boa amiga,


Quando esta minha Musa me castiga


E se recusa à nossa interacção
*



Fico de mãos atadas. Pouco crio


Quando, não vendo a Musa, olho o vazio


Criado pela sua rebelião
***



Mª João Brito de Sousa


02.11.2021 - 15.40h


4.
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“Criado pela sua rebelião”


A todos os que escrevem, acontece,


Quantas vezes de nós ela se esquece


E nos deixa grande desilusão!


 


E é enorme então a frustração


Se ao pegar na caneta p’ra ‘screver


A Musa isso não deixa acontecer


Ficando assim inerte a nossa mão!


 


Mas eis que, de repente, ela aparece


P’ra não pensarmos que de nós se esquece


E vai-nos conduzindo p’la poesia…


 


Diz-nos o que ‘screver em cada verso


E o nosso pensamento, então imerso,


Vai criando poemas… que alegria!
*


Lourdes Mourinho Henriques


02.11.2021
***


5.
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"Vai criando poemas... que alegria(!)"


E que bela razão pra se estar vivo


É transformar-se o verbo em sinfonia


Sem da monotonia estar cativo!
*



Começa a despontar a melodia;


Se o soneto tem tempo(s) que eu cultivo


Eu sinto-me em completa sinergia


Com estas pautas das quais me não privo.
*



Mais pulsam as palavras apressadas,


Mais correm minhas mãos (dantes aladas...)


Em direcção ao fecho, à conclusão
*



E este meu remendado e velho peito,


Não sabendo correr fica sem jeito


A ver se lhe não escapa o coração...
*



Mª João Brito de Sousa


02.11.2021 - 23.10h
***


6.
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“A ver se lhe não escapa o coração”


Que a mente está bem viva e criadora


E vai escrevendo pelo dia fora


O que na alma vai, com emoção.
*


Lembranças de quando era criança,


Memórias do tempo da ilusão,


Guardadas na gaveta da esperança


Que hoje são alento do coração!
*


Mas vai sempre insistindo, não desiste,


Lindos poemas vai escrevendo… e insiste


Em manter a mente sempre ocupada.
*


Por mais que isso lhe custe, persistente,


Os versos vão surgindo de repente


Deixando a nossa mente extasiada!
*


Lourdes Mourinho Henriques


03.11.2021
***


7.
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"Deixando a nossa mente extasiada",


Tão extasiada quanto o Tempo fica


Quando anda com a Musa de mão dada,


Sem saber bem o que isso significa
*



Pois toda a musa é criatura alada


Que tanto o tempo pára quanto estica,


Que tudo pode sem esforçar-se nada,


Que ninguém mede e ninguém quantifica...
*



Toma cuidado, ó Tempo intemporal;


Não te quer bem, a Musa, nem quer mal,


Mas é mais livre do que jamais foste
*



E se não tens cuidado e te distrais


Ela puxa por ti, pede-te mais;


Tempo, não há quem contra a Musa arroste!
*



Maria João Brito de Sousa - 04.11.2021 - 08.30h
***
8.
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“Tempo, não há quem uma Musa arroste”


Pois ela sem esperarmos aparece


E nem que a encostemos a um poste


Ela só vem quando lhe apetece.
*


Mas se a ti se aliar, a ti se encoste


Vê se lhe concedes mais um tempinho,


Não deixes que se perca, se desgoste,


Mesmo que nos visite de mansinho.
*


Ah! Tempo, que nos limitas a vida


Que às vezes, é tão curta na partida


E a Musa nem nos chega a visitar…
*


Não queiras ser carrasco dessa Musa


Que sempre nos visita e sem recusa


Por vezes nos ajuda a inspirar!
*


Lourdes Mourinho Henriques


04.11.2021
***


9.
*


"Por vezes nos ajuda a inspirar"


E também a sorrir ela auxilia


Tal como nos ajuda a superar


As rasteiras da vida, dia a dia.
*



E musas há que gostam de sonhar,


Enquanto outras preferem a magia


De construírem castelos no ar


Ou de acenderem estrelas pr`Harmonia.1)
*



São tantas essas musas feiticeiras,


Quantas serão as nossas mãos obreiras


Das coisas que os seus dedos vão criando
*



E quando chega a hora da partida


Parte a Musa também, que assim a vida


Por igual Musa e Gente vai tratando.
*



Mª João Brito de Sousa


05.11.2021 - 08.30h


1)Harmonia- Deusa da Paz e da Concórdia na Mitologia Grega
***


10.
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“Por igual, Musa e Gente vai tratando”


P’ra ele, ambas trata por igual,


E traiçoeiro, o tempo vai passando…


Tantas vezes as leva em vendaval!
*


Leva a Musa, tira-lhe a inspiração


Que trazia p’rá Gente… Foi ficando


Cativa... e a matou sem compaixão


Até que a Gente também vai levando!
*


Oh! Tempo, que tanto nos magoas,


Nos roubas nossas Musas e Pessoas


Que tanto gostariam de viver!
*


Não sejas tão cruel, tem compaixão,


Deixa ambas viver, dá-lhes a mão,


Só querem continuar a escrever!
*


Lourdes Mourinho Henriques


05.11.2021
***


11.
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"Só querem continuar a escrever"


Estes poetas com sonhos nas veias


Que talvez não consigas entender


Porque te afrontam com suas ideias
*



Ó Tempo, nenhum mal te irão fazer!


Não sei, Tempo, não sei por que os odeias


Quando, afinal, te irão enaltecer


Ainda que o não saibas ou descreias...
*



Aqui irei cessar de interceder


Por poetas e musas, que morrer


Cabe a todos os vivos, afinal.
*



Só tu, ó Tempo, irás permanecer


Sempre a fluir e às vezes a correr,


Porque só tu nasceste intemporal.
*



Mª João Brito de Sousa


05.11.2021 - 15.00h
***


12.
*


“Porque só tu nasceste intemporal”


Só tu nos vês chegar, também partir,


Só tu nos vês lutar e bem ou mal


Nos vais acompanhando… vês-nos ir…
*


 


Muitas vezes seguindo por caminhos


Nunca por nós sonhados, quando em quando…


Às vezes vais-nos dando uns miminhos


Mas noutras, vais-nos deixando chorando!
*


A vida inteira tu nos acompanhas


Ao lado do Destino e suas manhas


Pregando quando em vez suas partidas.
*


A ti, ó Tempo, que és intemporal,


Ninguém te vence e não existe mal


Que te atinja, como nas nossas vidas.
*


Lourdes Mourinho Henriques


05.11.2021
***


13.
*


"Que te atinja, como nas nossas vidas",


As breves vidas que tu nos concedes,


Nem sempre alegres e bem sucedidas


E tão curtinhas face ao que tu medes
*



Que se as ambicionamos mais compridas,


Compreensíveis são as nossas sedes


De ti, Tempo, que ditas as partidas,


De ti, que não as vês nem as impedes...
*



Assim vamos vivendo enquanto passas


Sem dar conta das vidas que ameaças,


Nem das vidas que aqui viste nascer
*



Por isso, se em verdade és Tempo/Espaço,


Seremos nós quem passa, passo a passo,


Por ti, sem te sabermos entender...
*



Mª João Brito de Sousa


06.11.2021 - 10.15h
***


14.
*


“Por ti, sem te sabermos entender”


Somos nós que passamos algum tempo


Numa curta viagem, sem saber


Se ela será normal… ou a destempo!
*



Uns vivem longa vida, quantas vezes


Pedindo que se aproxime o seu fim,


Mas outros vão passando por revezes


E partem sem querer, sina ruim…
*


Ó Tempo, tu que és intemporal


E por vezes vês por nós passar o mal


Podias poupar-nos tempo tão duro.
*



Chegamos e partimos deste mundo


Que dominas, é um mistério profundo,


“Aqui não há passado nem futuro”!
*



Lourdes Mourinho Henriques


06.11.2021
***

Comentários

  1. Que inspiração, bendita Musa!
    Noite tranquila, Maria João!
    Um abraço.

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  2. ""Só querem continuar a escrever"
    Estes poetas com sonhos nas veias
    Que talvez não consigas entender
    Porque te afrontam com suas ideias"

    O Tempo, este que estamos vivendo
    ficou enraivecido depois de ter lido

    Abraço, calmo

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  3. Boa noite Maria João.

    Como disse que não conseguia entrar no blog da Ana, este é o endereço correto:

    https://rainyday.blogs.sapo.pt/desafio-de-escrita-2024-um-conto-a-12-772276)

    Um abraço

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  4. Que inspiração dessas duas musas ... Incrível como conseguem
    não perder o tom. Bravo!
    Vida longa ,tempo ! até quando quiseres _ tu és o senhor dos
    nossos destinos .
    Muito bom reproduzir , que venham outros
    porque não conheço muitos.
    Abraço, querida e semana feliz !

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  5. E em harmonia
    bom e belo dia
    e semana agradável Mj, beijinhos

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  6. Olá, querida Mª João!
    Uma belíssima homenagem, parabéns a ambas!
    É uma delícia esta viagem pela escrita, pelo tempo, pela vida, pela poesia e pelos sonhos das suas construtoras de mundos poéticos, de mão dada com a Musa, uma inspiração para quem lê, uma ode em honra da Poesia!
    Parabéns!
    Um dia bom, espero já estejas melhor, querida Mª João.
    Enorme XI !
    Bravo!

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  7. Fico sempre espantada com a forma como a Maria João consegue dialogar com outra pessoa em forma de poema. É um gosto ler-vos em voz alta para alcançar a música das palavras para além do seu conteúdo. Parabéns às duas.
    Desejo que esteja melhor.
    Uma boa semana.
    Um beijo.

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