SONETO III - Lviz Vaz de Camões

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Ilustração de Norman Rockwell
enviada para o meu endereço electrónico por Pinterest
*



SONETO III
*



Tanto de meu estado me acho incerto,


que em vivo ardor tremendo estou de frio;


sem causa, juntamente choro e rio,


o mundo todo abarco e nada aperto.
*



É tudo quanto sinto, um desconcerto;


da alma um fogo me sai, da vista um rio;


agora espero, agora desconfio,


agora desvario, agora acerto.
*



Estando em terra, chego ao Céu voando,


nũ’ hora acho mil anos, e é de jeito


que em mil anos não posso achar ũ' hora.
*



Se me pergunta alguém porque assi ando,


respondo que não sei; porém suspeito


que só porque vos vi, minha Senhora.
*


 


Luís de Camões


in Rimas


Texto estabelecido, revisto e prefaciado por Álvaro J. da Costa Pimpão, Coimbra, Almedina, 1994
*


SONETO III
*


Alínea M
*



"Tanto de vosso estado me acho incerta"


que acautelada fico e desconfio


de quanto me dizeis. Se vos sorrio,


de gentileza, apenas, faço oferta...
*



Não sei, Senhor, se me tomais por certa,


nem se há verdade em vosso desvario,


mas sei que em caso algum eu desafio


suspeição que me instigue a estar alerta...
*



Mantende os pés na terra e não cuideis


de ao Céu chegar por mor de haverdes visto


meu vulto na janela debruçado;
*



Meus predicados, não os conheceis


e, na verdade, nem me sois benquisto


que a outro eu hei, Senhor, por mais amado.
*



Mª João Brito de Sousa


31.01.2021 - 00.10h
***


 

Comentários

  1. Bela dupla assim de letras
    Boa e bela quarta feira em harmonia de bom dia MJ, beijinhos

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    1. Bom dia e desculpa-me a longa ausência, Anjo

      O velho Camões lá me conseguiu arrancar ao estado de hibernação em que me deixaram duas infecções respiratórias seguidinhas , mas ainda é com muita lentidão que faço tudo e mais alguma coisa... Aliás, também fiquei KO com semanas e semanas de noites de cãibras exponenciadas pela Teriparatida, que já não tomo mais. Perdi Musa, perdi sono, perdi tudo...
      Mas a visão também não anda grande coisa, custa-me muito focar as palavras.

      Obrigada e uma boa quarta-feira também para ti.

      Beijinhos

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  2. Bom dia, querida Mª João!
    Há que manter realismo na predileção amorosa, para mais com o "nosso" Luís Vaz de Camões, os pés bem assentes na terra como uma âncora, deixemos que nos leve nas asas do soneto heróico, mas, claramente, concordo, outros amores mais terrenos serão preferíveis, neste caso a bela arte do soneto sob a tua inspirada poesia.
    Obrigada pela partilha deste original soneto.
    Um enorme Xi para ti querida Mª João.
    Boa quarta feira!

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    1. Bom dia, linda Cotovia

      Espero que me perdoes a longa ausência, mas a verdade é que nem sequer vos posso prometer que ela se não volte a repetir... Das infecções respiratórias já tu sabes, creio que também te falei das noitadas provocadas pelas cãibras e, tudo junto, dei comigo incapaz de escrever - ou mesmo de ler... - fosse o que fosse.

      Ontem foi o nosso poeta maior quem me acordou da letargia, embora logo a seguir lhe tenha pago com uma ficcionada e poética "nega", coitado...
      Não sei ainda se vou ter fôlego para vos visitar, mas tentarei.

      Um enorme xi

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    2. É sempre muito bom ter-te aqui, querida Mª João, e não tens porque pedir desculpa, ora essa!
      Já vi que também foste visitar o meu cantinho, muito obrigada, fico muito feliz, sempre, sabes, é que a amizade tem está característica fantástica, seja pouco ou muito o tempo que permeia as visitas, é sempre como se tivesse acabado de acontecer
      Uma noite tranquila, um enorme enorme Xi, querida Mª João.
      Mil beijinhos também, que são free

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    3. É verdade, pequena Cotovia , neste longo espaço de tempo em que estive sem conseguir escrever, não houve um único dia em que me não lembrasse de ti.
      Ainda vou publicar antes de me ir deitar: fiquei com os sonos um bocado trocados por causa das malvadas das cãibras nocturnas...

      Obrigada e um grande, grande xi

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    4. É recíproco, aqui pelo ninho falo de ti todos os dias, todos sabem quem é a "minha" Poetisa Mª João! A minha poetisa Mª João isto, e disse e escreveu e fez, e tem aqui uma fotografia tão gira, e olha este soneto, e aquela coroa... já fazes parte do ninho, acredita.
      Eu é que agradeço, querida Mª João.
      Boas publicações, e uma noite tranquila, que não te faça o tempo andar em lutas com os sonos trocados.
      Grande e grato Xi!

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    5. Foram as cãibras que me trocaram os sonos e as luas, com uma ajudazinha da tosse que está quase curada, ufa! Também me apercebi de que as injecções de Teriparatida me estavam a exponenciar os espasmos musculares e parei de me injectar. Claro que já o disse à minha reumatologista que me receitou uma outra injecção, esta só aplicável de seis em seis meses. Estou a torcer para não ficar seis meses com cãibras, quando esta me for aplicada por um/a profissional de saúde, que a Prolia tem muitos efeitos secundários e não me atrevo a injectar-me a mim mesma.

      Agora senti-me quase, quase um ovinho dos do teu ninho, rsrsrs

      Obrigada pelos mimos

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  3. Muitos parabéns por este belíssimo soneto, que dupla!
    Um abraço, Maria João!

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    1. Obrigada, Cheia!
      Foi preciso o velho Luís Vaz para me acordar da letargia provocada por uma verdadeira avalanche de problemas de saúde...

      Outro abraço

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