DIALOGANDO COM CAMÕES NO SEU QUINGENTÉSIMO ANIVERSÁRIO XXV

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*


DIALOGANDO COM CAMÕES NO SEU QUINGENTÉSIMO ANIVERSÁRIO XXV
*


 


DOCE SONHO, SUAVE E SOBERANO


*


 


Doce sonho, suave e soberano,


se por mais longo tempo me durara!


Ah! quem de sonho tal nunca acordara,


Pois havia de ver tal desengano!
*


Ah! deleitoso bem! ah! doce engano,


se por mais largo espaço me enganara!


Se então a vida mísera acabara,


de alegria e prazer morrera ufano.
*


 


Ditoso, não estando em mim, pois tive,


dormindo, o que acordado ter quisera.


Olhai com que me paga meu destino!
*


Enfim, fora de mim, ditoso estive.


Em mentiras ter dita razão era,


pois sempre nas verdades fui mofino.
*



Luís de Camões
***



Que haveis sido mofino nas verdades


Sempre eu o soube e sempre o perdoei


Que embora resmungasse, bem o sei,


Nunca vos quis ter preso atrás de grades
*



Pra mim, ora o ciúme, ora as saudades


Ditaram penas que por vós penei,


Mas vós nem destes conta, reparei,


De haverdes cometido atrocidades...
*



Amai damas ou deusas, mas calai-vos


Antes de me mentirdes novamente:


Esquecei-me de uma vez, deixai-me em paz!
*



Tem a mentira da verdade uns laivos


Que me traem, às vezes, corpo e mente


E eu de escapar-vos já não sou capaz...
*


 


Mª João Brito de Sousa


17.04.2024 - 13.30h
***


 


 O soneto de Camões foi transcrito do blog Sociedade Perfeita

Comentários

  1. Excelente! Muitos parabéns, Maria João!
    Resto de dia tranquilo.
    Um abraço.

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    1. Obrigada, Cheia!

      Assim que li o soneto, percebi logo que não lhe conseguiria resistir por muito tempo :) Andei por aí a visitar alguns blogs de amigos, mas já estava com os dedos a fugirem-me para este soneto que nasceu num abrir e fechar de olhos...

      Outro abraço!

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  2. Às vezes revejo, na Maria João, aqueles eruditos poetas do Neoclássico. Estas suas palavras são dignas dessas Academias, ainda tão mal conhecidas e estudadas...desculpe o jargão profissional a que tento fugir nos meus comentários.
    Um beijo

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    1. São palavras que muito lhe agradeço, Ana, não se preocupe com o jargão profissional .

      Só costumo usar este tipo de linguagem quando estou a dialogar com Camões que é o poeta mais antigo a cujos sonetos respondi como se me fossem dirigidos, mas estou a gostar tanto destas pequenas "conversas" que não sei quando me cansarei delas :)

      Obrigada e um beijo

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    2. Continue, pois o faz muito bem!

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    3. Desta vez terei mesmo de chorar sobre leite derramado porque deitei fora uma série deles que considerei péssimos, quando era eu que estava com um péssimo humor... mas ainda tenho por aí um ou dois meio acabados. Obrigada, Ana!

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  3. Mofinadas bonitas

    Bela sexta feira em harmonia, e bom dia MJ, beijinhos.

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    1. Bom dia,

      Antes de Camões se confessar mofino no que toca às verdades, já Gil Vicente nos encantava com a sua Mofina Mendes

      Espera aí, hoje é quinta-feira, não sexta... onde vais a correr, anjo meu? Dá tempo ao tempo que já não é tanto assim o que nos vai sobrando

      Bela quinta-feira para ti

      Beijinhos

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  4. Soubera Camões que haveria
    Uma Poeta com ele a dialogar
    E, por certo, orgulhoso ficaria
    E triste, também, por aqui não estar.

    Perdoe-me, Maria João, por estas rimas 'esparvoadas', mas estes seus diálogos que a mim me parecem sempre ter outro interlocutor que não somente Camões, deixam-se deveras impressionada. ( e influenciada, vá. )
    Se o Soneto de Camões é belíssimo o da Mª João não lhe fica a dever nada.

    Um abraço forte.

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    1. Bom dia, Janita!

      As suas rimas não são nada esparvoadas, não tem de se desculpar de coisa nenhuma.

      Mas, sim, se deixo sempre um pedacinho de mim quando visto a pele das amadas de Camões, também é certo que, vez por outra, me entusiasmo e faço com que o pobre vate pague pelo machismo e prepotência de todos os homens que fui conhecendo ao longo da vida, sobretudo os do meu ex marido que infelizmente já não está entre nós.

      Receio bem que Camões se assustasse e morresse de novo quando me visse, grisalha e a cair da tripeça, depois de lhe ter respondido como uma das suas jovens e belas amadas...

      Ainda não percebi muito bem se a sua paixão pela poesia era, ou não, mais forte do que a sua paixão por qualquer belo rabo-de-saias que lhe passasse ao alcance da vista e embora alguns historiadores preconizem que Dinamene nem sequer existiu e que não passou de um erro de leitura no diário de bordo onde quereriam ter escrito "dinamente" (dignamente), também lhe não perdoei por tê-la deixado afogar-se, fosse ela lenda, erro ortográfico ou mulher de carne e osso.

      Obrigada e um abraço forte

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