O FALCÃO DE KUSTURIKA - Mª João Brito de Sousa e Laurinda Rodrigues
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O FALCÃO DE KUSTURIKA
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Coroa de Sonetos
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Mª João Brito de Sousa e Laurinda Rodrigues
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1.
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À Via Láctea fui com Kusturica
Voando sobre o dorso de um falcão
Cuja fidelidade o dignifica
E a mim me rouba o lastro da razão
*
Mas se a genialidade o justifica,
Quem justifica a minha absurda opção
De roubar o falcão de Kusturica
Após ver Kusturika em contra-mão?
*
Adormeci, por fim, a meia Via,
Láctea, suponho, a crer no que se lia
No canto esquerdo do pequeno ecrã
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Não sei se Kusturika enfim chegou
Onde entendeu chegar ou se acabou
Por chocar contra a Estrela da Manhã...
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Mª João Brito de Sousa
11.03.2022 - 10.00h
***
2.
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"Por chocar contra a Estrela da Manhã"
ando eu a confundir o dia e a noite
num filme gypsi onde não é vã
a mão dum outro artista que se afoite.
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Talvez tenha vestígios de xamã
a voz de Kusturika, quando açoite
a nossa vibração que, com afã,
abriu uma cratera onde pernoite.
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Porque isto de falcão livre no espaço
fez eclodir em nós o embaraço
de poder competir com ele em voo...
*
Eu não vou conseguir: sou só humano!
E, ao tentar construir um aeroplano,
fiquei presa no verso que eu entoo.
*
Laurinda Rodrigues
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3.
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"Fiquei presa no verso que eu entoo"
Até que a minha Musa ao ver-me assim
Bateu as asas e se ergueu num vôo
Que resgatou o que sobrou de mim...
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Se lhe perdôo? Claro que perdôo
Esse paternalismo mas, enfim,
Confesso que da ave me condôo
Pois não a trouxe a Musa ao meu festim
*
Ainda que o festim tenha acabado
Assim que Morfeu veio disfarçado
E me induziu num sono tão profundo
*
Que nem sequer dei conta do sequestro
Do meu corpo e do meu franzino estro,
Humano - é bem verdade - mas fecundo.
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Mª João Brito de Sousa
11.03.2022 - 13.35h
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4.
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"Humano - é bem verdade - mas fecundo"
em palavras, que são um arco-íris
de vibrações intensas neste mundo
p'ra um diferente mundo construíres.
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Desta galáxia saltas num segundo
sem medo ou cautelosa por sentires
que afinal estás num astro vagabundo
envolto na revolta de faquires.
*
E, então, gritas que volte esse falcão
que Kusturika trouxe como irmão
pois, sendo dois, a solidão fenece...
*
E ele responde-te logo como amigo:
prefere a estar sozinho estar contigo
entoando a balada que não esquece.
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Laurinda Rodrigues
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5.
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"Entoando a balada que não esquece",
Respeitarei a escolha do falcão:
Em mim a mesma escolha prevalece
Se solitária (en)canto a solidão...
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Ao longe há uma estrela que arrefece,
Nalgum lugar dum`outra dimensão...
Talvez sejam os olhos do falcão
Espelhados nela até que o fim comece
*
Tão curiosa quanto um bom felino,
Sigo o falcão que, embora peregrino,
Não corre a Via Láctea em dez segundos
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Não me aproximo muito. A estrela é dele,
Se nela pouso pondo em risco a pele
Talvez me afaste do melhor dos mundos...
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Mª João Brito de Sousa
11.03.2022 - 18.25h
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6.
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"Talvez me afaste do melhor dos mundos"
sem saber se esse mundo é dos melhores...
Mas, nesse jogo de contrastes moribundos,
eu espero francamente que não chores.
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Pois, sem o Kusturika, só com Edmundos
mesmo que em mutação esses adores
não te inibas de gritos furibundos
que ponham um final em tais folclores.
*
É melhor viajar em plano inverso
p'ra apurares o sentido do universo
onde é possível encontrar falcões.
*
E, de asas bem abertas, ambos voarem
até os Kusturikas encontrarem
na saga das estrelas e papões.
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Laurinda Rodrigues
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7.
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"Na saga das estrelas e papões"
Quis o falcão, não quis a Kusturika,
Que eu sou muito selecta nas paixões
E sendo pobre, sei quanto sou rica
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Estranhas são estas minhas ambições
Que pouca gente entende ou justifica
Porquanto advogo sólidas razões
E não me importo se alguém mas critica
*
Chorar, não choro, mas lamento imenso
Porque bem sei que um choro, um choro intenso
Faz tão bem ou melhor do que um sorriso
*
Sou um bicho-do-mato afectuoso,
Algo selvagem, nada rancoroso,
Que num poema encontra o Paraíso
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Mª João Brito de Sousa
11.03.2022 - 19.47h
***
8.
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"Que num poema encontra o Paraíso"
e faz dele alimento permanente
porque a Musa lhe diz o que é preciso
p'ra que fique saudável e contente.
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E, dia a dia, num caminho liso
onde caem destroços, de repente,
troca-lhe as voltas mostrando juízo
porque não é nem torpe nem demente.
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Assim, a glória espalha-se p'lo ar
sem que haja falcão p'ra agarrar
porque as asas não chegam ao telhado.
*
Fazemos versos como furacão
e, quando vemos p'ro que está no chão,
é o nosso retrato, lado a lado.
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Laurinda Rodrigues
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9.
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"É o nosso retrato, lado a lado"
O mundo tresloucado que hoje vemos?
Não sei, que o furacão - talvez tornado -
É a arma que tenho. Ou a que temos?
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Voltemos ao falcão que, ao ter voado,
Deixou na praia o bote e os seus remos;
Mudei a velha rota a este Fado,
Ficou-me a meta além do que entendemos...
*
É esta a grande "Ceia do Poeta",
Não há manjar que a Musa não prometa
A quem a saiba, em vida, preparar
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E enquanto fia a Grande Fiandeira,
Somam-se os versos sobre a cabeleira
De um cometa que passa sem passar.
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Mª João Brito de Sousa
12.03.2022 - 10.30h
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10.
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"De um cometa que passa sem passar"
ou asteróide feito em raio de luz,
em todos nos podemos retratar
sejam astros de amor ou sejam cruz.
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Num diálogo louco, sem parar,
mesmo quando parar o que traduz,
iremos num veleiro navegar
por águas que ao nordeste nos conduz.
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E sejas tu o Kusturika ardente
que transportas a Musa já cadente
a juntar-se, no céu, ao tal cometa...
*
Que eu sou apenas uma mosca-morta
e, se ela te incomoda, então exorta
que, um dia, também possa ser poeta.
*
Laurinda Rodrigues
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11.
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"Que um dia também possa ser poeta"
Disseste e eu sorri, pois tanto quanto
O sou, tu és também... e a dilecta
Da minha Musa, quando aspira ao canto!
*
Este rio nunca corre em linha recta,
Nem suas águas param num quebranto,
Que sempre crescem na razão directa
Da força do seu estranho, infindo espanto...
*
Nas asas de um falcão, algures no espaço,
Acendemos agora um novo abraço;
Duas gotinhas somos, nada mais,
*
Mas, ao juntar-nos, crescemos um pouco;
Voa um falcão sobre este mundo louco
E a Barca fica à espera, presa ao cais...
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Mª João Brito de Sousa
12.03.2022 - 11.40h
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12.
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"E a Barca fica à espera, presa ao cais"
enquanto as multidões olham a guerra
onde uma propaganda é já demais
p'ra quem quer a mudança nesta terra.
*
Somos navegadores, que o tempo encerra
na coragem de povos tão fatais,
que eretos ficam, mesmo ao pé da serra
que, p'la grandeza, nos torna imortais.
*
Damos as mãos com os olhos no além
feito de sonhos e reais também
até p'ro desafio mais imprevisto...
*
Aves do céu, afastem vossas asas,
porque a poesia invadiu as casas
num concerto de amor nunca antes visto.
*
Laurinda Rodrigues
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13.
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"Num concerto de amor nunca antes visto"
Voarão juntos pombas e falcões
E surgirá a Paz em que hoje invisto,
Sem bombas, sem granadas, nem canhões
*
Terá a Paz a solidez do xisto
E a justa força das revoluções
Do proletariado - nisto insisto! -
De todas, mesmo todas, as nações
*
"Utopias!", dirão, talvez sorrindo
Os que vão dando o mundo por já findo
E não crêem na força da Vontade
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Dos que avançam sobre os que vão caindo,
Esses que o mundo vão (re)construindo,
Sem egoísmos, pela Humanidade!
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Mª João Brito de Sousa
12.03.2022 - 14.30h
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14.
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"Sem egoísmos, pela Humanidade!"
Que seja a lucidez o seu guião!
A Razão é só parte da Verdade
quando não foi ouvido o coração.
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O gesto de uma mão, com suavidade,
que dá uma palavra, além de pão,
nasce quando nasceu a caridade
consagrada por Cristo na Paixão.
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Se são injustas a pobreza e a dor
de gente que trabalha com fervor
sem nunca ser bastante o que lhe fica,
*
Todo o Universo está em harmonia.
E, criando no céu a fantasia,
"À Via Láctea fui com Kusturika".
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Laurinda Rodrigues
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Mais um bom dueto.
ResponderEliminarBom fim-de-semana, para ambas.
Um abraço, Maria João.
Obrigada pela parte que me cabe, Cheia.
EliminarBom fim-de-semana e um abraço
Um tema original e difícil que mostra o vigor criativo das autoras.
ResponderEliminarUm abraço.
L
Obrigada pela parte que me cabe, L.
EliminarA Laurinda falava sempre em duelos quando se referia às nossas coroas. Eu dizia-lhe que queria um dueto, não um duelo, mas quando releio as várias coroas que compusemos juntas, vejo que ela levou sempre a sua ideia adiante. Muitas delas são verdadeiros duelos de sonetos.
Um abraço
Viajar com Kusturika nesta coroa de sonetos deve ter sido fantástico. Parabéns às duas poetas.
ResponderEliminarTudo de bom.
Um beijo.
Foi uma viagem vertiginosa, em termos de velocidade e adrenalina, Graça.
EliminarMuito grata pela parte que me cabe.
Tudo de bom e outro beijo para si