VÊS MOINHOS? SÃO DRAGÕES! - Reedição

VÊS MOINHOS, SÃO DRAGÕES (1).png


Imagem gerada pelo ChatGPT


***


VÊS MOINHOS? SÃO DRAGÕES!
*



São moinhos de vento, estes meus dedos,


E os meus olhos lanternas apagadas


A semi-vislumbrar cifras toldadas


E a adivinhá-las, como se a segredos
*



Austeras fragas, disformes rochedos,


Sombras sinistras, loucas revoadas


De visões imprecisas, desgarradas


Ou enredadas em estranhos enredos
*



Não fora a desmedida teimosia


Que a decifrar tais vultos desafia


Esta semi-cegueira (ir)reversível(?)
*



E eternizada pela pandemia...


Ah, não vos sei dizer quanta a arrelia,


Mas tento transformá-la em brado audível!
*



Maria João Brito de Sousa


20.07.2020 - 11.30h
***


 


NOTA - Este poema foi escrito durante a reclusão imposta pela pandemia, no meu terceiro ano de espera por uma cirurgia às cataratas


 

Comentários

  1. Os seus moinhos de vento moem muito trigo.
    Boa tarde, Maria João!
    Um abraço.

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  2. Boa tarde, Cheia!

    Este poema foi escrito quando eu já praticamente não via... ou via apenas do olho direito - o esquerdo já não via nada de nada - olho em que tive o tremendo azar de ter uma queratite herpética que me podia ter cegado irreversivelmente. Felizmente o meu amigo Rogério acudiu ao meu grito de socorro e lá fomos os dois para o hospital de S. Francisco Xavier onde não havia Oftalmologia e depois para o de São José de onde me enviaram para as urgências de Oftalmologia do Egas Moniz. Depois de diagnosticado o herpes ocular estive vários meses a tomar um antiviral que me deixou o estômago muito avariado, mas foi o que me salvou da cegueira. Fui muito bem tratada pela Oftalmologia do Egas Moniz, disso não tenho dúvida.

    Outro abraço!

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  3. Não deixo
    de me sentir quixotesco
    agora que te comento
    assim e agora
    que tuas cataratas foram embora
    Tua poesia
    me ajuda a enfrentar os monstros

    Beijos, deste teu velho neto

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  4. Ora ainda bem, querido neto, porque o mundo está a ficar pejadinho de dragões habilidosamente disfarçados de moinhos...

    Costumava dizer-se, a propósito desta esplêndida obra de Cervantes: "Vês moinhos?, são moinhos, vês dragões?, serão dragões"- Não vás por aqui, meu rico neto, que nos tempos que correm quase nada é o que parece ser...

    Beijos desta tua avó que se viu livre das cataratas, mas não do embaciamento das lentes que lhe foram aplicadas e, por isso, vai ter de fazer uma limpeza a laser já no próximo dia 30.

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  5. A Maria João explora temas como a percepção, a visão e uma sensação de limitação e luta interna, especialmente com referências a olhos apagados, sombras e uma certa teimosia. A menção à pandemia também sugere um contexto de desafio e procura por expressão e compreensão.

    A imagem criada pela IA levou-me aos Países Baixos 🇳🇱
    O seu avô Rogério treme só de pensar na ameaça da IA

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  6. Viva, Teresa :)

    Eu estava realmente muito próxima da cegueira quando escrevi este soneto... Como já não via rigorosamente nada do olho esquerdo que tinha uma catarata especialmente grande e opaca, segundo os oftalmologistas, e tive o tremendo azar de desenvolver um herpes no olho direito, que ainda via qualquer coisita. Devo ao meu avô/neto Rogério, que me acudiu quando gritei por socorro e me levou para o hospital a mil à hora, o facto de ainda ver do olho direito.

    Quanto à IA, essa, por si só, não me assusta nem um bocadinho. Somos uma espécie que desde sempre evoluiu através de objectos primeiro encontrados e, depois, aperfeiçoados até chegarmos a esta coisa espantosamente bela e complexa que é a IA ... Mas se me perguntar se confio nas mãos que a detêm e a todo o seu poder, respondo-lhe já que não.

    Não confio nem um bocadinho pequenino nas mãos que detêm o poder, ou, mais poeticamente, nas mãos que detêm o poder de poder...

    Obrigada e um abraço, Teresa

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