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OS QUARTOS DA LUA

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Nestes quartos-de-luz  da lua-cheia Desfaço-me e, desfeita, eu pago o preço De ter virado a vida do avesso Cozinhando poemas para a ceia...   Divido-me e, assim, fico só meia... Mas mesmo dividida eu não me esqueço Que devo ser melhor que o que pareço E nasce-me outra luz: a nova ideia!   Criança tonta, bato palmas, canto, Cada ideia me traz um novo encanto, Cada encanto me espanta mais e mais!   Criança tonta em louca correria Pelos quartos da lua... que alegria A de abraçar um mundo de ideais!     Imagem retirada da internet

ÁGUAS PROFUNDAS

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ÁGUAS PROFUNDAS *   Nas águas mais profundas, traiçoeiras, Que me inundam de mágoas o viver Eu, que tão pouco sei, fico a saber Das causas mais remotas e primeiras. *   Aquilo que aprendi não tem fronteiras, Vem da nascente onde começa o Ser, Não acaba depois de se morrer E não conhece atrasos nem canseiras: * É um deslumbramento vertical A engendrar um mar dentro de mim Que me enche, me extravasa e me conduz * Ao fundo do meu Ego, esse local Onde reinicio este meu fim Pra de novo acender a minha luz. *   Maria João Brito de Sousa - Novembro, 2011     Imagem - FEMME ASSISE - P. Picasso  

RUSH, RUSH, RUSH...

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Torço o pé, Estrago o sapato Nestes passos que vou dando... Piso o rabo do meu gato, Fica desfeito o encanto!   Porque, afinal, Os meus passos São sempre passos demais, Ao pisar o rabo ao gato Torço o pé, Estrago o sapato, Fica o percurso estragado... Por hoje não corro mais!     Imagem retirada da internet

HUMANA CONDIÇÃO III

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"Operários" Tarsila do Amaral   Se passas e não olhas nem reparas No mundo que te pede o teu melhor, Se dás indiferença em vez de amor E se, passando, não ouves nem paras,   Se passas por passar, sem entender Que não é por acaso que aqui estás, Se só queres receber e nada dás, Tens muito, muito ainda, que aprender.   Só dando tu recebes de verdade: É no sonho que a nossa identidade Revela a sua humana condição   Só dando-te terás, inteiramente, Decifrado o enigma da semente Que este Universo pôs na tua mão.     ©Maria João Brito de Sousa   27.11.2008   "Operários" , Tarcila do Amararal, 1933   Imagem retirada da internet

MOMENTO EXTRACORPÓREO

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  Mar de mim, eu sou quem se partiu, Quem se tentou colar mas se esqueceu De viver uma vida que perdeu Na chama que, inteirinha, a consumiu.   Aquela que a si mesma se impediu De ser tudo o que foi quando nasceu, A que, escondida, nunca mereceu O caminho do Ser a que fugiu.   Vaivém das obras nuas dos meus dedos, Das minhas disfunções e dos meus medos E, depois, a certeza de ter visto   Daquilo que se passa e já passou O caco do estilhaço  que sobrou... Eu já nem sei se vivo ou se desisto!     Maria João Brito de Sousa - 25.11.2008   Imagem retirada da internet  

O DESVIO e UM ESPAÇO AO PÉ DO MEU...

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Porque me fica a boca assim amarga E os olhos, embaçados, se me cerram Se saio desta casa onde me entregam Poemas e animais? A minha carga.   Porque será que me não sei mover Senão neste meu espaço sem fronteiras? Porque razão me sinto uma estrangeira Onde possa estar longe de só ser?   E, no entanto, aonde os outros vão, Onde as coisas se fazem é que são Os espaços benditos pelo mundo.   E eu, mais uma vez, dobro a vontade, Me curvo a essa estranha realidade E me desvio da luz de que me inundo...     UM ESPAÇO AO PÉ DO MEU...   E faço e raspo e limpo e vejo e esfrego, Depois volto a limpar e a esfregar Neste vaivém do eterno-começar Ao qual dedico a vida a que me entrego...   Já mal me sobra tempo pr`ó que escrevo E quase nenhum tempo pr`a pensar! Se tempo `inda me resta pr`a sonhar Nenhum me sobra já pr`a ter sossego...   E escovo e subo e desço e nunca paro Neste cuidar do muito que me é caro E nem sei se parando `inda sou eu...   Nem mesmo enquanto durmo eu fico em paz! Quase sempr...

DAS FUNÇÕES DO SONHO II

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Que estranha, alucinada projecção Do ego de outro alguém morando em mim... E que me importa, se me sinto assim Eu mesma em projectada oposição?   Acordo. Foi um sonho. A sensação De ter alguém comigo e estar assim, Capaz de me calar e dizer: - Sim... Quando eu mesma teria dito: - Não!   Um sonho... e, no entanto, eu aprendi, Pensei e meditei (ou reflecti?) Que tenho ainda coisas por fazer...   É a escola do sonho a funcionar, A mostrar-me o caminho, a ensinar Que o melhor desta vida é aprender...     "Sinfonia Sol-Lua com Remendo Verde" Maria João Brito de Sousa, 2006