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SOBRE A NUDEZ CRUA DO PECADO...

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Sobra-me de alma e falta-me saúde... São coisas desta idade indefinida, Quando se passa além da meia-vida E não mais a pujança nos ilude...   São coisas que, pensadas amiúde, Vos falam da Mulher-Interrompida, Da que voltou por si (ou foi trazida...) De um outro espaço doutra latitude...   Sobra-me um somatório de ilusões, De rastos-de-cometa, sensações De algo que se passou sem ter passado.   Sobram-me, de mim mesma, mil pedaços Que transformei em manchas e em traços Sobre a crua nudez do meu pecado.     Imagem retirada da internet   Pormenor de: "Sobre a nudez crua da Verdade, o manto diáfano da Fantasia"     Estátua de Mestre Teixeira Lopes, representando Eça de Queiroz estendendo sobre a Verdade  o ténue manto da Fantasia.    

MUDANÇA? QUE MUDANÇA?

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Mudança. Era o tema proposto pela Fábrica de Histórias para esta semana, assim em jeitos de "ano novo, vida nova...". Pensa-se e repensa-se o significado da palavra. Nada. Nada de nada. Sente-se a palavra. Aqui as coisas mudam de figura. Afinal a sua vida, como todas as vidas, era composta por uma sucessão de mudanças... Todos os dias, ao levantar, mudava o areão dos litters dos gatos, os jornais que forram as improvisadas gaiolas dos pombos, a ração dos gatos e dos cães... bem aí não se trataria exactamente de mudança. Poderia entender-se melhor como renovação... mas logo a seguir mudava a página do seu caderno para escrever um novo soneto. Às vezes dois, ou três, ou quatro... mudava a página do blog, pela mesmíssima razão. Mudava de roupa. Mudava de sapatos. Mudava. Não brinques, Maria João! Não se trata desse tipo de mudanças e tu sabe-lo muito bem. Trata-se de uma mudança radical. Uma mudança daquelas que mudam as próprias mudanças e as suas prioridades. Doze coisas. Doz...

A PINTORA

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Devorava sentidos proíbidos Na captura das formas e das linhas. Falava pouco ou nada com vizinhas. Dizia-se da cor dos seus vestidos.   Abraçava-se aos gestos repetidos Que sobreamontoava, quais sardinhas, Recriando ilusões e adivinhas Onde antes eram vãos os seus sentidos.   Criava como quem retrata a vida Que dantes conhecera, repetida Por muitos que ela nunca conheceu   E roía os caroços de outros frutos Supondo partilhar os seus produtos Até ao próprio dia em que morreu.     Maria João Brito de Sousa - 2007     Pormenor de "Escorço - Grande Pintora a Lápis de Cor"      

A DISFUNCIONANTE

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Ia por ali fora, cabisbaixa, Vivendo por viver, sem já ter meta, Deixando atrás de si, em linha recta, Pegadas que gravara numa faixa.   Não estava aberta, nem à caridade, Nem ao fluir do seu imaginário... Vivia, no momento, o seu contrário Caminhando por força de vontade.   Funcionava tão mal, enquanto gente! Perdera os meios de seguir em frente Na azáfama, na dor, no burburinho...   "Disfuncionantemente" prosseguiu, Embrenhou-se, por fim, nesse vazio Que tão longe a levara do seu ninho...     Imagem retirada da internet  

O CAMINHANTE (A very, very short-story)

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  Passou por este espaço e quis parar... Ficou refém do espaço, por momentos, Olhando-o com olhos muito atentos Em busca da razão que o fez ficar.   Passou por este espaço e, sem saber, Passara por si mesmo uma vez mais Sem que os olhos captassem os sinais Que este espaço lhe dera a conhecer...   Depois foi normalmente à sua vida. Não fora a sensação de uma partida, Jamais se lembraria deste espaço...   Tem dias em que passa e já nem olha, Em nenhum deles, porém, a sua escolha Dependeu da vontade ou do cansaço.     Maria João Brito de Sousa - 29.12.2008   Gravura de Manuel Ribeiro de Pavia      

O RASTO DO COMETA II

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Pretérito de mim neste imperfeito Que é condição de ainda andar por cá, Procedo á criação do não há, À minimização do meu defeito...   E, nesta dimensão de Causa-Efeito, Traçando o meu caminho ao Deus-dará, Mais-pedra, menos-pedra... eu volto já! Este caminho ìnda não está direito...   Mais-obra, menos-obra, eu vou passando Sem saber se acabei, sem saber quando... Gente feita de barro é mesmo assim,   Por cá vamos deixando o nosso rasto! Vislumbro um horizonte e não me afasto Até que alguém venha afastar-me a mim...     Imagem retirada da internet    

TRÊS SONETOS DO DIA

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Imagem Pinterest *   A CEIA DO POETA III *   Se sou a mais pequena entre os pequenos (ainda mais pequena que o comum) E vivo neste absurdo desjejum Das palavras que escrevo em mil cadernos *   Ao vislumbrar-me, assim, entre os eternos, Senti-me, por segundos, ser mais um E, louca de alegria, bebi rum Por copos inventados nos infernos *   E fiquei-vos tão grata - embora louca...- Que já nem sei expressar essa medida, Que já nem sei dizer como fiquei *   Desfaço-me em palavras, fico rouca, Embriago-me, invento outra bebida, E tento dar-vos mais que o que já dei!  * Maria João Brito de Sousa   Dezembro, 2010 ***   SONHAI! * Crescei, multiplicai-vos e sonhai! Colhei maçãs da árvore da vida, Chorai os que são vossos, na partida, Sede vós mesmos, mas acreditai! * Se tendes sede ou fome, protestai! Se vos faltar amor, perdão, guarida, Procurai novo peso, outra medida, Encontrai novos rumos, viajai! *   Ide ao fundo do mar de cada mar, Subi, sub...