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25 DE ABRIL - cravo/metáfora

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  (Em decassílabo heróico)     Porque hoje se acrescenta e se agiganta A chama dos valores jamais vencidos Que acende outro amanhã que cresce e canta Nas brasas da fogueira dos sentidos,   Que ascende, que conforta, que acalanta, Que faz nascer, cá dentro, indesmentidos, Os cravos de outro Abril que nos garanta Direitos e razões quase perdidos,   Eu hoje cantarei… se tempo houver, Porque o tempo se escoa, um cravo morre E eu não posso jurar poder, sequer,   Prender não sei o quê, que tanto corre, Que espreita e que se quer deixar colher, Mas não tem flor que eu veja, ou pé que eu dobre…       Maria João Brito de Sousa – 25.04.2014 – 17.37h

RELEMBRO

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RELEMBRO *   Relembro um rio que em gesto resoluto Cresce em caudal e soma em quantidade A mesma urgência com que agora luto E me dá força enquanto houver vontade *   Porque um poder perverso e dissoluto Se nos impõe, esmagando a dignidade, Sejamos fio de outro qualquer soluto Que, em nos enchendo, engendre outra vontade! *   Relembro o sangue em veias indomadas E esta emergência em nós, sempre crescente, Que nos transforma as mãos mais desarmadas *   Em espada erguida sobre o prepotente Que ensombra as águas vivas, libertadas, Duma outra força antiga e sempre urgente! *     Maria João Brito de Sousa  15.04.2014 – 10.39h ***     Ao povo que, desobedecendo a uma ordem directa, invadiu as ruas em Abril de 1974 e transformou um golpe militar numa verdadeira revolução.   A todos nós!     Imagem retirada do Google, sem autoria visível.  

SONETO A UMA LONGA, FRIA, FEIA E ESCURA TARDE DE CHUVA - Alegoria... e não só.

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    SONETO A UMA LONGA, FRIA, FEIA E ESCURA PREMONIÇÃO DE INVERNO *     Pr`a quê cantar a jovem Primavera   Que nos não traga, acesa, a claridade   Que emite, lá no alto, a rubra esfera   Assim que se ergue e brilha em liberdade? *       De que terá servido a longa espera   Se a chuva nos roubar, pela metade,   Um céu que esconde um sol que mal tempera   Um dia que nasceu sem qualidade? *     E, sob intensa chuva, a tarde fria   De que hoje vou falar, nem sei porquê,   Faz crer que o próprio verso se arrepia *   Se, na estrofe final, disser que crê   Que mais depressa brilha um novo dia   Pra quem, no que se vai, tanto mal vê... *     Maria João Brito de Sousa – 27.03.2014 – 17.37h

SONETO A UM FADO VINDO DA CASA AO LADO

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  (Em decassílabo heróico)   Eu quero-te abraçar na voz cantante De um soneto qualquer desmoronado Em pavimento alheio, à hora errante De um tropeçar que é sempre inusitado   E, depois, confessar, já confiante, Que, às vezes, também sei cantar-te em fado, Desses menos banais, mas “navegante”, Dos que andam pelo mar, no mar criado…   No beijo que te dou, canção distante, Acidental, mas firme em teu traçado, Direi, agora, ser desconcertante   A palavra a brotar do som escutado Que se me veio impor no justo instante Em que te ouvi trinar, na casa ao lado     Maria João Brito de Sousa – 07.02.2014 – 18.21h

HOLOGRAMA

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  (Soneto “de coda” em decassílabo heróico)     Conserto o desconcerto, acerto o passo, Pinto, esculpindo o verso que me ocorre. As coisas que aqui faço, ou que não faço, Vão transcendendo a carne que me cobre…   Mas, se à própria razão retiro o braço Se o gesto me preguiça, a mão não corre, Se, já rendida à dor, verga ao cansaço, Perco o rumo à razão que me socorre.   Que me não faltes, mão dos gestos leves, Que esculpes, que constróis, que remodelas, Que, sem hesitações, aqui te atreves   A dissecar miséria e coisas belas E a arder nos mil pavios do que não deves, Porque há quem vá negar-te a luz das velas,   Quem queira dar-te fama e voz, tão breves Que ocultem o sentido ao barro, às telas, Para honrar com néons quanto nem escreves!       Maria João Brito de Sousa – 09.02.2014 – 17.07h     Imagem - "Genesis" - Jacob Epstein

REVOLUÇÃO!

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(Em decassílabo heróico)   Se sofro, o que me importa, a mim, sofrer Enquanto tantos mil, sofrendo mais, Transformam cada grito, dos que eu der, Num gemido que abafa outros iguais?   Se morro, o que me importa, a mim, dizer Que a morte me chegou cedo demais, Enquanto mil houver que irão morrer De frio, de fome e falta de hospitais?   Mas uma coisa sei; morro de pé! Ninguém ficará surdo à voz de um só Quando ela em mil projecta aquilo que é   E, na corda impotente, o sujo nó, Rebenta de repente, explode a fé E outro Golias cai mordendo o pó!     Maria João Brito de Sousa – 11.02.2014 – 12,49h     IMAGEM - O Quarto Estado - Pelizza da Volpedo

ESBOÇO CRIATIVO

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  (Em decassílabo heróico)     … e neste fim de Tejo em que me vivo, Onde, entre verbo e dor, sei ser feliz, Hei-de ser sempre o fruto do que fiz, Do muito que senti, do que me privo   Se teimo em rejeitar, quando me esquivo, A verso que não venha da matriz Ou negue exactamente quanto eu quis Por não ser mais que um frágil lenitivo   E atendo ao que jamais será cativo, Ao que é reprodução do som nativo Que, em ondas, se espraiou desde a raiz   Porque, entre sopro e forma, mero crivo, Não traço mais que um esboço criativo Dos versos que um soneto a mim me diz.       Maria João Brito de Sousa – 28.01.2014 – 21.50h