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SÓ PARA NÃO DEIXAR QUE AS RIMAS GANHEM PÓ...

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(Soneto em decassílabo heróico)     Se assim escrevo, será por não saber Viver de outra maneira e ser quem sou Ou dar de forma estranha à que me dou E ser de alheia forma ao que sei ser     E se isto, amigos meus, não for escrever, Não saberá escrever quem me ensinou, Nem saberei dizer quem me enganou Quando tanto deixou por aprender,     Mas se triste me sinto ou triste estou, Já vos não sei dizer quem me afastou Desta força de, sendo, me dizer,     Nem se, acaso, houve alguém que se lembrou De lembrar-me de quanto me negou E, depois, se esqueceu de me esquecer.         MariaJoão Brito de Sousa – 22.10.2014 – 16.44h

NOUTRO DIA QUALQUER II

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    (Soneto em decassílabo heróico)   Noutro dia qualquer talvez vos diga Das razões de um poema aprisionado Na trincheira do sonho em que se abriga Quando se sente vão, velho e cansado...   Mistérios do poema. Quem lhes liga? Quem pode convencê-lo a ser cantado Se em silêncio se escapa da cantiga E teima em se manter distanciado?   Mas, duma fresta aberta em musa antiga, Sempre posso espreitá-lo e, com cuidado, Confessar-lhe esta inércia a que me obriga,   Mostrar-lhe que escolheu caminho errado (neste vislumbre, aquilo que me intriga, é vê-lo, embora vivo, assim, calado...)     Maria João Brito de Sousa – 03.10.2014 – 21.21h     Imagem - Azenhas, Amadeo de Sousa Cardoso  

O TEU SILÊNCIO, Ó COMPANHEIRO!

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      (Soneto em decassílabo heróico)   Por vezes vem de manso a voz do vento, Murmurar-me em segredo… e diz-me mais, Mais alto e mais audível que as normais Que por cá repercutem qual lamento   A que sempre faltou raiva e talento Mas soam como sopram vendavais, Bradando sem cuidar dessoutros ais Que ousem fazem soar seu desalento   Porque o sofrem na carne… e se não calam! Aos que possam provar que, quando falam, Bem mais razões terão que os do “poleiro”,   Junto o sopro de uns versos que me exalam O vivo odor das brasas que em mim estalam Se te encontro em silêncio, ó companheiro!       Maria João Brito de Sousa – 19.04.2014 – 14.48h

TRÊS SONETOS DE TRAZER POR CASA...

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        O ARROZ MALANDRINHO     Cebola, um grão de sal, folhas de louro, Bem douradinhos num pouco de azeite… Deixa a colher de pau de ser enfeite Pr`a tornar-se, no tacho, o meu tesouro!   Depois trago o arroz, limpo e escolhido, E vou-o alourando na mistura (vai começando a ser uma aventura fazer um arrozinho bem estrugido…)   Deito a água a ferver... alguns minutos, São quanto irá bastar ao meu petisco! Depois é só tapar, manter quentinho,   E, assim que doseados, os  produtos -  muito embora correndo um certo risco -, Servir-vos-ei arroz ... bem  malandrinho!     Maria João Brito de Sousa - 2009     AS ERVILHAS COM OVOS     Hoje vou preparar umas ervilhas Guizadas, com dois ovos bem escalfados, Sem deixar de falar dos mil cuidados Que aqui dedico a estas maravilhas;   Sobre aquilo a que chamo um estrugidinho, Deito as ervilhas, logo as vou mexendo Até que cozam bem, sempre fervendo, Ao ponto de ficar tudo tenrinho,   Depois os ovos, sem esquecer tempero, Pr`a que fique o pitéu mais...

UM SONETO POR GAZA

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(Decassílabo heróico) Por cada pequenino assassinado, Por cada ferida aberta ou cada grito De um povo dia a dia dizimado, Encurralado, exposto, exangue, aflito, Por cada obus de fogo ali lançado Por loucos prepotentes de olho fito Na criança inocente e sem pecado Gerada pela carne e não no mito, Para que o genocida pare enfim De chacinar sem dó, de destruir O abrigo improvisado em cada casa, Um soneto, mais um, vindo de mim, Para quem, dentre vós, consiga ouvir Cada grito de horror que ecoa em Gaza.   Maria João Brito de Sousa - 28.07.2014 - 12.13h      

A VELHA MORADIA DO DAFUNDO

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  (Soneto em decassílabo heróico)   Daquela antiga casa que sabia Todos os tempos do meu verbo Amar Como secreto templo que se abria De cada vez que a fosse visitar,   Olhava um areal que se estendia Da orla ribeirinha até ao mar Que rescendia a sonho e maresia Em cada avo de sonho por explorar…   Talvez morasse Deus na antiga casa, Ou talvez fosse, eu mesma, um deus menino Que ali quis construir seu próprio mundo,   Pois despontava-me uma ou outra asa Na casa que era mais que o que eu defino Por velha moradia do Dafundo…     Maria João Brito de Sousa – 19.07.2014 – 17.04h   NOTA – Reformulado a partir do soneto original de 31.07.2010  

SONETO EM ABSOLUTO SOLILÓQUIO

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  (Em decassílabo heróico)     Não sei o que fazer… se ao verbo informe, Tomada de paixão, tente moldar, Se negue a sensação sem a esboçar E a devolva intacta ao que em mim dorme.   A compulsão, porém, tornou-se enorme! Mais forte do que eu sou, quer-se afirmar E sinto que não mais se irá vergar Nem há compensação que, hoje, a conforme   Ou que possa anular-lhe esta vontade De ir esculpindo uma voz que agora invade O espaço das mil causas emergentes.   Se o tempo que passou gerou saudade, Depressa entenderá que esta verdade Lhe exige gestações bem mais urgentes.       Maria João Brito de Sousa – 23.06.2014 – 18.18h     Imagem - Pintura de Álvaro Cunhal retirada da página do Partido Comunista Português