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JANELAS

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  (Soneto em decassílabo heróico)   Ressoam mil palavras que iluminam Silêncios das janelas apagadas Que vão mostrando, ainda que caladas, O tanto que as vidraças nos ensinam E, sempre que as janelas nos dominam, Ficam, dentro de nós, perpetuadas, Palavras – tantas mil! - das que, adiadas, Não puderam ser ditas, mas fascinam Como coisas antigas, revividas, Que, assim que vislumbradas, decididas, Repetem, sem falhar; - Nós ficaremos! Janelas, quais palavras repetidas, Que doem, mas jamais serão traídas, Abertas sobre quem não mais veremos...   Maria João Brito de Sousa – 15.11.2014 – 23.22h       Ao meu camarada e amigo Zé Casanova. Até sempre, Zé!  

LARANJAS

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  (Soneto em decassílabo heróico)     Venho trazer-te oitavas de laranja, Dizer-te boa noite e bom descanso, Desejar-te, sincera, um sono manso Enquanto aqui vou estando a pão e canja...   Hoje venho deixar-te o verbo em franja Na fronte de um poema onde eu balanço E oferecer-te, nisto, o mais que alcanço, Porque além deste “mais”, nada se arranja...   Para ti escrevo agora, só sentindo, Adivinhando, quase, ou permitindo A mutação do gesto em sombra alada   Que faço esvoaçar, reconstruindo Palavras que disseste e fui fruindo Até darem laranjas, camarada...     Maria João Brito de Sousa – 05.11.2014- 21.39h

SÓ PARA NÃO DEIXAR QUE AS RIMAS GANHEM PÓ...

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(Soneto em decassílabo heróico)     Se assim escrevo, será por não saber Viver de outra maneira e ser quem sou Ou dar de forma estranha à que me dou E ser de alheia forma ao que sei ser     E se isto, amigos meus, não for escrever, Não saberá escrever quem me ensinou, Nem saberei dizer quem me enganou Quando tanto deixou por aprender,     Mas se triste me sinto ou triste estou, Já vos não sei dizer quem me afastou Desta força de, sendo, me dizer,     Nem se, acaso, houve alguém que se lembrou De lembrar-me de quanto me negou E, depois, se esqueceu de me esquecer.         MariaJoão Brito de Sousa – 22.10.2014 – 16.44h

NOUTRO DIA QUALQUER II

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    (Soneto em decassílabo heróico)   Noutro dia qualquer talvez vos diga Das razões de um poema aprisionado Na trincheira do sonho em que se abriga Quando se sente vão, velho e cansado...   Mistérios do poema. Quem lhes liga? Quem pode convencê-lo a ser cantado Se em silêncio se escapa da cantiga E teima em se manter distanciado?   Mas, duma fresta aberta em musa antiga, Sempre posso espreitá-lo e, com cuidado, Confessar-lhe esta inércia a que me obriga,   Mostrar-lhe que escolheu caminho errado (neste vislumbre, aquilo que me intriga, é vê-lo, embora vivo, assim, calado...)     Maria João Brito de Sousa – 03.10.2014 – 21.21h     Imagem - Azenhas, Amadeo de Sousa Cardoso  

O TEU SILÊNCIO, Ó COMPANHEIRO!

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      (Soneto em decassílabo heróico)   Por vezes vem de manso a voz do vento, Murmurar-me em segredo… e diz-me mais, Mais alto e mais audível que as normais Que por cá repercutem qual lamento   A que sempre faltou raiva e talento Mas soam como sopram vendavais, Bradando sem cuidar dessoutros ais Que ousem fazem soar seu desalento   Porque o sofrem na carne… e se não calam! Aos que possam provar que, quando falam, Bem mais razões terão que os do “poleiro”,   Junto o sopro de uns versos que me exalam O vivo odor das brasas que em mim estalam Se te encontro em silêncio, ó companheiro!       Maria João Brito de Sousa – 19.04.2014 – 14.48h

TRÊS SONETOS DE TRAZER POR CASA...

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        O ARROZ MALANDRINHO     Cebola, um grão de sal, folhas de louro, Bem douradinhos num pouco de azeite… Deixa a colher de pau de ser enfeite Pr`a tornar-se, no tacho, o meu tesouro!   Depois trago o arroz, limpo e escolhido, E vou-o alourando na mistura (vai começando a ser uma aventura fazer um arrozinho bem estrugido…)   Deito a água a ferver... alguns minutos, São quanto irá bastar ao meu petisco! Depois é só tapar, manter quentinho,   E, assim que doseados, os  produtos -  muito embora correndo um certo risco -, Servir-vos-ei arroz ... bem  malandrinho!     Maria João Brito de Sousa - 2009     AS ERVILHAS COM OVOS     Hoje vou preparar umas ervilhas Guizadas, com dois ovos bem escalfados, Sem deixar de falar dos mil cuidados Que aqui dedico a estas maravilhas;   Sobre aquilo a que chamo um estrugidinho, Deito as ervilhas, logo as vou mexendo Até que cozam bem, sempre fervendo, Ao ponto de ficar tudo tenrinho,   Depois os ovos, sem esquecer tempero, Pr`a que fique o pitéu mais...

UM SONETO POR GAZA

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(Decassílabo heróico) Por cada pequenino assassinado, Por cada ferida aberta ou cada grito De um povo dia a dia dizimado, Encurralado, exposto, exangue, aflito, Por cada obus de fogo ali lançado Por loucos prepotentes de olho fito Na criança inocente e sem pecado Gerada pela carne e não no mito, Para que o genocida pare enfim De chacinar sem dó, de destruir O abrigo improvisado em cada casa, Um soneto, mais um, vindo de mim, Para quem, dentre vós, consiga ouvir Cada grito de horror que ecoa em Gaza.   Maria João Brito de Sousa - 28.07.2014 - 12.13h