Mensagens

PARTIR SEM TER SONHADO...

Imagem
(Soneto em decassílabo heróico)     Sou, apesar de bicho, um bicho humano, Diurno, persistente, ensolarado, De corpo estoicamente habituado À dor do desconforto, ao desengano,   Às coisas que me vão causando dano E às outras que me vão criando enfado, Mas comigo convivem, lado a lado, Ao longo do percurso, ano após ano...   Se o digo, é por senti-lo e, sem cuidado, Dispenso-me sondar se, sendo, agrado, Se errei por nunca ter traçado um plano,   Mas caia, ou não, tal nódoa em limpo pano, Não vos direi que estou, sem ter cá estado, Nem que daqui parti sem ter sonhado!       MariaJoão Brito de Sousa – 19.01.2015 -23.45h  

IDEIA

Imagem
IDEIA * (Soneto em decassílabo heróico) * Saboreio a conversa e, volta e meia, Cansada de pensar, sonho o porvir; Eis tudo o que me posso permitir Adicionar ao pão que como à ceia * Na selva que me invade e me rodeia, Na vastidão que o verso consentir Na força que me faça prosseguir Ao ritmo da jornada da alcateia ... * Se a voz me falha, o verso me cerceia, Se a rima desafina ou me escasseia, Desisto sem sequer tentar fingir, * Pois só pensando sinto a própria ideia E nenhum deus me verga ou me refreia A mão com que a tentei reconstruir. *   Maria JoãoBrito de Sousa – 23.12.2014 – 16.24h

JANELAS

Imagem
  (Soneto em decassílabo heróico)   Ressoam mil palavras que iluminam Silêncios das janelas apagadas Que vão mostrando, ainda que caladas, O tanto que as vidraças nos ensinam E, sempre que as janelas nos dominam, Ficam, dentro de nós, perpetuadas, Palavras – tantas mil! - das que, adiadas, Não puderam ser ditas, mas fascinam Como coisas antigas, revividas, Que, assim que vislumbradas, decididas, Repetem, sem falhar; - Nós ficaremos! Janelas, quais palavras repetidas, Que doem, mas jamais serão traídas, Abertas sobre quem não mais veremos...   Maria João Brito de Sousa – 15.11.2014 – 23.22h       Ao meu camarada e amigo Zé Casanova. Até sempre, Zé!  

LARANJAS

Imagem
  (Soneto em decassílabo heróico)     Venho trazer-te oitavas de laranja, Dizer-te boa noite e bom descanso, Desejar-te, sincera, um sono manso Enquanto aqui vou estando a pão e canja...   Hoje venho deixar-te o verbo em franja Na fronte de um poema onde eu balanço E oferecer-te, nisto, o mais que alcanço, Porque além deste “mais”, nada se arranja...   Para ti escrevo agora, só sentindo, Adivinhando, quase, ou permitindo A mutação do gesto em sombra alada   Que faço esvoaçar, reconstruindo Palavras que disseste e fui fruindo Até darem laranjas, camarada...     Maria João Brito de Sousa – 05.11.2014- 21.39h

SÓ PARA NÃO DEIXAR QUE AS RIMAS GANHEM PÓ...

Imagem
(Soneto em decassílabo heróico)     Se assim escrevo, será por não saber Viver de outra maneira e ser quem sou Ou dar de forma estranha à que me dou E ser de alheia forma ao que sei ser     E se isto, amigos meus, não for escrever, Não saberá escrever quem me ensinou, Nem saberei dizer quem me enganou Quando tanto deixou por aprender,     Mas se triste me sinto ou triste estou, Já vos não sei dizer quem me afastou Desta força de, sendo, me dizer,     Nem se, acaso, houve alguém que se lembrou De lembrar-me de quanto me negou E, depois, se esqueceu de me esquecer.         MariaJoão Brito de Sousa – 22.10.2014 – 16.44h

NOUTRO DIA QUALQUER II

Imagem
    (Soneto em decassílabo heróico)   Noutro dia qualquer talvez vos diga Das razões de um poema aprisionado Na trincheira do sonho em que se abriga Quando se sente vão, velho e cansado...   Mistérios do poema. Quem lhes liga? Quem pode convencê-lo a ser cantado Se em silêncio se escapa da cantiga E teima em se manter distanciado?   Mas, duma fresta aberta em musa antiga, Sempre posso espreitá-lo e, com cuidado, Confessar-lhe esta inércia a que me obriga,   Mostrar-lhe que escolheu caminho errado (neste vislumbre, aquilo que me intriga, é vê-lo, embora vivo, assim, calado...)     Maria João Brito de Sousa – 03.10.2014 – 21.21h     Imagem - Azenhas, Amadeo de Sousa Cardoso  

O TEU SILÊNCIO, Ó COMPANHEIRO!

Imagem
      (Soneto em decassílabo heróico)   Por vezes vem de manso a voz do vento, Murmurar-me em segredo… e diz-me mais, Mais alto e mais audível que as normais Que por cá repercutem qual lamento   A que sempre faltou raiva e talento Mas soam como sopram vendavais, Bradando sem cuidar dessoutros ais Que ousem fazem soar seu desalento   Porque o sofrem na carne… e se não calam! Aos que possam provar que, quando falam, Bem mais razões terão que os do “poleiro”,   Junto o sopro de uns versos que me exalam O vivo odor das brasas que em mim estalam Se te encontro em silêncio, ó companheiro!       Maria João Brito de Sousa – 19.04.2014 – 14.48h