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MÃE - Soneto bordado a palavras de linho sobre cetim

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  (Em decassílabo heróico)   Nestes versos que engomo a ferro quente, sem uma ruga que ensombre, no fim, este lembrar-te quando, estando ausente, te não recordas nem sequer de mim,   Neste auscultar-te como se presente te mantivesse, eternizando assim, doce, a memória, quando é tão dif`rente de ver-te viva, bordar-te em cetim,   Neste dizer "talvez", nada sabendo - suave inocência dos momentos tristes -, nesta ilusão que sei, mas nunca entendo,   Te afirmo que, apesar de tudo, existes nestas palavras em que aqui te prendo e na certeza de que, em mim, persistes...     Maria João Brito de Sousa – 03.05.2015- 02.48h

ESTE MEU MAR II

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  (Soneto em decassílabo heróico)   Ó vagas do meu mar, loucas marés que ao longo de uma vida me perderam, ó jangadas de espuma, ó vãs galés de uns sonhos que em poema aconteceram,   Não sei se ainda estou sobre os meus pés se vos evoco e lembro que estiveram ao leme desta barca, ou no convés de um sonho que bem poucos conheceram   Mas, livre ou brutalmente aprisionada, o amanhã que o diga. Eu calo agora por hoje, ou para sempre, a voz magoada   Que me comanda a vida a toda a hora e a cada instante insiste em ser cantada, mesmo quando empurrada borda fora...     Maria João Brito de Sousa – 05.06.1015 -16.16h   Imagem retirada do Google  

PUNHAIS

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    Quero contar-vos quanto dói viver e não desisto mesmo que me calem que, desta raiva aos monstros do poder, nascerão versos, quando em raiva estalem!     Quero mostrar-vos que não sei perder sempre que as perdas de medos me falem e que, em vez de vergar, hei-de acender as chamas destes versos que me valem,     Que posso e vou falar, porque assim quero, dos tantos, destes tantos que procuram, no lixo, e com crescente desespero,     O pão que vai sobrando aos que o descuram... e mais não cantarei pois, se me esmero, aguço os mil punhais que me perfuram!         Maria João Brito de Sousa – 03.03.2015 – 20.07h          

SONETO COM EFEITOS SECUNDÁRIOS

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  SONETO COM EFEITOS SECUNDÁRIOS *   Da mesmíssima massa em que sois feitos por percorrer-me a carne um sangue igual, assumo como vós estes defeitos que expresso num poema acidental *   Tenho, decerto, humanos preconceitos, ínfimos medos que disfarço mal, gestos azedos, duros, imperfeitos, que se me escapam sem que eu dê por tal *   Mas como todos vós, tenho direitos: venha o que venha, do que é virtual, piso os atalhos, muito embora estreitos, *   Que ousei escolher sem previsão geral do que sabemos serem os efeitos de amar-se a vida e ser-se, assim, mortal. *   Maria João Brito de Sousa  02.05.2015 -19.48h         Gravura de Manuel Ribeiro de Pavia  

SONETO À RESISTÊNCIA

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  (Em decassílabo heróico)   Neste meu lugre-escuna – ou só jangada? - Vou resistindo enquanto vou podendo E venho-vos dizer que me não vendo Porque por preço algum serei comprada,     Nem minha embarcação será tomada, Pois, enquanto viver, nunca me rendo E o verso é sempre a força a que me prendo Enquanto dela sobre um quase nada...     Venho falar-vos desta força imensa, Que tremeluz, que tanto mais se adensa, Quanto mais vai tentando persistir,     Que me flui no sentir, porque se pensa, Que mesmo naufragada, exausta e tensa, Retoma a luta e faz por resistir!       Maria João Brito de Sousa – 09.04.2015 – 14.11h  

SONETO DO MAL MENOR

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  (Em decassílabo heróico)   Dá-me o ramo das rosas perdulárias comprado na florista já esquecida, armado no “bouquet” morto e sem vida das almas condenadas, solitárias... Dá-me uma – mais serão desnecessárias...- no ramo em que a chorei, porque, à partida, lhe condeno a razão de ser colhida, deixando, na raiz, funções tão várias, Juro que não protesto... e mais não digo! Hoje perco a raiz, enfrento o p`rigo e estou pronta a render-me sem chorar, Se o derradeiro golpe, esse inimigo que me arranca do mundo em que me abrigo, me degolar, de vez, sem me magoar.   Maria João Brito de Sousa – 26.03.2015- 15.08h  

GEADA NEGRA

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    (Soneto em verso hendecassilábico)   Perdoai-me agora porque mais não posso, Estou já pele e osso, quanto a poesia, Do carnudo fruto que antes produzia, Mal vejo o de outrora pequeno caroço,   Qual mero vestígio, qual simples destroço Do que então criava, do que então escrevia, Mesmo, em chão negado pela carestia, Sendo um vago esquiço, sendo um mero esboço.   Vibram já machados sobre essa haste nua, Sem um sol que a aqueça, sem que a esconda a lua, Pois desta colheita contra-producente,   Sem mais flor que a anime, fruto que a alimente, Fica só memória... quem sabe, a semente De outra humana história que a tomar por sua?     Maria João Brito de Sousa – 10.03.2015 -16.21h   Nota – O meu primeiríssimo soneto em verso hendecassilábico.