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JUGO(S)

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JUGO(S)   *     Estão claros, os dias. Que amarga aridez Os cobre de grês abafando utopias? Nas obras mais pias que julgas que vês, Escondem-se os porquês das razões mais sombrias.   *   Crês que as avalias se as lês e relês, Mas falhas se o crês, porque fazem razias Causando avarias que advogam mercês... Talvez, sim, talvez te ofereçam maquias * Que nem sonharias. Ah, que estupidez Crer que alguma vez as não quererias E as recusarias se, às duas por três, * Não vês, no que vês, senão regalias... Restos, não fatias, virão, mês a mês, Do jugo do arnês com o qual te atavias. *   Maria João Brito de Sousa – 23.02.2020 – 14.48h

FRAGMENTO

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FRAGMENTO (Sonetilho) *   Não sei se posso ou não posso, Nem sei se quero ou não quero... Há um fosso, um fundo fosso Entre o que faço e o que espero.   *   Dou corpo ao pouco que esboço Pouco mais tendo que zero; Desnudo-me até ao osso Do meu próprio desespero.   *   Nem raiva, nem rebeldia, Nem o grito que arrepia A alma de quem me ler;   *   Só isto. Esta tentativa De vos mostrar que estou viva Inda que estando a morrer. *     Maria João Brito de Sousa – 09.02.2020 – 13.55h  

OS MEUS OLHOS

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OS MEUS OLHOS   *   Já viram, estes olhos, tanta dor, Tanto espanto, tristeza e alegria, Que, agora, me condenam ao torpor De ver dez vezes menos do que via. *   Minh`alma ousa sair da letargia, Eriça cada espinho, abre-se em flor. Debalde o faz. Demora, a cirurgia, Muito mais do que alguém possa supor.   *   Vou despir-me da flor, tornar à pedra, Essa, na qual a flor só nasce e medra Quando tiver razões pra florescer.   *   As pedras nada vêem, nunca mentem, São tão impenetráveis que não sentem, Tão cruas que não querem nem saber. *       Maria João Brito de Sousa – 23.01.2020 – 13.12h *   Lembrando o poema METAMORFOSE, por mim escrito em 1990/91 *   Tenho alma de papoila; Mal se toca, mal se agita, Caem-lhe as pétalas todas E fica morta, despida. *   Outras vezes, a papoila, Só por força do dever, Transforma-se em rocha dura, Resiste à dor, à tortura, Nada a pode demover.   * Mas rocha bruta ou papoila, No palco fica a mulher; Eu, metamorfoseada Em anjo ou alma penada, Ora papoila, o...

AINDA A VIDA

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AINDA A VIDA   * Fosse este ainda o tempo em que eu sentia Que, tal como essa flor, desabrochava Da aridez de uma pedra nua e fria Que, em troca, não me dava quase nada...   *   Mas não. É outro o tempo e a cada dia Me descubro mais murcha e mais frustrada; Não sei sonhar se vivo em agonia, Nem florescer assim, estando vendada.   *   Nada invejo, porém. Estou velha e gasta, Mas ver-te, flor rebelde, é quanto basta Para saber que a vida vale a pena.   *   Da nudez do granito, pura e casta, És grito a despontar na escarpa vasta, Na rua ou na viela mais pequena.   *   Maria João Brito de Sousa – 20.01.20- 12.00h *   NOTA - Soneto escrito para um desafio poético lançado pelo "site" Horizontes da Poesia. Também a imagem foi retirada do desafio desta semana.       

BRINCANDO

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BRINCANDO *   Pusilânime, o velcro do sapato Abre-se e mostra a meia e expõe o pé Que disso não dá conta, que não vê, Nem sente quanto agora vos relato.   *   Quem nisso reparou, foi o meu gato Que mal assim o viu, que mal deu fé Do velcro a ir e vir como maré, Julgou ter visto a cauda de algum rato.   *   Fundem-se, gato e pé, numa só massa Que gato que se preze, um rato caça, Ainda que de velcro e cabedal   *   Ninguém tirou proveito da caçada; Escapei, mas fiquei toda esgatanhada E dei um raspanete ao animal.   *     Maria João Brito de Sousa – 13.01.2020 – 11.48h

DA AUSÊNCIA

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DA AUSÊNCIA *   Da tua ausência e – porque não? – da nossa, Emana uma aura fosca e baça e crua, Uma ilusão de luz, como se lua De um astro em que se fez menina e moça. *   Enquanto essa ilusão de nós se apossa Qual rio que em calmo lago desagua, A ausência, mais que minha, mais que tua, É sal que salga a vida e mel que a adoça. *   Nessa ausência, que vai ganhando vulto, Transmuta-se a abstracção em verbo oculto A que o sonho dá corpo e cristaliza *   E tudo o que era ausência é já presença Que dita o que se sente, o que se pensa, E cresce enquanto a mente idealiza. *     Maria João Brito de Sousa  - 30.12.2019 – 10.15h     Imagem retirada  daqui   NOTA - Despedindo-me de 2019 e abrindo os braços a 2020, boas entradas para todos vós, companheiros de jornada!

MÁTRIA II

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      MÁTRIA II   *   Por baixo, por cima, por dentro e por fora, De azuis se decora, de verdes se anima, Toda se sublima na fauna e na flora Que sobre ela mora. Terra, inda menina!   *   Aos reptos do clima, ela os elabora E o Sol que a namora e que a insemina, Jamais a domina quando se demora Sobre ela que cora se del`se aproxima.   *   Que céus congemina? Que infernos deplora? Que diz quando chora num chão que germina Se alguém contamina o espaço em que ancora? *   E, hora após hora, reflecte e rumina Sobre o que se ensina(1). É dona e senhora, Mátria e criadora de quanto fascina!   *   Maria João Brito de Sousa – 17.12.2019 -08.00h       1) O que se ensina – Aquilo que a si própria se ensina, numa perspectiva evolucionista