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PÉS DE BARRO- Reedição

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PÉS DE BARRO * Dar-vos-ia o que tenho, nada tendo: O intenso travo a sal do mar que sou, A fonte de onde o verso me brotou, As mãos com que me rasgo e me remendo, * A dúvida, a certeza e quanto entendo De uns nadas de que a vida me dotou, A beleza que tive e já murchou, A musicalidade a que me prendo, * A rosa, o espinho, a força, o estro, a chama E tudo, tudo aquilo a que me agarro Pra manter-me de pé, fugindo à cama... *   Poeta sobre frágeis pés de barro, - que mil vezes prefiro a ´mãos com lama`.. - Eu dar-vos-ia o céu... por um cigarro! * Maria João Brito de Sousa 20.01.2017 - 16.11h ***

SONETO PROLETÁRIO

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SONETO PROLETÁRIO * Nas redacções do meu imaginário, Agora menos fértil, mais cansado, Se (a)colho um verso humilde e proletário, Fico segura de não ter errado * E sigo em frente. O texto, solidário, Flui no papel como regueiro em prado E a Musa empunha o sacho do cenário Que enquanto escrevo vai sendo lavrado * Mas se perto do fim as mãos me doem, Se os olhos se me cerram de cansaço A quatro versos - ai! - do fim do texto, * São os sachos que lavram e compõem Estes últimos versos, traço a traço, Pra que o regueiro venha aguá-los, lesto. * Mª João Brito de Sousa 30.11.2022 - 10.50h ***   Imagem - "Peasant Woman", Vincent Van Gogh

AQUELE VERSO QUE UM DIA PERDESTE- Reedição

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AQUELE VERSO QUE UM DIA PERDESTE *   Àquele verso que se te escapou Quando te passeavas na cidade, Julgo ter sido eu quem o achou No chão caído e morto de saudade * Desse poema que nem começou Por culpa sua, ainda que a vontade Lhe pedisse uma urgência que calou Por ter perdido a oportunidade. * Quis devolver-to mas, fragilizado, Dissolveu-se inteirinho ao ser tocado Embora eu lhe tocasse tão de leve * Que pareciam seda, estes meus dedos... Versos perdidos são como os segredos: Se descobertos, têm vida breve. *   Maria João Brito de Sousa 21.01.2019 – 14.12h *** Poema reformulado

FOI NUM NATAL MUITO FRIO

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FOI NUM NATAL MUITO FRIO * I * Era o Inverno mais frio De que podia lembrar-se, Mas nem tentou lamentar-se: Se gritou, ninguém ouviu * Corressem-lhe, embora, a fio As águas, a agigantar-se Cada dor até soltar-se O filho que então pariu... * Era o vento que soprava, E era a chuva que, impiedosa, Açoitava o velho quarto * Mas só no filho pensava Quando sobre a colcha rosa Suportava as dores do parto * II * Nunca teve anjo, nem estrela Que a viesse iluminar, Só o menino a chorar, Num cestinho à luz da vela * A criança, o cesto e ela, O improviso de um lar Onde ela o põe a mamar Sob um céu que a agride e gela... * Não veio nenhum rei mago Trazer-lhe ouro, incenso e mirra, E nem sequer José veio * Fazer-lhe um pequeno afago Na desmedida barriga Nem dar-lhe um pão de centeio * III * Nesse Dezembro gelado, Nem vaquinha, nem burrico, Só da chuva algum salpico Saudou o recém chegado * Pequenino ali deitado, Tão pobre e de amor tão rico Quão emocionada fico Por havê-lo aqui citado... * Mas esse ...

SOLUÇÃO

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"É UM GRITO DE ESPERANÇA"

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"É UM GRITO DE ESPERANÇA" * "É um grito de esperança" A gargalhada sadia Que nos vem de uma criança Que quase nunca sorria... *   Quando a fome te tolhia, "É um grito de esperança" Se a barriga  então vazia Se enche agora com temp`rança * Assim que chega a bonança, Se a tempestade rugia, "É um grito de esperança" Cada estrela que nos guia * E quem fez a apologia De um Abril, então pujança, Ouviu alguém que dizia: "É um grito de esperança"! * Mª João Brito de Sousa 26.11.2022 - 18.35h ***   Poemeto criado a partir de um verso/mote de Vitor Fernandes para uma rubrica do Horizontes da Poesia

SE A NAVALHA NOS FALHA, OSCILA E CAI - Reedição

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SE A NAVALHA NOS FALHA, OSCILA E CAI * Se, no fio da navalha caminhando, A navalha nos falha, oscila e cai, Sem um suporte, tudo se nos vai E sem asas, nem chão vamos ficando... * A que nos agarramos se, oscilando, Até o gume, de repente, trai Aquilo que nos nega e que subtrai Ao pouco que antes fomos avançando? * A própria Musa, desasada fica, A corda, retesada, já não estica E os versos, um a um, caem também * Da tal pauta invisível que os prendia Ao fio duma navalha que os servia E que não serve agora a mais ninguém. *   Maria João Brito de Sousa 11.01.2019 – 12.16h ***