A BARCA DE CARONTE (Ao Poeta António de Sousa)


 


Sou, por tua vontade, ó mar ingrato,


Da Barca de Caronte o timoneiro;


Nela percorro o Universo inteiro


Em busca do pecado ou do recato.


 


E, nela, o meu destino, esse insensato,


Me condena ao inferno derradeiro


De eterno comandante e prisioneiro


Da barca a que me prendo, onde me mato...


 


Aqui, neste vai-vem, eu nasço e morro


Mil vezes por segundo em cada dia


Das mil eternidades por chegar


 


E, pr`a mim não há esp`rança de socorro,


Nem porto para a barca da agonia


A que me condenaste, ingrato mar...


 


Maria João Brito de Sousa - 27.02.2008 - 12.54h


 


Na foto, Miguel Torga e António de Sousa


em Coimbra, 1937.


Fotografia retirada do JL de 16.03.1981


 


NOTA - O soneto é de minha autoria e quem, como eu, tivesse vivido junto dele durante tantos anos, saberia que o "vestiu" na perfeição das suas horas mais amargas...


 

Comentários

  1. espero que estejas melhor.
    bj

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    1. Ligeiramente melhor. Estou a constatar, da pior forma, que esta maravilha que é ser poeta, colide fronal e brutalmente com a minha condição de munícipe e cidadã. Esqueci-me completamente de renovar em Janeiro os papéis da Seg. Social! Congelaram-me o subsídio e agora quer possa quer não possa vou ter de ir a imensos sítios e fazer uma montanha de diliigências.Desculpa lá o desabafo, Estrelinha. Estou furiosa comigo mesma!

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    2. Tás á vontade para desabafar, espero que tudo se resolva.
      bj

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    3. Olha amiguita, quando damos, obstinadamente, o nosso melhor, as coisas acabam por fluir e a vida enche-se de pequeninos milagres! O sbsídio veio hoje, embora eu não tivesse renovado os papéis!
      É muito poucochino, mas vai dando para sobreviver...
      Um abraço muito, muito grande para ti, Estrelinha que brilhas mesmo!

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  2. Fantástica, a forma como o jogo de palavras é entretecido entre versos sublimes e emoções transbordantes...!

    Votos de uma noite magnífica!

    Um beijo... :-)

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  3. ...Aqui, neste vai-vem, eu nasço e morro
    Mil vezes por segundo em cada dia...

    Sem palavras...
    Beijinhos e as melhoras

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  4. A ti dou que não pediste
    A minha opinião;
    Mas ousaras tu pedi-la..
    Já eu não sei, não sei não...

    Resmoeria palavras,
    Torceria o pensamento
    E diria, boca larga
    Mero fútil cumprimento.

    Assim digo-te a verdade:
    Vezes, leio-te sem ler
    E sinto tal àvontade
    Que fecho os olhos pra ver.

    Se me permites, dá-me a tua mão e vamos brincar defronte dos olhos de Caeiro como o menino que salta nas poças e puxa o rabo aos burros e levanta as saias às cachopas e rouba fruta nos pomares. Depois podemos voltar de novo à (des)graça de ser poeta.

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    1. Vamos embora Yodlery! Vamos enfrentar, com a alma rasgada num abraço, esta imensa e desgraçada Graça de "Ser Poeta"!

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