TRÊS SONETOS DE ABRIL


 


UM DIA... FEZ-SE ABRIL!


*


 


Um dia fui poema e fui palavra,


Ergui-me, floresci nas carabinas


E semeei canções pelas esquinas


Como quem enfim colhe o que em si cava!


*


 


Um dia  fui mais longe e mais além


E acendi minh` alma e cantei mais...


Um dia eu fui dif`rente entre os demais,


Um dia...  fui feliz como ninguém!


*


 


Agora Abril é hoje, Abril é sempre,


Abril é cada dia em que eu viver


Com a alma a sorrir num sonho em flor


*


 


Pois fez-se Abril, um dia... e fui semente,


Fui sonho e liberdade a florescer,


Partilha, comunhão, renovo e cor!


*


 


Maria João Brito de Sousa 


 


ABRIL EM NÓS


*


 


Havia tanto azul por inventar


Neste país amorfo e tão cinzento...


E um grito germinou deste lamento


Nma voz que ninguém pôde calar


*


 


Havia Abril em nós, mas sufocado,


Um Abril estrangulado e por nascer,


Que levedava em nós, sempre a crescer,


Pujante, inevitável, adiado...


 


Neste país com medo em cada voz


Onde sonhar-se um sonho era punido


Com grades de prisão, dor e tortura,


 


Nasceu, um dia, Abril em todos nós;


Bendito seja o sonho enfim cumprido


Por quanto desse Abril em nós perdura!


 


Maria João Brito de Sousa


 


 


UMA FLOR CHAMADA LIBERDADE


 


Aonde, ó estranha flor que em mim floresces,


Dessa tua raíz, a nova urgência?


Em pétalas da cor de outra impaciência,


Hás-de ousar ir além, sempre que cresces!


 


Nasceste em dura fraga, ou penedia,


Sempre em busca de um sol que te pertence


E a fraga é sempre a terra onde tu vences


Sobre uma haste de sonho e de utopia


*


 


Por ser a flor em nós que abraça Abril


Nos braços da raíz dessoutro crer


Que é feito de justiça e de igualdade


*


 


E, onde floresça um cravo, há sonhos mil,


E há mais fraternidade a renascer


Sobre este renovar da LIBERDADE!


*


 


Maria João Brito de Sousa 


26.04.2008 - 12.35h


 

Comentários

  1. bonita a ode á liberdade, como só alguém "bonito" como tu pode exaltar.
    beijinho

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    1. Nós somos todos bonitos por natureza. O único problema é que alguns ainda não o descobriram...
      Beijinho!

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    2. Boa tarde ,só hoje li o seu poema de Abril como é belo, quantos de nós sentimos estas palavras , e continuaremos a sentir enquanto nossas bocas tiverem força para gritar.Abril é nosso e ninguem nos vai roubar esta palavra mágica que nos deram. VIVA ABRIL VIVA A LIBERDADE .
      bem haja ester de sousa

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    3. Olá, Ester! Muito obrigada pela visita.
      Pode não ser muito fácil saudar Abril desta forma festiva quando se vive, como eu vivo, na mais profunda penúria e sem grandes hipóteses de despender os esforços físicos que a maioria dos trabalhos passíveis de salário exigem. Mas sempre saudarei Abril!
      Um abraço!

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  2. Bonitos os três sonetos, uma linda homenagem á liberdade, que nós queremos que dure muito, mas que seja melhor aproveitada.

    Boa tarde, até logo

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    1. Há sempre muito que fazer, minha amiga, sempre. Uma das coisas importantes que ganhámos foi sabê-lo e poder dizê-lo... continuemos a construir Abril!
      Um grande abraço!

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  3. Amiga!
    Obrigado por não esquecer ABRIL!
    Abraço apertado! António

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    1. Meu amigo António! Como poderia eu esquecer Abril? Vivi 21 anos antes dele... o meu ex-marido fez parte do movimento, ainda que de uma forma modesta e iria embarcar para Angola pouco tempo depois.
      Como poderia eu esquecer Abril?
      Abraço!

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  4. Amigaaaaa , uuuu !!! Estas ai? Quando puderes, da um pulinho ao meu blog. hihihihihi Jo

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    1. Vou já, Jo, vou já. Só cheguei agora. Estive fora durante a tarde.

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  5. Lindos Poemas tão belos quão foi aquele dia 25 de Abril em 1974.

    Parabens

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    1. Ai, Maria! Eu bem pus neles toda a minha alma, mas poucas coisas podem ser tão lindas quanto aquele dia de Abril...
      Um grande abraço para ti!

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  6. Neste país com medo em cada voz
    Onde sonhar um sonho era punido
    Com grades de prisão e com tortura

    Sonhar não é crime, nunca foi e nunca será...
    Lindos!

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    1. Nunca o foi nem nunca o será, mas em tempos era considerado "perigoso". Sobretudo este tipo de sonhos que nós temos, que nos falam de igualdade e fraternidade, que querem dar voz a todos os homens de boa vontade...
      Um beijinho grande!

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  7. Sabes, amiga, é triste constatar que existe novamente medo em cada voz... Às vezes, tenho a horrível sensação de que atrás de cada um de nós pode estar alguém com instintos pidescos. Veja-se o que aconteceu ao autor do blog "Do Portugal Profundo", veja-se a manipulação encapotada a que é submetida a comunicação social. Mas, o ainda mais me entristece é perceber que os mais jovens nem sequer sabem o que aconteceu neste dia que deveria ser um dos marcos maiores da nossa história.
    Não tendo sido um processo isento de alguns excessos, a revolução trouxe a tão desejada liberdade. Saibamos e possamos lutar contra aqueles que a querem limitar...!

    Votos de uma óptima noite e de um excelente domingo!

    Um beijo e um enormeeeeeee sorriso... :-)

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    1. Tens razão V.A.D. Já tinha reparado que a comunicação social está a ser cada vez mais tendenciosa e começo a sentir, de novo, posturas "pidescas" em certos meios... mas sou muito ignorante. Ando nisto há pouco tempo, não tenho tempo para ver os noticiários e quase nunca tenho dinheiro para comprar jornais. Até tenho alguma vergonha de te pedir isto, mas podes dizer-me o que se passou com esse blogger? Palavra de honra que não sei de nada...

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    2. Minha amiga, não podemos estar a par de tudo. O blogger que mencionei teve a coragem de denunciar as estranhas questões que envolvem a pseudo-licenciatura do primeiro-ministro... Lê o que lhe aconteceu, descrito por ele próprio:

      "(...) Uma busca nocturna de minha casa e outra busca nocturna a casa de minha mãe, e a busca do carro de minha mulher com as crianças lá dentro, por causa da suspeita do gravíssimo crime de desobediência simples (de que fui absolvido); a apreensão da minha tese de doutoramento (!) durante sete meses; quatro processos (um que fui absolvido de desobediência simples, com o veredicto a ser confirmado pela Relação de Coimbra; outro por queixa de Paulo Pedroso, que pretendia a eliminação do meu blogue e a confiscação do meu computador, que foi arquivado pelo Ministério Público, sem uma desculpa!, várias semanas após ter declarado no processo, quando fui inquirido e constituído arguido, que queria agir judicialmente contra quem me referiu num processo com o qual nada tinha a ver, com o argumento de que se tinha tratado de "um manifesto lapso"; outro intentado pelo primeiro-ministro enquanto tal e cidadão José Sócrates que foi arquivado pelo Ministério Publico que notificou o PM e cidadão Sócrates para deduzir acusação particular, o que não este fez; e outro por outra queixa de Paulo Pedroso em que vou a julgamento em 15 de Maio acusado de 49 crimes de difamação). A plena consciência da capacidade de sequestro, por submissão e medo, do poder judicial pelo poder político, e do domínio do poder legislativo, a que se podem opor poucas excepções de coragem; a consciência do arbítrio absurdo da tendência de desigualdade, inversão e prioridade, da justiça no confronto entre as pessoas de poder e o simples cidadão ou a vítima indefesa - até no que respeita aos instrumentos da lei, as penas e as indemnizações (podendo valer uma qualquer difamação de alguém do poder político-económico várias vezes um abuso sexual de uma criança órfã ou um homicídio); a consciência de que até num ambiente de crime, corrupção e abuso - ou por causa disso mesmo!... - o sistema judicial (e a lei) tende a proteger mais a depauperada honra dos políticos, mesmo quando referidos em processos judiciais gravíssimos, do que a liberdade de expressão dos cidadãos, acabando por colaborar na bofetada do poder político aos cidadãos activos (Strategic Litigation Against Protecting People - SLAPP), na mordaça e auto-silenciamento. E, ainda nesta deriva para-ditatorial do Estado, a inevitável perseguição profissional coincidente."
      (Publicado por António Balbino Caldeira em 4/20/2008 01:29:00 PM no blog http://doportugalprofundo.blogspot.com/)

      Infelizmente, amiga, a afirmação que fiz acerca do medo que novamente existe em cada voz, não é feita de ânimo leve...

      Votos de uma óptima noite!

      Um beijo... :-)

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    3. Obrigada pelo teu esclarecimento, V.A.D. Não imaginava que as coisas chegassem a um ponto destes! Eu "sentia" qualquer coisa indefínivel, uma espécie de "arrepio", uma luzinha de alarme a acender algures no subconsciente... mas isto! Isto é, realmente, mais grave do eu pensava!
      Um grande abraço e obrigada pela informação e pelo link.

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  8. Olá "mamã"!
    Tenho pena que a minha geração não possa desfrutar em pleno de tudo de bom que podia e devia ter vindo pós 25 de Abril, mas que por sucessivas más governações nos deixaram "à rasquinha".
    Mas como o Português tem sempre sorte, do mal, o menos e podíamos estar pior.

    Um beijinho de boa noite

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    1. Tens razão. Isto anda mauzito, anda. Mas pelo menos ainda não temos a casa invadida pela PIDE depois de fazermos comentários destes. Sabes, nesse tempo, quem tivesse dois dedos de testa e não fosse do regime vigente era um alvo a abater... quem soubesse sonhar era considerado "suspeito", era seguido, vigiado, muitas vezes detido pela posse de obras literárias que hoje sabemos ser inofensivas e correntes...
      Eu cheguei a correr à frente da Polícia Militar
      por causa de estarmos em grupo a discutir ideias e soluções quando éramos estudantes.
      Qualquer ajuntamento que reúnisse mais de 3 pessoas em locais públicos era visto e tratado como uma ameaça de "terrorismo".
      E agora um beijinho e que tenhas doces sonhos!

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