A POBREZA
Sim, sofro como sofrem os magoados,
Mas nunca como sofre o desistente!
Se sofro, é duma dor que, embora urgente,
É deste mundo e não me dá cuidados...
Sofro da fome que é dos deserdados
Daquilo que faz falta ao ser vivente,
Daquilo que pensei ser-me indif`rente
Porque não vem nos versos nem nos quadros,
Daquilo que não posso dispensar
Por força do meu espírito estar preso
À carne que me rende e que eu desprezo...
E esta ambivalência a condenar
Urgências da minh`alma, como um peso
A esmagar no meu corpo o fogo aceso!
Maria João Brito de Sousa - 19.08.2008
Imagem - "O Guardador de Almas"
Pastel Sépia s/ Canson
Maria João Brito de sousa, 1999
Minha amiga:
ResponderEliminarSe tivesse ao meu lado pode crer que lhe daria um abraço do tamanho deste soneto. Eu já nem sei qual dos que eu mais gosto mas este, minha senhora, é dos melhores.
Irra que a Maria João tira as palavras à gente!!!
Abraço
António
Não lhe vou mentir! Estou toda "babada" por causa das suas palavras... mas garanto-lhe que alguns dos seus poemas (muitos!) também me deixam sem palavras a mim!
EliminarUm abraço!
(E o sapinho "babado")
Sabe que às vezes os elogios estragam-nos. Às vezes começamos a pensar que somos realmente alguma coisa de jeito, mas já não me lembro, mesmo com comentários favoráveis, da última vez que me achei realmente poeta. É ridículo o que vou dizer mas, costumo dizer que os meus poemas são de curta duração. Leio-os na altura e fico contente. depois, quase me envergonho de tê-los escrito.
EliminarEspere lá, Poeta! Vergonha... quase?
EliminarEu sei que nós somos seres um tanto ou quanto desconcertantes e paradoxais, mas eu não me envergonho nada dos meus poemas e acredito que sou tão poeta quanto um Cesário Verde, ou um Manuel Maria! Os seus poemas são bons! Se os cria quase por compulsão é, sem dúvida, poeta.
Tome lá o sapinho "atónito", a ver se tem um pouco de juízo...
É como o Álvaro de Campos diz num dos seus poemas em que, para além dos milhares de poemas escritos por ele, sentia que não tinha feito nada.
EliminarEnfim, no fundo até acho positivo ter uma alma eternamente insatisfeita.
abraço, amiga
António
O Álvaro de Campos nãoé o meu heterónimo favorito do Pessoa. Venero muito mais a satisfação genuína do Alberto Caeiro. Ter uma alma insatisfeita faz falta, ou ficaríamos felizes e contentes om o nosso primeiro e último poema. Provavelmente sentir-nos-iamos realizados após o primeiro poema, o que faria de nós tontos para além de nacisistas.... eu gosto o que estou a fazer, do que já fiz, mas, acima de tudo, do que ainda posso vir a fazer. Não penso que seja uma pessoa insatisfeita. Oque já fiz não é mau mas preciso sempre de fazer mais ou a minha existência não faria qualquer sentido. Se o que vier a fazer for melhor... melhor ainda! No plano material é que me satisfaço sempre com muito pouco .
EliminarUm abraço!
...entro aqui humildemente sem palavras para exprimir
ResponderEliminartudo o que minh'alma sente quando leio e sinto o que escreves.
Maria João, tudo o que te falta na carne
sobeja-te no espirito.
E isso, Mulher, isso é a maior das riquezas.
Beijinho
Obrigada Flor! Que palavras tão bonitas! Se ficar muito feliz com o teu comentário é vaidade, então eu sou vaidosa! Muito vaidosa!
EliminarUm grande abraço para ti!
Não vou dizer muito mais do que já foi dito.
ResponderEliminarEu também adorei o soneto, eu também nunca estou satisfeita com o que faço, quero fazer sempre mais e melhor, e o que escrever a seguir há-de ser sempre melhor do que o que já foi feito, ou pelo menos eu tentarei fazer melhor.
Eu acho que quem faz seja o que for não pode ficar satisfeita, logo nas primeiras coisas que faz, tem é que pensar que o que vem a seguir vai ser melhor , senão a vida deixa de ter graça, e pára. Boa noite
Eu também penso assim, minha amiga. Que graça teria a vida se logo nas primeiras coisas que fizéssemos ficássemos satisfeitos e sem vontade de fazer mais e melhor? A necessidade de "fazer coisas belas" é uma característica do ser humano. Talvez uma das nossas melhores características.
EliminarUm abraço e uma boa noite!
Lindo Maria João.
ResponderEliminarSempre sofremos com certas dores
Mesmo na urgência, somos indiferentes
E pobre coitados aos olhos daqueles que nos deveriam dar melhores condições de atendimento. É mínimo isto deveriam fazer.
Abraço.
Tens razão, Velucia. Um pouco mais de humanidade, de dedicação e todos nós poderíamos sofrer bem menos em situações de urgência. Houve um tempo em que me vi obrigada a tirar um cursozito profissionalizante que incluía um estágio hospitalar de 12 meses. Durante esse período eu pude confirmar as imensas falhas nas instiuições de Saúde Pública, sobretudo em termos do mais básico que deveria ser a capcidade de atender ao sofrimento de pessoas e não de "números".
EliminarUm abraço.
Olá amiga Poeta. É sempre com emoção que soletro cada palavra, onde tu com tanta mestria, clareza, amor e carinho, descreves nos teus sonetos, o que és, como o vives, sentes. É um feito de alguém que é muito grande, naquilo que faz. Obrigado por seres assim. Um grande e merecido abraço.
ResponderEliminarObrigada meu amigo. Penso que não mereço um elogio tão grande. O que eu sou é muito teimosa e não quero morrer sem deixar por cá o meu "rastozinho". Se calhar, se não fosse esta teimosia toda, já tinha mesmo morrido. Eu penso que a vida se extingue quando deixamos de ter objectivos.
EliminarUm grande abraço.
Olá Amiga Maria João. Eu não diria que a vida se extingue, mas sim que ela deixa de ter interesse. Um abraço.
EliminarOlá Amiga Maria João. Eu não diria que a vida se extingue, mas sim que ela deixa de ter interesse. Um abraço.
EliminarOu isso, meu amigo. Mas quando a vida não tem mesmo qualquer interesse, acaba por se extinguir, porque o resto é só vegetar. Eu sinto isso, mas não quer dizer que nao sintas de um modo diferente.
EliminarUm abraço grande!
Olá Maria João. Tu sentes e todos sentem, penso eu. Só que há quem se recuse a aceitar, e por isso sofre muito mais. Um abraço.
EliminarÉ verdade, Eduardo. Conheci gente que tentava manter vivos os seus entes queridos, num estado que ja nada tinha de humano. Era um sofrimento atroz para todos!
EliminarAbraço!
Amiga. Maria João: Tu pensas e eu também penso, que seja um sofrimento atroz, mas eles não o fazem por mal e nem os podemos condenar por isso, trata-se de uma recusa sistemática em os deixar partir, e isso se traduz num tão grande sofrimento que os priva de pensar que é errado o seu propósito. Mas é com certeza muito triste quando se prevê que se vai perder uma guerra na qual se investiu, tudo o que foi humanamente possível, investir. Um abraço. Eduardo.
EliminarEu sei, amigo eu sei. Não os condeno de maneira nenhuma! Entendo perfeitamente essas pessoas e tenho imensa pena delas porque consigo "sentir"o qu estão a sofrer...
EliminarOlá amiga João. Ainda bem que percebes, nem poderia ser de outra forma. Porque é de facto um sofrimento muito grande que essas pessoas passam enquanto não se desligam fisicamente dos seus entes queridos. Um abraço. Eduardo.
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