HUMANA CONDIÇÃO IV


Era, e sobre si girava e tudo via


E nada do que fez foi feito em vão.


Era, no que fazia, a tentação


De dar-se muito mais que o que podia...


 


Ele era inteiro em tudo o que fazia:


O barro de si mesmo em gestação,


Moldando-se ao sabor duma abstracção


Desse mundo ideal que o recebia.


 


Assim se fez. Cresceu, teve meninos,


Tornou-se pai de todos os destinos


Por carregar as culpas de um segredo...


 


Depois emancipou-se e fez-se humano.


Pecou e provocou tamanho dano


Que acabou por morrer de puro medo.


 


 


 


"O Guardador de Almas" -


Maria João Brito de Sousa, 1999


 

Comentários

  1. Oi Maria
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    Estou sentindo algo no ar.

    E estou com pressa.

    Até logo mais

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    1. Até logo, Velucia. Segue sempre esse algo que sentires no ar!
      Abraço.

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  2. Olá, minha amiga:

    Mais uma vez é o seu soneto é brilhante e claro, transparente e sente-se que lhe sai da alma não por força, mas por um suspiro leve cheio de tranquilidade.

    Um enorme abraço

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    1. Olá Poeta. Obrigada pela visita. Ainda tenho alguma intranquilidade que partilho com toda a espécie humana (e/ou vice-versa...), mas ela não passa pela poesia, pelo menos enquanto a estou a criar, assim, de um fôlego. Mesmo quando era jovem, agora que falou nisso, havia bastante serenidade na minha poesia.
      Por vezes uma ironia de dentes cerrados, mas serena, apesar de tudo.
      Olhe, acho que o Poeta me desatou os cordões à alma! Estou para aqui num bla-bla-bla que não tem fim...
      Abraço grande.

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  3. Boa Noite, Maria João, este soneto está lindíssimo com sempre
    Agora vou jantar, e mais tarde dou aqui um saltinho. Até já

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    1. Até já , minha amiga. Eu hoje comi uma sopinha no cafezito e estou agora a beber o meu chazinho quente.
      Um abraço.
      PS- Há uma maioria de alentejanas na nossa mesa e hoje cantou-se - em voz bem alta! - o "Ó rama, ó que linda rama..." e "As meninas da Ribeira do Sado". Tudo bem. Ninguém foi preso...

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    2. Agora está na hora de ir para a caminha, fico muito contente, com a sua boa disposição, acho muito bem , até porque tristezas não pagam dividas.
      Até amanhã e uma muito Boa Noite

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    3. É isso mesmo, minha amiga! Mas estou um bocadito assustada com a net hoje. Ainda agora o pc deixou de responder, pela 2ª vez, hoje... bem, de vez em quando estas maquinetas pregam-nos um sustozinho que não será suficiente para acabar com aminha boa disposição de hoje!
      tenha uma boa noite.

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  4. Este vai direitinho para a minha "galeria" de favoritos. É impressionante como se pode dizer tanta coisa com tão poucas palavras. Um abraço.

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    1. Nem eu conhecia essa faceta do soneto, até começar a explorá-la, há pouco mais de um ano. Continua a achar que os sonetos são óptimas ferramentas de trabalho!
      Obrigada pelas palavras e pelo gesto, Manu.

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  5. Sabes que tudo isto é vida. Vou atrás dos outros porque tudo é novo. Eu com 50 anos esqueço-me que os humanos também são velhos e não são ingénuos. Somos de facto uma abstração, alegre comparticipação partilhada pela absorção do absinto que anestesia os sentidos e nos transporta à lei da vida. É dar sem receber nada em troca. É olhar a esboçar um sorriso, uma cantiga, uma bolacha e um frio que se absorve no bafo comum de quem não admite desistências, e mais difícil, individualização.
    Hoje há conquilhas, amanhã não sabemos...
    Um beijo

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    1. Para amanhã estou a "cozinhar" um texto, para a Fábrica de Histórias. Descobri-a ontem e resolvi aceitar o desafio!
      Ali, na nossa mesa do café, vive-se a raríssima magia de sermos imortais enquanto partilhamos sopa, garotos, abatanados, copos de água e bolachas. Não inventámos a pólvora mas conseguimos pô-la em prática.
      Reparaste que somos mesmo felizes? E a felicidade contagia-se e cresce como os ramos de uma árvore carregadinha de frutos que alimentam a alma.
      Um grande abraço para ti e até amanhã!

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  6. Olá Maria
    Pois vou seguir sim este "sinto algo no ar!"
    Mas nem sempre podemos trasmitir o que sentimos, pois podemos cair em interpretações errôneas.
    Admito que este soneto é lindo!

    Vou adicioná-lo.

    Um abraço

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    1. Eu sei, Velucia. Apenas seguimos esse "algo" que sentimos, como a água de uma nascente que segue o seu percurso natural.
      Obrigada por teres adicionado este soneto.
      Abraço.

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